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Fantastic Entrevista - Helena Caldeira: "O trabalho do ator passa por zonas muito diversas, o mundo e nós estamos em constante mudança"

Foto: Direitos Reservados

Helena Caldeira começou os seus estudos artísticos já no ensino secundário e seguiu para a universidade onde estudou teatro. Com apenas 25 anos, conta já com vários projetos no seu currículo, principalmente nos palcos. Atualmente, integra a telenovela Bem Me Quer, da TVI, onde interpreta a cómica Marlene. O Fantastic esteve à conversa com a jovem atriz para conhecer melhor o seu percurso.

És natural do Alentejo mas vieste para Lisboa para lutar pelo teu sonho de entrar no mundo da representação. Foi difícil para ti deixares para trás a tua família?
Não foi difícil porque eu queria muito vir estudar para Lisboa, e como tive apoio da minha família foi só entusiasmo.

Iniciaste os teus estudos artísticos no Curso Profissional de Artes do Espetáculo-Interpretação e, mais tarde, licenciaste-te Teatro/Actores pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Que importância achas que a formação tem no teu trabalho? Pretendes continuar a apostar na formação?
Sinto que ter apostado na formação abriu-me outros caminhos criativos e deu-me algumas ferramentas que me permitem ter alguma segurança na execução do meu trabalho. Não acredito no talento, acredito sim que há uma propensão natural para uma área ou outra, mas essa propensão precisa de ser trabalhada, caso contrário corre o risco de cair no seu próprio comodismo, de maneira que é preciso “dar de beber” a esse talento constantemente, porque para além do trabalho do ator passar por zonas muito diversas, o mundo e nós estamos em constante mudança e essas são também ferramentas do nosso trabalho. É preciso ser curioso. Por isso sim, estou sempre à procura de formações e workshops para complementar a minha formação.

Estreaste-te com uma performance de tua autoria, Ginógenese, resultado de uma parceria com o pintor Manuel Casa Branca. Como descreves este projeto? Que importância teve no teu início?
Esse projeto surgiu primeiramente como prova de aptidão profissional no Curso de Artes do Espetáculo. Falava sobre a Natureza como ser feminino e o trabalho criativo partiu dos sobreiros pintados pelo Manuel. Foi a minha primeira experiência a produzir algo desde a escrita, às luzes, espaço cénico, figurinos, caracterização e toda a produção de um espetáculo.  Mergulhei tão dentro do projeto que de repente já não cabia nas paredes da escola, por isso levei-o até à Galeria do Manuel. E foi uma experiência feliz que só veio confirmar a minha vontade de ser criadora.

Começaste o teu percurso no teatro e tens vindo a desenvolver vários projetos no teatro, não só enquanto atriz, mas também como encenadora, entre eles O Coro dos Maus Alunos, As Gavetas e A Última Estação. Além disso, integraste como estagiária uma temporada do Teatro Nacional D. Maria II. Sentes que isso te deu uma preparação diferente da que terias se tivesses começado na televisão ou no cinema?
Desses 3 o único que espetáculo que teve minha encenação foi As Gavetas e foi uma encenação coletiva.
Foi sem dúvida uma preparação diferente, porque teatro e televisão têm muito pouca coisa em comum. Mas sinto que ter começado no teatro me deu ferramentas importantes que pude adaptar para a televisão, como ver a cena pelo seu todo e não apenas da perspectiva da minha personagem e estar presente no espaço de ação. Mas ter feito televisão também me deu algumas ferramentas que sei que vou usar mais tarde em Teatro, como não pensar demasiado sobre o que estou a fazer. No teatro existe tempo para esse pensamento e muitas vezes leva-nos a julgar o nosso trabalho e na televisão não há tempo para isso. É um verdadeiro treino para a nossa capacidade de resposta às situações.

Foto: Direitos Reservados

Integraste também o elenco do Espetáculo Musical “O Aladino e a Lâmpada Mágica”. Como encaraste este desafio de aliar a música à representação?  
Eu sempre gostei de cantar desde pequena e tive aulas de canto inclusive. Também dancei clássica dos 6 aos 18 e pelo meio outros estilos de dança, de maneira que esse desafio, onde pude experimentar a simbiose destas 3 artes, foi um momento muito divertido da minha vida.

Fundaste em 2018 a Associação Cultural O Bestiário. Como descreves esta associação?
Fundei esta associação/coletivo/estutura artística ainda na Escola Superior de Teatro e Cinema com a Teresa Vaz, o Miguel Ponte e o Afonso Viriato e é das coisas que mais me orgulho na minha vida. Somos todos muito diferentes nas nossas linguagens e pensamentos artísticos, mas unimo-nos nos ideais e por nascer de fragmentos o Bestiário tem nome de coleção. Cada fragmento tem uma história e é na justaposição das várias narrativas que criamos a nossa identidade. Procuramos investigar a nossa herança cultural reavivando as histórias biográficas e populares, posicionamo-nos no presente, escolhendo ora vivê-lo, ora analisá-lo. A nossa missão é fomentar a criação de autor e obras que contaminem.

Criaste e produziste uma curta de teatro para o Festival Noites Curtas do Projeto Ruínas, TOO MUCH. Como surge esta ideia? Sentes que o Teatro é uma arte que se está constantemente a reinventar para chegar a novos públicos?
Esta curta de Teatro surge a partir de um convite do Projeto Ruínas de integrar o Festival que acontece em Montemor-o-Novo. Não quis fechar os olhos ao facto de estar a fazer algo na minha terra por isso o TOO MUCH é uma peça autobiográfica com laivos ficcionados, sobre uma rapariga que sente o peso da sociedade sobre ser jovem e mulher, numa cidade que não é a dela e por isso retorna ao seu lugar.
Acho que há outras artes que fazem mais eficazmente esse trabalho de chegar a novos públicos, como a música.  No caso do Teatro acho que esse processo é mais demorado.  Embora a pandemia nos tenha obrigado a todos a dar um salto tecnológico, acredito que os temas e conteúdos teatrais não o tenham acompanhado. Mas também sinto que as normas legislativas e burocracias associadas às instituições teatrais e ao próprio edifício teatral não favorecem a inovação, de maneira que o teatro está ainda muito limitado.  Essas normas e burocracias estão tão incrustadas que já não servem a arte do presente. Parece existir um medo de corromper a instituição, ou talvez uma preguiça de atualizar esses modelos. Ou talvez seja apenas falta de um orçamento justo, que permita aos Teatros e coletivos artísticos trabalharem sobre as necessidades atuais, não só dos novos públicos mas de todos os públicos.

O teu percurso no pequeno ecrã começou com a participação na série 1986 de Nuno Markl na RTP. Que importância teve para ti esta oportunidade?
Foi uma pequena participação em 3 episódios que gravei nas férias de verão da faculdade. Foi o primeiro contacto com as câmaras por isso estava verdinha, mas não deixo de me orgulhar de ter feito parte de um projeto com tanta qualidade.

Mais tarde, integraste também o elenco da 2ª temporada da telenovela da TVI Prisioneira. Quais foram as principais diferenças que sentiste entre o formato de telenovela e o de série?
Foram ambas participações curtas, por isso não senti grande diferença.

Foto: Direitos Reservados
 
Neste momento, interpretas a personagem Marlene em “Bem Me Quer” na TVI. Que semelhanças encontras entre ti e a personagem?
A semelhança mais notória acho que é o ar e atitude despachada que carimbei na personagem.

A tua personagem tem, acima de tudo, um lado muito cómico. Como te preparaste para desempenhar esta personagem?
A preparação foi junto dos meus colegas, nos ensaios que antecederam as gravações. Foi muito importante conhecê-los e sentir-me à vontade com eles para poder brincar com a personagem. Não julgar foi o meu ponto de partida, o segundo foi divertir-me.

Um dos grandes desafios deste projeto foi o facto de iniciarem gravações com todas as medidas de segurança devido à COVID-19. Como foi trabalhar desta forma inédita?
Acho que ainda estamos a aprender. Mas os hábitos ganham força por isso cada vez se torna mais natural trabalhar com tantas medidas de precaução. Para mim a mais complicada foi ensaiar de máscara e não ver o rosto dos colegas, que é tão preciso quando estamos a contracenar. Mas agora que já nos conhecemos melhor isso já não é um entrave.

Sabemos que iniciaste no primeiro confinamento um projeto musical com o teu namorado Jorge Albuquerque. Como descreves este projeto? Que importância tem a música na tua vida?
Este projeto surgiu quase por necessidade. Vimo-nos os dois fechados em casa com coisas que queríamos fazer e o gesto mais natural foi aliarmos as nossas capacidades criativas. Eu escrevo as letras e melodias das músicas e o Jorge compõe e produz. A música é uma parte importante na vida de cada um de nós e embora a minha sempre me tenha encaminhado para a representação, agora estou a tentar abrir uma estrada para que a música ocupe um lugar maior.

Quais são as tuas maiores inspirações nacionais e internacionais?
As inspirações mais presentes neste momento são a Phoebe Waller-Bridge, uma atriz e autora magnífica, a encenadora espanhola Angélica Liddell, a autora Patricia Portela, Maria Teresa Horta e Rupi Kaur,  as cantora e autoras Bjork, Kelsey Lu, Aurora e Billie Ilish.

Se te voltássemos a entrevistar daqui a 10 anos, o que gostarias de estar a fazer nessa altura?
Daqui a 10 anos gostaria de contar com pelo menos 3 álbuns musicais e digressões em concertos, muitos filmes na carteira de atriz e de ver o Bestiário a criar com orçamentos dignos, a correr o país e o estrangeiro. Talvez seja um plano um pouco ambicioso, mas um pensamento positivo e trabalho fazem 90% do caminho.

Fantastic Entrevista - Helena Caldeira

Por Joana Sousa

abril de 2021