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Crónica | "Ninguém marcou data para pensar: uma nota breve sobre procrastinar e ter tempo"

Imagem: "Le Recherche du temps perdu", de Mihai Criste (Direitos Reservados)


Há uns tempos escrevi no Twitter – essa mui nobre rede social – o seguinte:

“a exaustão que sinto perante a ideia de ter que fazer algo que não quero impossibilita que dê início a essa ação que ainda não se concretizou.”

Sim, com o ponto final e tudo porque sou desses.

Fora a tentativa irónica – ou não - de fazer filosofia barata, o tweet até tem o seu quê de verdade. Ora vejamos, quem nunca desistiu de fazer alguma tarefa mandatória – mas adiável - mesmo antes de sequer ter começado? E quem não se sentiu mal depois de a adiar porque, precisamente, se calhar não era assim tão adiável? Quando se tem tempo tudo parece adiável, esse é o problema. Quando se tem tempo até comer parece algo “sem horas”, mas ai do dia atarefado em que nem se consegue almoçar porque não há tempo. “Raios partam estes horários que nem respeitam a hora de almoço de uma pessoa”, pensamos todos esquecendo-nos daqueles dias pachorrentos em que a primeira refeição que fazemos dá-se por volta das quatro da tarde – por norma uma refeição demasiado pesada para quem não tomou o pequeno almoço.

A verdade é que ter tempo muda muita coisa. Há tempo para estudar? Há. Vai-se estudar assim que há oportunidade? Logo se vê, temos tempo, não convém esquecer que descansar também é importante. Há tempo para mandar aquela mensagem de parabéns ao amigo que nunca se esquece de nos enviar a mensagem anual a parabenizar a velhice? Há. Enviamos imediatamente, assim logo que acordamos? Não, há tempo. Mais logo faz-se isso. Ás vezes chega-se mesmo a fazer, o problema é ser no dia a seguir com o típico “Parabéns atrasados!”.

Ainda assim, ter tempo é maravilhoso. Adiar o importante com o que quisermos: ler, ver filmes, entrevistas, ir passear ou somente dormir. Diga-se de passagem que procrastinar de forma útil é uma arte, até porque é o que nos cultiva. Ler Tolstoi durante uma tarde inteira em vez de se começar o tal trabalho mesmo importante porque ainda falta muito para o entregar é legítimo e faz bem. Vai na volta ainda se inclui uma citação de “A Morte de Ivan Illich” na versão final do texto que anda para ser terminado há uma semana e de repente tudo faz sentido.

Fernando Pessoa afirmava que pensar doía. E muitas vezes dói, chega até a cansar. Muito. Pensar em obrigações a cumprir ainda dói mais. Mas vamos fazer o quê? Até alguém se lembrar de marcar datas para pensar, parece-me que a coisa não se pode mesmo adiar.

Luís G. Rodrigues