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Miúdos que Já São Graúdos - Marta Peneda

Ficou conhecida como a pequena Alice de Mont, em 2007, personagem que interpretou em "Chiquititas" com apenas 10 anos. Prestes a completar 23, Marta Peneda é a nossa convidada nesta edição do "Miúdos que já são Graúdos". Estivemos a falar com a jovem atriz sobre o seu percurso no mundo das artes, treze anos depois do seu primeiro papel em televisão.

 

Começas a tua carreira em televisão em 2007, na telenovela "Chiquititas", um projeto muito especial para todo o elenco. Como recordas esta experiência?
Como, provavelmente, a melhor da minha vida. Por muitos projetos especiais que entretanto fiz e que possa vir a fazer futuramente, as “Chiquititas” foram o meu primeiro contacto a sério com esta profissão. Foi o projeto que me deu as bases, o ritmo, o profissionalismo necessário em estúdio e que me confirmou no coração que era aquilo, que tinha encontrado, felizmente muito cedo na vida, a minha paixão.  

Em 2009, integraste o elenco de “Pai à Força”, uma aposta da RTP1 numa ficção familiar, também ela composta por um elenco jovem. Achas que trabalhar com outros atores da tua idade foi mais fácil para ti, enquanto criança?
Encontrei no “Pai à Força” muitos rostos familiares das “Chiquititas”. Grande parte do elenco infantil integrou também o elenco da RTP. O que, logo à partida, nos deixou muito mais à vontade em bastidores e em plateau. Mas confesso que em criança eu era uma pequena esponja. Queria beber o mais que pudesse com os colegas mais velhos. Aprender com a experiência deles, que os mais novos não tinham. Era portanto o melhor dos dois mundos! Tinha ali os meus colegas/amigos com quem saía do estúdio e ia fazer festas de pijama, mas também atores que admirava e que me ensinaram muito do que sei hoje.



Em 2016 participaste na série “Terapia” da RTP. Quais foram as principais diferenças que encontraste entre o formato de telenovela e o de série?
Ui, tantas… A “Terapia” para mim foi um projeto “à parte”. Totalmente diferente do que já tinha feito. Com um processo de gravações idêntico ao de cinema. Foi aí que conheci alguns dos maiores profissionais com quem já trabalhei. E não falo só de elenco. Falo da equipa toda. Direção de fotografia, realização…  O nosso trabalho só serve a história que estamos a contar se houver uma base forte por trás. Adorei a experiência, numa série há mais tempo para trabalhar em cada episódio do que numa novela. O que, só por si, nos dá mais gozo.

Lançaste já dois álbuns, um em 2007, "As canções da Marta" e outro em 2010, "Boa Onda". Que importância tem a música na tua vida? Gostarias de voltar a apostar nesta área?
Tive a sorte de nascer numa família de artistas. A minha mãe (Xana Abreu) e o meu pai (David Alves) são ambos músicos, por isso cresci entre ensaios, concertos e instrumentos. Tanto a nível pessoal como profissional a música tem uma grande importância na minha vida. Às vezes no meio de tantas ideias e projetos é difícil seguir para a frente com um só… E no meio de tudo gosto mesmo é do processo criativo em casa. Da composição. Mas sim, de certeza que voltarei a apostar na área, profissionalmente.

Em 2019 participaste na telenovela “Alguém Perdeu”, produzida pela SP para a CMTV. O que significou para ti integrar a primeira produção de ficção deste canal? Foi bom voltar à ficção televisiva de forma regular?
Fiquei primeiramente muito agradecida por poder fazer parte do primeiro projeto de ficção do canal. A adrenalina de estar a fazer história é maravilhosa. E a partilha, o entusiasmo e o amor à camisola de todos foi contagiante. Desde o primeiro dia. Foi um projeto muito intenso, com muitas horas de gravações e poucos dias de folga. O que, a nível pessoal, nos aproximou muito também. Tive a sorte de conhecer novos colegas que se tornaram grandes, grandes amigos.
 
 

“O Espelho Lento”, uma curta-metragem de Solveig Nordlund, foi até agora a tua única experiência em cinema. Gostavas de fazer mais filmes? Porquê?
Adorava ter o privilégio de fazer mais cinema! Muitas vezes o ritmo da televisão é tão louco que não nos permite mergulhar fundo nos personagens e explorar. No cinema, com mais tempo, o processo e pesquisa de ator é mais rico. Tive essa experiência no “Espelho Lento” e na “Terapia” também (da RTP) que, como disse anteriormente, teve um processo de filmagens muito parecido ao de cinema.

Apostaste na tua formação, tendo feito o Curso de Interpretação e Artes do Espetáculo na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Que importância consideras ter a formação nesta área?
Considero fundamental! É o primeiro conselho que dou a jovens que me abordam com o sonho de serem atores. Acho o processo de experimentação imprescindível, principalmente quando somos jovens e não carregamos muita bagagem. Precisamos experimentar, conhecer o nosso corpo, as nossas emoções, ganhar à vontade e não ter medo do ridículo. E, por outro, acho que a nossa profissão é muito desvalorizada. Qualquer um hoje em dia pode ser ator. Isso não acontece na maior parte das outras profissões. Queres ser médico, advogado, designer, chef, precisas de estudos. Tenho visto e sentido na pele muita injustiça nesse sentido. A nossa profissão não está protegida. Grandes atores com potencial para serem os próximos Ruy de Carvalho, Eunice Munoz, Rita Blanco estão esquecidos num canto à procura de trabalho noutras áreas porque as pessoas com esse poder de escolha e decisão estão de olhos postos na beleza, nos corpos de ginásio e no número de seguidores. Os modelos e influencers estão a passar à frente dos atores com formação e isso entristece-me. Para mim são profissões distintas.

 
  

Passaste também pelo teatro, como é o caso do espetáculo “Peer Gynt”, de Henrik Ibsen, no TEC. Quão especial é para ti pisar um palco? É este o teu local de eleição para representar, enquanto atriz?
No teatro é onde sinto a maior adrenalina. É o tudo ou nada. É onde sinto maior nervosismo, os maiores medos, mas onde sinto o maior calor também. Nada substitui os aplausos do público depois daquele turbilhão de emoções. Profissionalmente tive poucas experiências. Fiz o Peer Gynt como prova de aptidão profissional para finalizar o curso e o “M – O Musical” no Teatro independente de Oeiras. Escolho não ter preferência entre teatro, televisão e cinema, apenas agradeço cada oportunidade que tenho em fazer aquilo que gosto. São processos muito diferentes e podemos tirar o melhor de cada um deles, à sua maneira.

Foste ainda a cara da rubrica “Panda Flash”. Gostarias de ter mais oportunidades como apresentadora? O que mais gostaste nesta experiência?
É verdade, fui sim! Gosto de me desafiar e essa foi mais uma das oportunidades que tive. Confesso que foi difícil, pois o público infantil é difícil de entrevistar… (risos). Mas foi muito divertido e enriquecedor, sempre. Tive também a oportunidade de viajar pelo país, pois cada episódio era num sitio diferente. Adoro quando isso acontece, quando o trabalho se alia a explorar e conhecer novos sítios!

Quais são os teus objetivos para o teu futuro profissional? A representação passa por lá ou tens outros planos em mente?
A representação é a minha profissão principal e hei de lutar por ela. É o meu principal objetivo. Mas tudo o que envolve arte me cativa e, assim como já tive projetos de música, sei que vou ter mais projetos no mundo artístico que não envolvam só a representação. Estamos cá para explorar e nos conhecer melhor. Estar parados não faz sentido. Ainda o ano passado fiz 6 meses de curso de especialização de Design de Interiores e percebi que não é uma paixão. A vida é isto mesmo, experimentar, ir, explorar.

Numa altura em que cada vez mais atores se destacam lá fora, em que tipo de produção gostarias de participar, se tivesses essa oportunidade? E neste contexto, achas que as plataformas de streaming serão cada vez mais dominantes na forma de consumir filmes e séries?
Quero muito crescer com a profissão e fazer parte da sua evolução. Amo o meu país e o meu objetivo é trabalhar cá, mas obviamente que integrar projetos internacionais faz parte do sonho… Espanha, França, Itália… Os nossos vizinhos já estão a fazer grandes projetos para plataformas de streaming e nós estamos a ir pelo mesmo caminho. Fiquei muito contente com a notícia da primeira produção portuguesa que se está a fazer para a Netflix. As plataformas de streaming vieram revolucionar bastante a forma como se consome esta arte, é verdade! Desde que não se perca o hábito de ir também ao teatro e ao cinema, acho maravilhoso! (risos)

Em Portugal, como tens visto a evolução da produção de telenovelas e séries? Achas que o paradigma está também a mudar no nosso país?
Já se começam a ver diferenças, sim! Já se começam a ver mais apostas em séries e mesmo as novelas têm cada vez mais qualidade. Claro que somos um país mais pequeno e, consequentemente, um mercado menor também. Acho por exemplo as coproduções uma ótima ideia e uma forma de aprendermos muito.

O que te imaginas a fazer daqui a 10 anos?
Daqui a 10 anos imagino-me, em primeiro lugar, com uma família feliz e saudável. Junto do Rodrigo, o meu companheiro há mais de 3 anos e ator também. É o meu principal sonho. Depois, profissionalmente sonho ter uma carreira rica em projetos de qualidade.

Para ti, quais são as grandes diferenças entre a Marta “miúda” e a adulta de hoje?
Sinto-me mais solta. Em miúda era muito tímida, não conseguia deixar os outros entrar na minha bolha, o que me fazia passar por arrogante. Sempre sofri com isso. Aprendi a abrir o meu coração e foi a melhor coisa que fiz. Deixar-me ir, mostrar-me com todos os erros, falhas e medos. Na verdade é isso que nos aproxima e que nos torna reais.

Miúdos que já São Graúdos
 com Marta Peneda

Por André Pereira e Joana Sousa
Outubro de 2020