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Entrevista DOP - Estela Cameira

Estela Cameira é uma das bailarinas que se destaca na nova geração de Dança Oriental nacional. Na segunda edição desta iniciativa entre Fantastic - Mais do que Televisão e o projecto Dança Oriental Portugal, a bailarina damaiense falou-nos um pouco sobre o surgimento da sua paixão pela Dança, a sua opinião sobre concursos e experiências em festivais na Europa, mas também sobre o nome, conceito, objectivos, factores diferenciadores e modalidades do seu espaço, o Stellae Studio, entre outros temas.

1. Como surgiu a tua paixão pela Dança e, em particular, pela Dança Oriental?
Nasci num seio familiar bastante conectado com as artes. A minha mãe adora trabalhos manuais e o meu pai era músico, então o mundo da criatividade sempre foi algo presente no meu crescimento. A Dança foi sempre o que me dava mais alegria, como a minha mãe diz, qualquer som que aparecesse em meu redor eu “dançava”, acho que já dançava ainda antes de andar. Tive sorte de na minha comunidade ter havido a oportunidade para crianças de termos aulas de diversas atividades, e uma delas ter sido a Dança Oriental. Tinha apenas 9 anos, e tive aulas de dança oriental durante 6 meses aproximadamente, com a Cátia Ahlam. Depois passei por diversos estilos, e com 16 anos voltei a encontrar a Cátia e decidi voltar a experimentar a Dança Oriental. Foi um momento único, parece que tudo fazia sentido: eu senti-me bem, sem preconceitos e passado um ano deixei os outros estilos e mantive-me na Dança Oriental até agora.

2. Quais são as tuas maiores influências artísticas?
Penso que com o nosso desenvolvimento pessoal as nossas influências vão-se alterando, contudo inspiro-me em diversos artistas sejam eles de Dança Oriental ou não. Três exemplos não de Dança Oriental são a ZenSpire Design (pela sua dedicação à sua arte), Andre Soueid (pela originalidade e perseverança na sua arte) e a National Arab Orchestra (que me faz viajar pela música árabe como se estivesse num filme). De Dança Oriental vou buscar inspiração em artistas nacionais e internacionais, e podem variar muito conforme o meu estado de espírito, conforme o que quero melhorar/trazer para a minha dança, mas alguns artistas têm permanecido desde sempre na minha lista: Marina Shiskova, Randa Kamel, Mohamed Shahin e também a Dina e a Fifi Abdou pela sua essência.

3. Para além de bailarina, também tens formação em Engenharia e és actualmente Release Manager numa empresa. Existem algumas semelhanças entre a Dança e a função que executas no teu trabalho actual? Se sim, quais?
É uma questão muito interessante. Eu acho que analisando consigo notar parecenças, mas estas não são imediatas (ehehhe). Ou seja, pensando bem, como release manager tenho processos/técnicas para seguir os projectos e as entregas destes, contudo quase todos os dias temos de adaptar, improvisar tendo em conta as circunstâncias (sejam estas deadlines, correcções, novos requisitos etc) ganhando muito espaço para inovar. Se pensarmos, na dança também é muito assim, aprendemos a técnica e sabemos executá-la de uma forma, mas por vezes uma nova música, o nosso próprio feeling, algum imprevisto na atuação faz com que improvisemos e nos adaptemos à situação, criando lugar para surgir a nossa arte.

 Fotografia: Gi Dreams Photography

4. Como e quando surgiu a ideia de teres um espaço próprio?
É um sonho de longa data, ter o meu próprio espaço, ainda antes de começar a dar aulas. Mas quando comecei a dar aulas isso foi ficando muito claro para mim. Ter a minha própria gestão de espaço, espectativa das alunas, poder ter um espaço acolhedor que incentive a auto-estima. Um lugar seguro e aconchegante para aprender e desfrutar Dança Oriental.

5. Porque é que escolheste o nome ‘Stellae Studio’ para o nome do espaço e porque razão escolheste um nome em inglês?
Stellae na realidade vem do Latim e já me acompanha há alguns anos. Houve um momento que a minha bailarina não sabia se queria um nome artístico ou não, e surgiu a ideia do meu nome, Estela do Céu, em latim, Stellae Caelorum, contudo decidi que não queria nome artístico, mas o Stellae foi ficando. Quando comecei a dar aulas, o grupo das alunas começou a ser a Comunidade Stellae, e portanto quando chegou a hora de ter o estúdio sabia que queria manter esse nome. Studio sim é inglês e italiano e é o que menos se distanciou do latim studium e/ou studere – um espaço para aprender e lugar de conquistas. E assim nasceu Stellae Studio.



6. Podes falar-nos sobre o conceito e os objectivos do Stellae Studio?
O Stellae Studio é a nossa segunda casa, um local seguro para explorar e aprender a Dança Oriental. Como complemento é um espaço com a ambição de ter atividades de condição física e mental para que neste espaço consigamos encontrar a nossa auto-confiança e equilíbrio e superar-nos. Tanto alunos/as como professores/as.

7. Quais são os factores diferenciadores do teu espaço relativamente aos outros espaços que estão a surgir no mercado da Dança Oriental nacional?
Penso que há lugar para todos os espaços, não querendo ir por esse sentido vou responder o que podem encontrar no espaço Stellae Studio. Podem encontrar um ambiente que alimenta o companheirismo, a evolução da bailarina solista que improvisa e dança por si para se sentir bem, uma partilha de vivências e emoções que transformamos em arte através da dança. Aqui a técnica é dada de forma gradual para que a consciencialização dos movimentos seja maior e que leve a uma maior liberdade da artista.



8. Abriste uma modalidade chamada ‘Competição’ no teu estúdio. Quais as razões que te levaram a abrir esta turma?
Como aluna, frequentei e frequento várias formações de Dança Oriental, e houve alguns métodos de aulas que foram as que mais me despertaram para o mundo da competição e desenvolvimento da bailarina solista com estilo próprio. E foram essas aulas que melhor me prepararam para mundo da solista que vai a competições. Quero que desde cedo as minhas alunas tenham essa oportunidade caso seja essa a vontade delas, e daí ser uma modalidade à parte. As aulas têm várias dinâmicas passando pelo estudo de improviso, musicalidade, deslocamento cénico e muito mais.


9. Podes falar-nos um pouco sobre o teu método de ensino?
Sou sem dúvida alguma adepta do improviso, e em todos os níveis alimento a sua importância e o facto de precisar de uma linha condutora e uma técnica base consolidada. Existem muitas dinâmicas, muitos pontos de vista e portanto como professora cabe-me estar sempre a estudar novas técnicas de ensino para conseguir a melhor adaptabilidade às situações que possam surgir na aula. Por outro lado a linha condutora que sigo nas minhas aulas é de forma a que a aluna tenha as bases da Dança Oriental consolidadas, propostas de combinações e sequências e o mais importante, que sinta liberdade para descobrir o seu estilo próprio, e nisso o improviso faz maravilhas! No Stellae Studio divido o ano letivo em dois, para que haja pelo menos dois momentos de reflexão sobre as conquistas e pontos de melhoria.

10. Organizas um evento chamado Belly Fun Day, que consiste em workshops e numa battle entre bailarinas. Como surgiu esta ideia e quais os objectivos deste evento?
Os workshops internacionais são muito enriquecedores mas para bailarinas iniciadas são por vezes difíceis de assimilar. Por outro lado, Portugal está cheio de talento na Dança Oriental que merece ser desfrutado! Daí surgir a ideia do Belly Fun Day, um dia de workshops de Dança Oriental, em que o nível/temas sejam adaptáveis a qualquer nível mas principalmente bailarinas de nível iniciado e/ou intermédio. A battle dá um objectivo aos workshops, aplicares o que aprendeste durante o dia no final do evento e também alimentar o gosto pelo improviso nas bailarinas.



11. Já venceste 10 prémios na tua carreira, entre festivais nacionais (Dancing World, Oriental Dance Weekend, East Fest Portugal) e internacionais (Nayruz Weekend, Étoiles D’Orient, Raks Glam). Do que te pudeste aperceber pelas tuas experiências, quais são as diferenças que encontras entre o mercado de Dança Oriental português, espanhol e polaco?
Talvez por estar em casa, e conhecer as bailarinas que competem, tenho um sentimento de competitividade maior e ao mesmo tempo de companheirismo diferente do que senti em Espanha ou na Polónia. No que toca a criatividade, onde vi mais espontaneidade e estilos diferentes foi na Polónia, talvez por lá estarem diferentes países representados, mas foi onde me senti mais inspirada a “criar” coisas diferentes e a seguir o meu próprio feeling. Em todos os festivais fui muito bem recebida, mas sem dúvida que o festival português ODW (Oriental Dance Weekend) está num nível de organização bastante elevado em relação aos outros, cada vez acho mais isso.



12. Como bailarina que participa em concursos e professora que tem alunas em competições e de uma modalidade que se foca na competição, qual é a tua opinião sobre os concursos na Dança Oriental?
Acho que é preciso um grande trabalho psicológico para as competições para além do trabalho técnico e de musicalidade. Podemos levar a competição para um lado de comparação negativa com as outras bailarinas, falo por mim já caí nesse caminho umas quantas vezes, contudo amigas, colegas e professoras já me incentivaram, pelo contrário, a levar pelo desafio pessoal, criar objectivos concretos para que possamos trabalhar para os ultrapassar e estes pormenores são onde nos devemos focar e onde a competição é tão importante. Apresentações perante público são importantes mas não têm o mesmo grau de responsabilidade perante o objectivo de uma competição e isso leva-nos a criar um compromisso connosco próprias.
A modalidade que criei é a pensar nesse treino de foco nos objectivos, no treino de musicalidade e improviso, no treino técnico direccionado a uma intenção para que no momento da solista entrar em palco, não cair no lado negativo mas sim crescer e a aprender cada vez mais.

13. Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa?
Acho que estamos num bom caminho! Temos sempre tanto para aprender, mas felizmente noto que existe cada vez mais uma sede de informação antes não tanto procurada: como folclore, história e a essência da Dança Oriental. Por vezes estamos tão direccionados ao inovar, ao fazer as tendências e por vezes precisamos de voltar à raiz; à essência da Dança Oriental, e acho que a comunidade de Dança Oriental em Portugal está cada vez mais preocupada com esses detalhes, o que é óptimo e lindo de se ver e aprender!

14. O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
A criação de eventos abertos às diversas comunidades onde existe partilha da Dança Oriental é sempre um bom ponto de partida. Mas se queremos lutar contra a vulgarização da Dança Oriental ou de algum estigma associado cabe a todas as bailarinas profissionais e amadoras, alunas e professoras defender e mostrar o contrário, e instruir amigos/familiares/colegas de que é na realidade uma arte e tem de ser respeitada. 


15. Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
A Arte não tem de ser apressada e sim desfrutada ao longo da aprendizagem, penso que este é um ponto que gostaria de ter percebido mais cedo, mas ainda estou a tempo (estamos sempre  a tempo), por isso as dicas dicas que dou é aproveitarem cada momento. A consciência dos movimentos é super importante para depois transmitir a nossa arte. Dançar sempre com o coração e ser fiel a nós próprios, o resto? Vem para cada uma ao seu tempo. Procurar formações com artistas que nos inspiram e com professores que nos motivam, não se cingir apenas a um ponto de vista, é sempre melhor ter várias histórias para contar.

16. Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Tento tantos gostos que por vezes fica difícil recomendar apenas um filme ou um livro, e quando o faço a lista pode parecer pouco coerente, pois varia muito. Livros, todas as histórias de fantasia me fazem sonhar e sonhando levo a minha criatividade ao rubro, confesso que tenho uma adoração por dragões (faço coleção e tudo de dragões) e então para além das mais conhecidas series do Eragon ou mais Game of Thrones, recomendo a série Temeraire, não se vão arrepender (mas aviso que são nove livros e apenas 4 estão em português). Música, recomendo a minha favorita oriental tocada pela minha orquestra oriental favorita “Alf Leila Wa Leila” pela National Arab Orchestra.


17. Quais são os teus próximos projectos e objectivos profissionais?
Fazer crescer na dança as alunas que vêm para o meu estúdio é sem dúvida um dos meus maiores objectivos. Outro é continuar a investir na minha aprendizagem de Dança Oriental, conhecer novas técnicas e novos estilos e folclores para ficar cada vez mais livre nesta dança tão linda e satisfazer a minha bailarina. A nível de projectos tenho sempre muitas ideias, mas para já mantenho-me com o Stellae Studio, o Belly Fun Day (a trabalhar numa solo edition, novidades em breve) e claro a Estela Cameira eheheeheh.

Entrevista DOP - Estela Cameira
Por Rita Pereira
Dezembro de 2020