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Fantastic Entrevista | Cristina Cavalinhos: “Há uma tendência natural para catalogar os atores na ficção portuguesa”

FOTO: Direitos Reservados

Com 38 anos de carreira, Cristina Cavalinhos integrou alguns dos projetos mais emblemáticos da televisão nacional, emprestando-lhes corpo e voz. Das dobragens de vários personagens de animação até aos sucessos em Floribella e Morangos com Açúcar, a atriz é convidada do Fantastic numa viagem que recordamos alguns dos momentos emblemáticos do seu percurso profissional.

Vamos começar esta entrevista com uma declaração de intenções, tem noção que com a sua voz marcou a infância de uma geração? 


Sim, tenho essa noção porque ainda hoje me abordam na rua ou em espaços comerciais sempre que me ouvem falar. E tanto são pessoas com 40 anos, como adolescentes ou crianças. Adoro!


A dobragem portuguesa de Sailor Moon é a única no mundo em que Ártemis se tornou Artemisa, como foi a sua reação quando entenderam que tinha existido esta troca? Que memórias guarda dos tempos em que gravavam as vozes de Sailor Moon


Sailor Moon vinha no seu original, em Japonês, e não ficou perceptível o seu género nas traduções. Como estávamos a gravar muito em cima da emissão, o director de actores, António Semedo, atribuiu-me o boneco, quando descobrimos foi uma confusão! Mas na altura tanto o director como o canal resolveram manter como estava. O ambiente de gravações era muito divertido e intenso em termos de carga horária, pois ninguém estava à espera de que a série fosse um sucesso. Mas nós gostávamos muito de estar juntos. Tempos maravilhosos!


Para quem vê há a sensação de que tudo está encadeado. Este trabalho de criação de texto e personagem era feito em equipa? 


Não, recebemos os textos em português e o diretor de Dobragens fazia muitas alterações porque o texto quase nunca chegava para preencher o lip sync do boneco. Daí essa noção de interação entre a equipa. Aliás este é o procedimento usado em todos os estúdios, o Director de Dobragens é o elo de ligação entre as diversas partes da equipa.


Em 2016 volta a dar voz às mesmas personagens de Sailor Moon e em 2018 retorna para gravar a Bulma, Bulla e Gine, de Dragon Ball. Foi fácil voltar a apanhar-lhe o tom? 


Sim, fiquei muito feliz por voltarem a aprovar a minha voz. Como tinha passado mais de 20 anos, as vozes tiveram de ser aprovadas pelo canal, pois os timbres vocais sofrem alterações ao longo dos anos. No início estava com medo de não me lembrar das vozes das personagens, mas assim que comecei a ouvir os antigos episódios, lembrei-me. Fiquei mesmo Feliz!


Em Portugal muitas das vezes o papel dos dobradores não é reconhecido. Sente que é uma área esquecida no meio artístico? 


Sim, tenho pena. Mas deve-se ao facto de não termos o hábito de dobrarmos muito, a não ser séries para crianças. Entretanto as coisas mudaram muito e temos as chamadas séries de culto, como o Dragon Ball, onde fiz a Bulma. Foi a pedido dos fãs da série que voltamos a dobrar novos episódios em 2018. Temos também filmes, como o primeiro filme da saga Harry Potter, onde a dobragem portuguesa foi considerada a melhor!


FOTO: Direitos Reservados



Em 1984 estreia-se no Teatro, ainda antes da conclusão do seu curso no Antigo Conservatório. Como surgiu esta oportunidade? 


Sim, é verdade. Estava a concluir o 12º Ano e eu, a Cristina Paiva e o Fernando Casaca resolvemos formar um grupo de Teatro Amador para experimentarmos essa forma de Arte. Ficámos apaixonados pelo Teatro, é o que se chama em gíria teatral, fomos apanhados pelo "bichinho do Teatro". Estreamos com a peça Auto da Índia de Gil Vicente em 1982 no grupo de teatro (H)oraViva. a partir daí a minha vida mudou!


Conta com cerca de oitenta peças de teatro no seu currículo, em média duas produções por ano. É possível, em Portugal viver-se do Teatro? 


Vive-se mal só do Teatro. Não temos muito apoio. Mas quase todos os actores trabalham para imagem, televisão e cinema, para dobragens e locuções, animações culturais, etc. Mas tenho muita pena de a profissão de ator em Portugal ser pouco reconhecida e não termos carteira profissional e trabalharmos sobre condições pouco dignas.


Boeing, Boeing, com a encenação de João Didelet, foi a sua última experiência em Teatro. Para quando um regresso às salas de espetáculo? 

Não sei, depende de convites que estão por fazer.


Em 1995 entra pela primeira vez nos ecrãs dos portugueses. Com dezenas de personagens marcantes em que momento da sua carreira sentiu que o público a reconheceu? Lidou bem com essa proximidade do público? 


O Momento mais popular foi quando fiz a personagem Helga da Novela Floribella, não podia andar na rua de forma incógnita mas gosto muito de pessoas e por isso agradeço muito o seu carinho . Embora seja tímida. Não quero ser famosa, quero que vejam e reconheçam o meu trabalho. 


Vamos voltar àquilo que para muitos dos nossos leitores foi a infância ou adolescência. Integrou dois dos projetos mais populares já produzidos para esta audiência, Morangos com Açúcar e Floribella, em ambos interpretou personagens com sotaque. De onde vem esta facilidade em alterar a sua voz?


Adoro sotaques e contruir personagens de composição. Foram propostas feitas pelos canais. De qualquer modo é importante referir que não faço só personagens desse tipo. Estou preparada para fazer personagens cómicas e dramáticas. 


A governanta Helga é inesquecível. Como construiu esta personagem? Em que se baseou para interpretar esta alemã tão rígida? 


A personagem foi construída em conjunto com o realizador Atílio Ricó. Na altura fiz muita pesquisa sobre alemães residentes em Portugal. Gravei as suas vozes, pedi ajuda ao Herman José. Depois o grande desafio era fazer da Helga uma governanta rígida mas com um coração de manteiga. Não ir pelo óbvio da comédia. Tenho muitas saudades da minha Helga!


Algumas das maiores promessas da ficção nacional contracenaram consigo ainda em crianças, como o Diogo Martins ou a Ana Marta Ferreira. Há algum conselho que dê aos jovens atores com quem divide cena? 


Quando trabalho com jovens gosto muito de ajudá-los, ensaiando muito e passando as cenas. Esse é o meus procedimento. Tanto o Diogo como a Marta são muito bons e bastante trabalhadores.


Nos últimos anos temos visto a Cristina em várias participações especiais na televisão. Em algum momento sentiu receio de ter ficado catalogada? Há a tendência de colocar rótulos em Televisão?

 

Ainda bem que me pergunta isso. Há uma tendência natural para catalogar os atores na ficção portuguesa, o que impede o actor de experimentar outros registos de interpretação. No meu caso, como sempre fiz Teatro, experimentei diversos registos e autores. Mas a verdade é que depois de desempenhar a Helga nunca mais me chamaram para fazer uma personagem consistente em novela ou séries para a Televisão. Só pequenas participações. O que me deixa bastante desanimada e sem trabalho regular.


FOTO: Direitos Reservados

Na sétima arte, o seu percurso começou em 1989, ainda antes da televisão, no filme O Comboio da Canhoca. De que forma trouxe a experiência do Conservatório para as gravações? 


O Conservatório, a Escola Superior de Teatro e Cinema, deu-me técnica para a construção de personagens. Quer seja em Teatro ou em Cinema. A experiência no Cinema era feita com os colegas do curso de cinema, que depois das aulas nos juntávamos para filmar cenas de filmes que gostávamos. Só com essa prática é que diferenciávamos a forma de contruir personagens para Teatro ou para Cinema. Na altura, em 1987, a escola não tinha Interpretação para câmera.


Cruzou-se com o realizador Tiago Guedes em dois projetos de cinema, Cavaleiros de Água Doce e O Meu Sósia e Eu. Que memórias guarda destas experiências? 


O Tiago Guedes é muito subtil a dirigir os seus actores, dá-lhes muita liberdade. Senti que podia propor situações novas e como é óbvio guardo as melhores recordações. 


Neste momento o realizador Tiago Guedes está a gravar a primeira série original portuguesa da Netflix, Glória, o que nos dá o mote para lhe perguntarmos: O futuro da ficção está nos meios digitais? 


Sim, penso que os meios digitais são o futuro da ficção. Fico muito feliz, porque com tantas plataformas digitais ,o mercado de trabalho tem tendência a aumentar.


No ano passado integrou o elenco do filme There’s Always Hope, do realizador londrino Tim Lewiston. Como foi esta experiência? Enquanto atriz sentiu alguma diferença na forma como este projeto foi filmado? 


Adorei a experiência. A forma como o realizador trabalhou foi muito inclusiva. Os actores e técnicos tinham a liberdade de propor outras soluções para a cena. E embora a minha personagem fosse secundária, era tratada de igual forma, o que foi muito importante para a minha noção de autoeficácia. Adorei e espero repetir.


Vamos poder vê-la em breve no filme Bem Bom, que já deveria ter estreado no ano passado. O que nos pode contar sobre a sua personagem nesta longa-metragem biográfica? 


É uma pequena participação, uma personagem que organiza festas na sua Vila, o resto têm de ver.


Se a entrevistássemos daqui a dez anos, o que gostaria de estar a fazer na altura? 


Gostaria de estar a trabalhar como atriz e de ter muito trabalho! Em todas as áreas!


Por fim, há algum novo projeto em mãos sobre o qual nos possa falar? 


Em Teatro estou a participar num Projecto Online mas que ainda é prematuro falar. Em ficção estou sem trabalho, infelizmente.


Fantastic Entrevista - Cristina Cavalinhos


Por Ricardo Neto


fevereiro de 2021