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Fantastic Entrevista | Sara Barradas: "Ser protagonista não é estar só"

Foto: TVI / Divulgação
 
Sara Barradas começou o seu percurso como atriz aos 11 anos, na telenovela “Amanhecer” da TVI, e rapidamente mostrou ao público o seu talento. Desde aí, sucederam-se inúmeros papéis em televisão, cinema e teatro. Formou-se em Psicologia, mas a paixão pela representação falou mais alto. Atualmente, é Vitória Santareno em “Quer o Destino”, e conduz-nos numa viagem que aborda inúmeros temas, entre eles, a violação e a vingança. O Fantastic esteve à conversa com a atriz para falarmos sobre o seu percurso.

Começaste muito cedo nos grandes ecrãs. Sentes que isso foi determinante para a mulher e atriz em que te tornaste? Em que momento sentiste que o que querias realmente era representar?

Foi naturalmente. Se não tivesse começado tão cedo teria sido tudo diferente, não teria sido tão influenciada, no bom sentido, por tanta gente que admiro e isso terá moldado de certa forma o meu pensamento e a minha forma de estar. Sinceramente, não me lembro de ter começado a gostar de representação. Como disse Clarice Lispector “Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começámos pelo começo. Já era amor antes de ser.”. E este amor está em mim desde muito cedo, mas quando tive a certeza de que o que eu queria fazer o resto da minha vida era representar foi quando fiz o Amanhecer, em 2002, a minha primeira novela.

Sentes que o facto de teres começado cedo a trabalhar no mundo da representação te privou de viveres mais a tua infância/adolescência? Como lidaste com esta questão enquanto pequena?

Não me privou de nada. Só me acrescentou. E nunca fui incentivada pelos meus pais ou qualquer outro familiar, como sabemos que acontece, hoje em dia, com muitos jovens. Fui porque era o que eu mais queria. Eu sempre fui um pouco “bicho do mato”, tímida, introvertida, diferente de muitos amigos da minha idade. Trabalhar desde nova trouxe-me muita alegria, muita realização pessoal e profissional, permitiu-me conhecer algumas das minhas referências e privar com elas. Permitiu-me fazer novas amizades, da minha idade e não só. Permitiu-me encontrar o meu caminho desde cedo e realizar o meu sonho. Foi um privilégio.

Como foi para ti, enquanto criança, contracenar com conceituados atores ao longo dos diferentes projetos que integraste?

Como disse, foi incrivelmente maravilhoso. Foi uma honra. E eu tinha plena consciência dessa honra. Não me era indiferente com quem eu ia contracenar, pelo contrário, no inicio de cada projecto o que eu mais queria saber era quem eram os actores do meu núcleo e não só. E era um mix de emoções e sensações quando estava perante alguns deles, com os quais tinha crescido a ver representar.

Foto: TVI / Divulgação

Apostaste na tua formação enquanto atriz, nomeadamente noutros países. Sentes que é importante ires acompanhando o que se vai fazendo lá fora?

Sim, é importante. Faço isso através de filmes, peças e livros. Mas quando decidi estudar fora foi por vergonha, timidez, medo de falhar ou desiludir perante algum tipo de expectativa que pudesse haver a meu respeito, uma vez que já era actriz profissional. Sei que é absurdo, pois num curso de representação somos todos iguais e não é suposto haver qualquer tipo de julgamento, pois tudo é válido e não há propriamente certo ou errado. E, em ultima análise, estamos lá para aprender.

Foste também fazendo diversas peças de teatro ao longo do teu percurso. Tendo começado enquanto atriz de telenovelas, que importância teve para ti e para o teu percurso enquanto atriz esta oportunidade de abrir os teus horizontes para o teatro?

Toda a importância. O Teatro é a Mãe da representação. É nas tábuas que tudo começa. E eu, tendo feito o percurso inverso, tenho o rótulo de menina da televisão. Naturalmente, é tido como algo pejorativo. Por isso, anseio em afirmar-me como actriz de teatro, seja lá o que isso for ou queira dizer. Quero ser actriz por inteiro, no seu todo, e isso passa pelo teatro e gostava que também passasse pelo cinema.

Consideras que o palco é o local privilegiado na formação e carreira de um ator? Porquê?

Como disse, é nas tábuas que tudo começa. A representação surgiu sob a prática teatral, portanto é no teatro que está tudo o que somos enquanto atores. É no teatro que estão os grandes clássicos, os grandes autores, os grandes actores, é no teatro que está a história. E sem passado não somos presente. Eu não fiz a formação que desejaria ter feito, mais uma razão para querer fazer o máximo de peças possível e querer trabalhar com o maior número de criativos da área. Porque a experiência também é tudo e pode ser a maior escola, se bem aproveitada.

Foto: Direitos Reservados

Em 2018, foste Maria em "Rafeiro", uma curta que esteve em vários festivais e foi ainda exibida pela RTP2. Como foi preparar e interpretar esta personagem, assim como trabalhar com os teus colegas Fábio Costa, Almeno Gonçalves e Joana Aguiar?

As curtas, pelo menos as que fiz, acontecem quase sempre para nós, atores, à velocidade da luz. Enquanto que, para quem escreve e realiza, há muito tempo de pré-produção até que o projecto se torne real e possível, para os actores costuma ser de uma semana para a outra, pouco mais. O que não deixa margem para grandes processos criativos. E, apesar de tudo, não deixa de ser muito menos trabalhoso do que uma longa. “Rafeiro” foi um pouco assim. Foi receber o texto, aceitar, viajar para Vila Nova de Famalicão e só lá conversar um pouco com a Cátia, realizadora, sobre o que ela e eu achávamos da personagem. E depois é confiar nas propostas criativas de ambas as partes e fazer. É sempre stressante para todos mas muito prazeroso também.

No grande ecrã, participaste ainda noutros projetos, como é o caso de "Coisa Ruim", a primeira longa-metragem de terror portuguesa. Achas que ainda há muitos géneros por explorar nesta indústria, no nosso país? Como tens visto a evolução da mesma?

Sim, ainda há muitos géneros por explorar. Não há muitos géneros nunca feitos, mas a necessitarem de serem explorados sim. O que é normal dada a nossa realidade geográfica, demográfica e económica. Estamos num bom caminho. Mas é mesmo preciso abrir todas as portas e janelas do cinema português para que o público comece a gostar e a querer mais. O cinema deve ser para todos, não só para alguns, assim como o teatro.

No final de 2019, abraçaste o papel de protagonista na nova novela da TVI, Quer o Destino. De que forma encaraste este desafio?

Com muito medo. Tinha medo de não fazer suficientemente bem, de não agradar, de cansar. Não fazia uma protagonista há algum tempo e a responsabilidade é sempre acrescida. É a pessoa que dá a cara pelo projecto, é, à partida, a pessoa que tem o maior número de cenas, o que faz com que se for mal prejudique o todo. Por outro lado, ser protagonista não é estar só. Por isso, é extremamente importante que todo o elenco seja de qualidade, seja profissional e dê tudo pelo projecto. E neste, tive muita sorte. A história era incrível, cativante, emocionante, enervante. Deu-me muito gozo enquanto actriz e para ajudar à festa conheci pessoas incríveis e trabalhei com outras que já há muito queria trabalhar.

Foto: TVI / Divulgação

 Como é o processo de construção de uma personagem? Agora que terminaste as gravações de mais uma produção, tens mais dificuldade em criar uma personagem ou a despedires-te dela?

Tenho mais dificuldade em criar do que a largar, sem dúvida. Não sou da equipa dos actores que levam a personagem para casa. Para criar é preciso ler toda a informação possível que se consiga arranjar sobre a personagem. Depois é preciso ler histórias semelhantes, casos verídicos, ver filmes, séries, ler sobre a época, se for o caso. Tudo o que servir para nos inspirar. Depois é ensaiar, partilhar com os restantes colegas actores, realizadores, directores de actores, e deixar fluir. Quando acaba, se foi bom deixa saudade, se foi mau deixa alívio. Como em tudo.

Este é um papel com uma carga emocional muito forte e com cenas muito dramáticas. Como te preparaste para ele e como vais lidando com esta exigência?

Há papeis mais exigentes do que outros, dramaturgicamente falando e do ponto de vista emocional também. Para esses, é necessário ainda mais tempo despendido, mais estudo e mais concentração. E mais descanso também. Mas, normalmente, é ao contrário, pelo menos no que toca ao descanso. 

Para além de ter tido um percurso ascendente nas audiências, a novela foi muito acarinhada pelo público e foi também um projeto especial para o elenco, percebendo-se o bom ambiente que viveram nas gravações. O que é que retiras de melhor, a nível pessoal, de "Quer o Destino”?

Retiro as amizades que fiz para a vida. Retiro as pessoas que já conhecia e não me diziam nada e de repente passaram a dizer. E retiro as pessoas que não conhecia e é como se conhecesse desde sempre.

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Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Um dos grandes desafios deste projeto foi o facto de interromperem as gravações e retomarem com todas as medidas de segurança devido à COVID-19. Como foi trabalhar desta forma inédita?

O ser humano, felizmente, tem uma capacidade incrível para se adaptar ao meio. Somos animais. Foi tudo uma novidade mas, rapidamente, entrámos na rotina Covid: distanciamento, desinfecção, máscaras, etc…

Quais são as tuas maiores inspirações nacionais e internacionais?

É uma pergunta muito difícil e injusta. Nunca conseguimos nomear todas. Vou atirar nomes: Eunice Muñoz, Isabel de Castro, Manuela Maria, Margarida Carpinteiro, Beatriz Batarda, Maria João Luís, Rita Blanco, Isabel Abreu, Luisa Cruz, José de Castro, Rui Mendes, José Raposo, Miguel Borges, Fernando Gomes, Orlando Costa, Raul Solnado, Armando Cortez, Canto e Castro, Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman, Maggie Smith, Judi Dench, Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Antony Hopkins, entre muitos outros.

Enquanto atriz, o que sentes que ainda te falta fazer?

Tudo!

Se te voltássemos a entrevistar daqui a 10 anos, o que gostarias de estar a fazer nessa altura?

Teatro, cinema, televisão, dobragens, e a exercer psicologia. E mais houvesse.

 Fantastic Entrevista - Sara Barradas

Por André Pereira e Joana Sousa
Outubro de 2020