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COMING UP | Mank

 

Mank, o filme que já conseguiu um dos lugares do Oscar de 2021 chegou à Netflix com pontos favoráveis e outros que talvez pudessem fazer-nos ter expectativas maiores que a realidade. Voltamos a espreitar para lá da cortina em Hollywood, e apesar de não ser esta a versão mais impactante destes já habituais vislumbres do que acontece do lado de cá das câmaras, Mank não deixa de apresentar uma visão distinta e de agarrar temas com menos romance do que já vimos em películas do género. É bastante crítico, mas é, talvez, a versão mais próxima do que acontece na megalomania dos egos de quem gere esta indústria, o lado de lá onde o que é contado pela imprensa cor-de-rosa se fica pelo luxo, e na verdade é tudo muito mais focado na guerra de audiências e público do que propriamente na melhor escolha de um elenco ou na qualidade do projeto. Despojar Hollywood com uma pegada de moda antiga e o toque moderno da melhor técnica dos dias de hoje é desta fração que nasce a qualidade de Mank. Temos várias fases e vários pontos altos e baixos num argumento que é bom mais ao qual falta algum ritmo que nos encadeie e nos segure, no fundo David Fincher seguiu o exemplo de Alfonso Cuarón e Martim Scorsese e aproveitou o largo budget do streaming para colocar em prática o seu sonho, a questão é que o peso do lado culto e erudito podem não encontrar o julgamento correto neste novo público. Sente-se falta de fôlego, um respiro que nas salas de cinema talvez nos desse uma imersão maior, mas que quando é visto em casa pelos habituais consumidores destas plataformas corre o risco de passar por algo chato. Um limbo difícil, mas Mank fica de que lado?

Vamos ao argumento, e à forma como nos oferece uma tour passo a passo sobre a pressão criativa dos estúdios que preferem castrar os discursos dos autores em prol da velocidade de produção de um próximo êxito. É aqui que Mank se destaca de outras tramas do género, por nós oferecer um lado empresarial muito mais vincado ao invés de se perder nos meandros da vida social. Com a vantagem aqui de se alicerçar no ponto de vista de um autor, por mais que o nome por detrás de um texto possa ser sinónimo de qualidade, estes não são as figuras de proa e por isso são olhados com outros olhos pelos estúdios. A cena em que dois executivos discutem sobre quem é Hérman é a elucidação perfeita para entendermos qual é o ângulo deste argumento, referem-se prémios e só essa distinção é que os faz dignos de serem ouvidos. É esta a sensação cultivada pela indústria. E nota-se, depois, a clara distinção na forma como se tratam os atores, eles são os artistas, eles são o lucro, toda a restante equipa é acessória. E este lado não vimos regrado de forma tão clara em nenhum exemplo anterior, nem em Trumbo ou Feud. Acresce a isto a exigência para que se defendam determinadas causas, neste meio ter um contrato com um estúdio é quase como se nos convertêssemos a uma religião, em que a doutrina pregada pela direção se torna numa lei de comportamento que tem de ser seguida por todos os nomes que aparecem na folha de pagamentos, com chantagens à mistura, mesmo que disfarçadas, e lobbys políticos que prometem garantir mais verbas.

Quem acompanha os mercados do cinema ou do streaming, pelo menos para aqueles que gostam destes universos já estamos mais que habituados a ouvir falar nas pseudo guerras entre Disney e Netflix ou HBO, ou Apple. Mas na época em que viajamos com Mank essa concorrência era algo quase visceral, uma espécie de máfia com baixas em todo o lado e em que as afrontas pessoais tomavam contornos maiores e mais valiosos, quase, que o dinheiro. O facto de aqui a competição ter os nomes ditos sem qualquer artifício torna a biografia em algo muito mais realista, muito mais verdadeiro. Contudo, aquilo que também é uma vantagem acaba por se tornam no principal defeito desta película. Mank pretende ser quase uma enciclopédia da boémia, da podridão, das cedências em prol dos lucros, enfim de tudo o que acaba por destruir o universo mágico que criamos no nosso imaginário sobre o que era este mundo dos filmes. A questão é que é tudo tão nu, tudo representado de uma forma tão corriqueira que acaba por nos fazer perder a atenção em determinados momentos da história. Sim, esta é a biografia de um homem como qualquer um de nós e nas nossas vidas não acontecem reviravoltas a cada cinco segundos mas em Mank, perdem-se os punch lines habituais nos dias de hoje, e na sua tentativa de ir tocar a cada ponto da sua proposta acaba por se tornar numa enxurrada de temas sem escolher uma direção para se aprofundar. Há arcos que no final das contas ficam com contextos vagos e que a sua extrema importância se tornou numa mera citação, como é o caso do suicídio do homem a quem foi dada uma oportunidade de mostrar o seu talento mas que no final das contas se traduz como um dano colateral na luta de gigantes. Merecia mais tempo de ecrã, merecia um maior holofote, mais tempo do que o que foi roubado a apresentar os vícios de Hérman.

No campo dos elogios é bom ver como o texto, que pretende ser a versão contada pelo próprio argumentista, não se coíbe de mostrar as suas falhas, apesar de existir uma clara tendência para endeusar a personalidade de Mank. Aliás é na hora de descrever o protagonista que se nota algum desgaste do tempo no guião, há perspetivas em que o machismo é perdoado, por mais que socialmente aceite à época nos dias de hoje é possível fazer pequenos ajustes sem que isso comprometa a verdade da história que nos está a ser contada. Para além disso, depois de nos exporem a decadência do personagem parece que no frame seguinte já estamos a correr para desfazer esse lado com mais defeitos e dar-lhe uma camada de filantropo. Até poderá ser baseado em factos reais, mas acaba por resvalar para uma clara necessidade de fazer com que o público não perca a afeição por aquele homem. É tudo muito balanceado, muito mais do que devia, até mesmo para a época. A dada altura, até nos fazem parecer que os maiores defeitos de Mank, os seus vícios pelo jogo e pelo álcool, são puramente frutos do seu contexto, livrando-o de culpas numa irritante desculpabilização das atitudes deste homem. Até mesmo Sarah acaba por nos fazer rever os nossos ideais pela forma tão serena com que acata as possíveis traições ou as atitudes do marido que a diminuem. De tanto esforço, o argumento acaba por conseguir o inverso e Mank não sai desta trama com um caráter tão bom quanto o estável. O perigo de mexermos em guiões antigos sem lhe darmos alguns ajustes necessários é este mesmo, o de resvalarmos em discursos datados. Se por um lado a antiguidade lhe dá o carimbo da veracidade, por outro acaba por ser a maior falha num espetáculo em que a técnica supera o texto.

Mesmo que o tom do personagem não seja o melhor, Gary Oldman é um candidato certo na corrida aos prémios de Best Actor nas várias premiações de 2021. Ninguém tem dúvidas de que Oldman é sinónimo de interpretações que saem da caixa, mas desta vez Mank talvez não tenha chegado a esse patamar. O ator que nos entregou aquela que pode ser, até hoje, considerada como a melhor interpretação de Winston Churchill em Darkest Hour parece ter feito um trabalho de reciclagem de papéis anteriores na hora de construir este autor. O problema de um ator do escalão de Oldman é que quando vemos o seu nome num cartaz já elevamos as nossas expectativas e não esperamos nada menos que algo brilhante, aqui apesar dele ser o motor do filme e nos agarrar nas contracenas não deixa margem para que se torne memorável, Mank por mais galardões que lhe dê não será o título que trará o ator à nossa memória. Não retira a justiça da nomeação, mas este é um daqueles casos em que fomos atraiçoados pela nossa confiança. No comparativo, Bryan Cranston foi muito mais elaborado no seu Trumbo, e ainda tem impressas na nossa memória várias saídas do seu personagem, mesmo tendo de antemão papéis tão icónicos quanto Walter White de Breaking Bad. Em matéria de elenco, o casting de Amanda Seyfried salta como a maior surpresa num papel que a retira do mundo dos blockbusters e certamente fará a academia olhar para o seu talento com outros olhos. Ela ilumina cada cena em que entra de um modo muito especial, a juntar a isso dá-se o casamento perfeito entre personagem e atriz com o papel de Marion, uma intérprete estigmatizada pelos estúdios, a cair que nem uma luva na hora de dar um impulso diferente na carreira bem-sucedida, mas pouco apadrinhada de Seyfried. Vamos vê-la entre as concorrentes ao Oscar de Best Supporting Actress, numa escolha justíssima que nos traz à memória Margot Robbie no ano passado com Once Upon a Time in... Hollywood. Duas atrizes do mainstream que caminham cada vez mais para o percurso clássico e com todo o mérito.

Esperávamos mais de uma longa-metragem de David Fincher. Na verdade, Mank é um caminho bastante diferente do que o realizador traçou até aqui, e talvez o streaming não tenha sido a melhor casa para assumir esse novo registo. É um projeto fetiche do diretor, por todas as razões e mais algumas, mas certamente seria uma viagem muito melhor se a experiência fosse num grande ecrã de cinema que nos transportasse para aquele período. O ritmo é uma liberdade que o streaming tem dado aos grandes nomes da indústria, e podendo correr no risco de cairmos num contrassenso, talvez os diretores não estejam a saber interpretar bem as diferenças de um público que consome o digital. A janela entre o que é filme de cinema e filme de streaming tem vindo a encurtar-se, mas há produtos que na sua essência tem marcas muito específicas que os configuram para um determinado espaço. Mank é um desses casos. É uma execução excelente, com a solução de contar a história a preto e branco a cair que nem uma luva na hora de nos fazer chegar perto desta realidade, mas peca muito por ser demasiado convencional e tradicionalista no seu guião e na construção dos perfis de personagens. É um front runner da Netflix para chegar às nomeações? É. Mas pode voltar, facilmente, a repetir-se a história de The Irishman, é o clássico se tornar num vencido e passar longe das estatuetas. Que vai lá estar, disso não há dúvidas, mas sairá vencedor? Isso é outra história. Certo é que nos dois caminhos escolhidos no ano passado pela maior plataforma de streaming, espera-se uma maior aposta nas linhas de Marriage Story ou Two Popes, do que propriamente nas películas do género da de Scorsese, porque no fundo é a linguagem diferente que torna tão impactante a chegada da Netflix como grande conquistadora em prol das grandes produtoras da indústria. Mesmo assim, prognósticos só no final do jogo.