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Entrevista DOP - Tânia Guedes




Tânia Guedes é uma bailarina e coreógrafa lisboeta que se tem destacado nos últimos anos na nova geração de Dança Oriental nacional. Na segunda edição desta iniciativa entre Fantastic - Mais do que Televisão e o projecto Dança Oriental Portugal, a bailarina falou connosco sobre o seu percurso, as semelhanças entre o design e a dança, a sua perspectiva nos concursos de Dança Oriental na Península Ibérica e Ucrânia, as razões pelas quais não enveredou pela carreira de professora de dança, entre outras. 

1. Quando começou a tua paixão pela Dança Oriental?
Eu sempre gostei de dançar. Inicialmente comecei por praticar danças de salão, e em simultâneo fui experimentando outros estilos. A Dança Oriental apareceu em 2009 e como muitas colegas minhas, comecei o meu percurso num ginásio. Senti que gostava de ver e de executar os movimentos sinuosos e marcados característicos da Dança Oriental e queria conhecer e fazer mais. A música árabe também foi algo que desde início mexeu muito comigo, e quanto mais fui ouvindo mais me fui apaixonando. Senti que a dança foi também contribuindo muito para melhorar aspectos pessoais: eu era muito tímida, um bocado anti-social e tinha pouca auto-estima, dançar e expressar-me directamente para o espelho e directamente para o público foi fazendo com que me tornasse menos envergonhada e mais confiante. Lembro-me inclusive de começar a sentir mais confiança em apresentações orais na escola (risos). Ou seja, para além de ter um contributo a nível físico, foi contribuindo muito para o meu bem-estar e desenvolvimento pessoal e é impossível não nos apaixonarmos por uma coisa que nos traz tantos benefícios. A partir do momento que comecei a praticar regularmente e comecei a conhecer mais sobre os estilos existentes na Dança Oriental, sobre a música árabe e a sua história, o amor foi crescendo e aqui ficou.

2. Para além de bailarina, também és designer. Podes falar-nos um pouco sobre a forma como concilias estas duas profissões?
Bem, agora está a ser mais fácil conciliar devido à situação actual. Neste momento não tenho tido eventos e isso faz com que tenha (infelizmente) mais tempo livre. Trabalho como designer durante o dia e antes disto tudo acontecer, no final do dia ia duas a três vezes por semana treinar à escola Dançattitude e os eventos normalmente como são ao fim-de-semana, dá para conciliar nesse sentido. Agora com o espaço fechado, os meus treinos são feitos em casa após o horário de trabalho e também no escritório à hora de almoço, na sala de impressões precisamente. Desculpem colegas (risos). Claro que não é a mesma coisa porque tenho limitações de espaço mas é algo que me ajuda pelo menos a não estar parada e a manter alguma disciplina de treino. Para além dos treinos físicos, tento encaixar os estudos teóricos, manutenção às redes sociais, plataformas e todos os afazeres da dança para após o horário de trabalho e ao fim-de-semana. 

3. Existem algumas semelhanças entre a Dança e o Design? Se sim, quais?
Esta pergunta é muito interessante porque até agora eu nunca tinha pensado bem nas semelhanças e isto fez-me reflectir e achar curioso (risos). Apesar de serem áreas completamente distintas, existem características em comum no design e na dança (e mesmo até na escrita). O design é algo mais técnico, que tem como premissa arranjar soluções para problemas; a dança é uma arte performativa e ambas têm a componente comunicativa e criativa nas inseridas. O design comunica através de algo mais estático - no meu caso o papel principalmente; a dança comunica através da expressão e do movimento. Relativamente à componente criativa: teoricamente, design não é arte, mas para mim existe uma componente artística porque (dependendo do contexto) é permitido criar, e isso é algo que acaba por inevitavelmente definir o teu estilo, e te caracteriza de alguma forma - tal como na dança. Seja fazer uma coreografia ou elaborar uma identidade visual para uma empresa, acabas por deixar a tua marca no mundo através da criatividade e da comunicação.


4. Para além do Design, e da Dança, também escreves Poesia. Fala-nos um pouco sobre esta paixão.
Ui. Eu nunca fui muito de me expressar através da escrita e muito menos me passava pela cabeça escrever poemas. Até porque não é algo que domine tecnicamente nem tenha consciência das métricas e de como se deve escrever. Mas houve uma fase da minha vida que mexeu muito comigo emocionalmente e ao ter uma conversa com uma grande amiga minha (Inês Vidigal - que escreve lindamente) ela disse-me: “Escreve. Passa o que sentes para o papel.” Na altura aquilo não me fez sentido, mas houve uma noite em que estava a sentir-me tão embebida nas minhas emoções que resolvi seguir o conselho dela - escrever o que sentia - e o que é certo é que aquilo me fez sentir melhor. Depois fui aprimorando o que tinha escrito, e aí surgiu o meu primeiro poema. A partir desse momento cada vez que sentia algo forte que não conseguia sequer dizer por palavras, eu escrevia e sentia uma sensação de alívio, como uma afirmação e no fundo aceitação daquilo que estava a sentir e isso ajudava-me e ainda me ajuda. Sinto que tal como a dança, a escrita funciona para mim como uma espécie de terapia. Hoje em dia não tenho escrito tão regularmente, e isso é bom sinal, mas adoro fazê-lo e gostava de alguma maneira inserir a escrita na dança e ao design :) Nunca se sabe. 

5. Ao longo da tua carreira, já actuaste em vários espaços e contextos (bares, eventos privados, espectáculos, concursos) ao longo destes anos de dança. Podes contar-nos uma peripécia que te tenha acontecido num desses momentos?
Há muitas peripécias, momentos engraçados e momentos menos confortáveis que vivi ao longo deste tempo e há coisas que gostava de partilhar aqui mas publicamente não posso porque iria envergonhar-me muito (risos). Vou destacar um momento engraçado que aconteceu num evento privado em que actuei em grupo com as Mahasin. Pois é, como sabem no mundo dos eventos há muitos pedidos peculiares que nos são feitos. E posso partilhar que já me pediram muita coisa para um evento, mas nunca me tinha pedido para usar… uma peruca. Pois é, aconteceu (risos). Tratava-se de um evento temático, uma festa que remetia aos anos 80. Quando chegámos ao local, e como habitual fomos colocadas a par de como tudo iria funcionar, fizemos o ensaio geral, a marcação do espaço e quando fomos tratar da preparação da maquilhagem e dos figurinos foi-nos pedido que usássemos uma peruca que remetia à época, disponibilizada naturalmente pela organização. Claro que ficámos incrédulas e sem reacção mas como é normal deu-me um ataque de riso que achava que não ia parar nunca. No fundo aquilo foi tão descontextualizado que não sabíamos se havíamos de rir ou chorar. Hoje em dia creio que nenhuma de nós teria aceite fazê-lo, principalmente sem termos sido questionadas previamente, mas na altura, e após muita capacidade de interiorização acabámos por fazê-lo, e no fundo rir durante todo o processo. Apesar de nos ter soado a muito errado, ainda nos proporcionou umas valentes risadas. 



6. És das poucas profissionais de Dança Oriental nacional que não lecciona aulas regulares. Podes explicar-nos se existe alguma razão em particular para não te teres aventurado na carreira de professora?
Acredito que haja esta questão no ar até porque a maior parte (senão todas) as minhas colegas de profissão são professoras. A verdade é que há mais do que uma razão. Mas abordando a principal, eu acho que fazer carreira de professora, seja em que área for, é uma tarefa de enorme responsabilidade e que é necessário dispender muito tempo e uma dedicação imensa. E ser professora de Dança Oriental não exige ou não deveria exigir menos do que isso. É preciso investimento constante, procura de conhecimento constante e dedicação constante na passagem desse conhecimento - até porque a Dança Oriental é uma dança que não tem uma única verdade e não tem manuais que digam que “aquilo” é exactamente “assim”. É uma dança com muita coisa passada baseada em opiniões, e isso sempre me fez questionar: “mas quem sou eu para passar conhecimento baseado na minha opinião?” Isto é algo que sempre me pairou na cabeça. Porque por exemplo, enquanto quando eu quero aprofundar o meu conhecimento sobre um determinado assunto tenho manuais que o explicam claramente; na Dança Oriental existe uma série de livros que dizem coisas completamente distintas e cabe-nos a nós fazer a seleção do que nos faz sentido e passarmos conhecimento baseado nisso. Acho isso de uma enorme responsabilidade. Ser bailarina é uma coisa, ensinar alguém a sê-lo é outra completamente diferente. E admiro muito quem consegue fazê-lo. Amar dançar e amar ensinar são coisas distintas e eu amo dançar mas não me vejo a abdicar das minhas outras paixões para colocar o ensino regular aqui. Eu sou apaixonada por várias coisas e apesar de dançar ser o que mais gosto de fazer, e até gostar das experiências que tenho quando lecciono - sejam elas aulas privadas ou aulas de grupo pontuais - sinto que não consigo ter tempo para me dedicar ao ensino da forma que acho necessária para ser professora regular, e aprendi a aceitar essa diferença. No entanto quando tenho oportunidade de o fazer adoro de coração, e entrego-me totalmente, tentando passar o meu conhecimento ao máximo sempre com o propósito de fazer com que as alunas se sintam bem, felizes, e sintam principalmente que aprenderam algo, claro que com um pouco de humor à mistura (que não pode faltar) mas em suma, que saiam da aula com uma maior colecção de sorrisos e com a sensação de que valeu a pena.

 

7. Durante vários anos, foste uma das integrantes do grupo multipremiado Mahasin, juntamente com a Ana Caria e Catarina Branco. Como foi esta experiência?
Foi mais do que uma experiência. Foi uma fase muito positiva e que me ofereceu muitos momentos recheados de sorrisos. Para além de ter ganho parceiras de dança, intensifiquei amizades e sinto-me uma privilegiada por ter partilhado o palco com amigas com a mesma paixão que eu. O grupo Mahasin fez parte da maior parte do meu percurso na dança e isso contribuiu largamente para o meu crescimento pessoal e como bailarina. Apesar de gostar muito de dançar a solo, aconselho muito a todas as bailarinas terem a experiência de ter um grupo devido a uma série de aprendizagens e momentos bonitos de partilha que se somam.



8. Quais as principais diferenças entre o trabalho de solista e o trabalho de grupo?
No trabalho como solista eu consigo gerir o meu tempo contando apenas comigo. Tenho uma maior autonomia, independência e capacidade de gestão que depende só de mim, a criação também só surge de uma cabeça, e consequentemente com um único estilo. Ao trabalhar em grupo tenho de ter capacidade de adaptação aos horários dos restantes elementos do grupo, resiliência aprendendo a lidar e respeitar as opiniões dos outros elementos. Há também mais cabeças a contribuir com ideias, enriquecendo o vocabulário da criação e permitindo teres a fusão de estilos individuais dos bailarinos envolvidos. É uma questão de experienciares as duas vertentes e escolheres o que te faz sentido. 

9. Em 2019, foste a primeira bailarina portuguesa a ir a um festival na Ucrânia e a vencer prémios neste país. Podes falar-nos um pouco sobre esta experiência?
Claro que sim. O festival onde fui foi o Oriental Art Bazar organizado pelo Aleksei Riaboshapka e foi este que me ofereceu o full-pack quando estive no festival Lainhaya em Espanha em 2018 (e que fiquei para morrer de contentamento). Esta viagem foi um mix no que toca a experiências. Fui viajar sozinha, e isso trouxe logo aqui uma pitada de aventura devido às peripécias que foram acontecendo pelo caminho (risos). Decidi ficar uma semana para poder aproveitar o festival ao máximo e conhecer um pouco da cidade. Lviv é uma cidade pequena e muito bonita e o festival foi maravilhoso, com pessoas muito simpáticas que me receberam muito bem e me fizeram sentir muito acolhida. A formação foi intensiva com workshops de estilos muito variados em que alguns ainda não tinha tido oportunidade de conhecer. A competição onde participei chama-se Cup Halychyna - que é considerado um campeonato anual organizado pela UFOD, em que os jurados foram os mesmos mestres presentes no festival, mas o concurso é extrínseco. Não precisas de pagar um workshop do festival para competires no concurso. Qualquer pessoa pode participar desde que esteja na categoria correspondente. O ambiente aí confesso que já não foi tão familiar. Senti que era um ambiente muito competitivo e que a competição tinha um nível de exigência muito maior. Eu quando cheguei e me vi naquele cenário composto por equipas de staff para cada bailarina, com mega produções, bailarinas a gritar, outras a sentirem-se enjoadas e sei lá mais o quê eu pensei: “medo disto” (risos). Aí foi onde deu para perceber melhor o contraste comparativamente a Portugal. Eu senti-me um peixe fora de água e quando dei conta daquele ambiente que me parecia um autêntico caos, pensei: “ok, tu não pertences aqui, por isso não penses muito. Vais ligar o botão do f*****, aproveitar este palco brutal e vais divertir-te como se não houvesse amanhã” e foi isso que fiz. Eu diverti-me muito e desfrutei muito enquanto estive em palco. Participei na categoria profissional dividida em três fases com interpretações de estilos diferentes: a 1ª fase era improvisar um Tarab surpresa, a 2ª fase era apresentar uma coreografia de Folclore e a 3ª fase era dançar um Mejancé; e participei na categoria Pop Song. Acabei por trazer o 3º lugar na categoria profissional e o 2º lugar na categoria Pop Song. Isto tudo foi um grande desafio e a viagem toda foi uma experiência super enriquecedora em vários sentidos. Para além de ter conhecido um mercado da Dança Oriental completamente diferente, tive uma formação muito boa e conheci pessoas incríveis. Ah! E ainda jantei com a Dariya Mitskevich literalmente na mesma mesa, e quem me conhece sabe que para mim foi alta cena. (risos)



10. Do que te pudeste aperceber pelas tuas experiências, quais são as diferenças que encontras entre o mercado português, espanhol e ucraniano de Dança Oriental?
Sinto que em Portugal existem bons profissionais, sejam bailarinos, ou professores, no entanto é um país menor, com um mercado menor, e claro com menos oferta do que em Espanha. No país vizinho creio para além de mais profissionais, há também um maior estímulo à cultura e às artes, nomeadamente à dança oriental. Lembro-me de ter estado em Espanha e ver um cartaz num bar a anunciar um espectáculo onde ia participar, e isto aqui ainda não acontece. Há mais divulgação e consequentemente mais pessoas que conhecem a dança oriental no país ao lado. Sinto que ambos os países são semelhantes no que toca à união da comunidade e no ambiente familiar que se proporciona nos festivais, nomeadamente nas competições. Falando da visão baseada no que observei e no que falei com as bailarinas ucranianas que conheci, sinto que o mercado ucraniano é muito maior. Há uma maior preocupação com o aprimorar a técnica e desenvolver skills; existe uma oferta gigante de escolas, de professores, de muito bons profissionais e uma grande exigência nos treinos regulares. E esse espírito de rigor é incutido desde que as bailarinas são crianças. Existem também muitas organizações semelhantes à UFOD espalhadas pelo país e consequentemente muitos eventos a acontecer. Existe também um espirito de competitividade muito alto, que é incutido desde o primeiro mês de dança - one month = one competition, é o lema. Aliás, lá inclusive as escolas são rivais à séria. Se saíres de uma escola e fores para outra, esquece as relações que criaste na anterior - é uma coisa mesmo impressionante. E aqui acho mesmo um constraste gigante com o nosso país. Mas lá está, o mercado lá é muito maior, a percepção é completamente diferente. Sobre a visão dos concursos: nós e Espanha defendemos a ida a concursos pelas mesmas razões - desenvolvimento da confiança e melhoramento da técnica, - com a preocupação de entregar prémios que ajudem a bailarina a investir na dança e no seu próprio crescimento - seja com prémios em numerário, ofertas de formação, figurinos ou oportunidades de apresentar o nosso trabalho noutros palcos; na Ucrânia não existe tanto um estímulo de apresentação de trabalho e premiar para ajudar, existe mais a conquista do troféu regularmente.

11. Para além de bailarina, integras também a equipa do DOP – Dança Oriental Portugal, que tem como objectivo principal a divulgação da Dança Oriental nacional. Para que os leitores e seguidores do DOP estejam um pouquinho mais por dentro do nosso processo de trabalho, podes contar um pouco sobre o teu trabalho e a importância da imagem para o mesmo?
Para além de divulgar a Dança Oriental nacional, pretendemos fazê-lo bem e com seriedade. Seja destacar o trabalho dos bailarinos nacionais ou criar iniciativas pela dança, queremos fazê-lo de forma clara, sucinta e uniforme. E essa comunicação só é possível ser feita se houver um trabalho e preocupação no desenvolvimento da imagem, porque é isso que os seguidores vêem. Se houver uma boa comunicação para além de reconhecerem mais facilmente tudo o que nasce no DOP, acabam também por dar credibilidade aos conteúdos e iniciativas que lá são divulgados. Ao visitarmos a página DOP vemos que existe uma preocupação na distribuição de cores no feed, na existência de logotipo, nos ícones, existem capas com os nomes dos bailarinos e das iniciativas - tudo isto cria uma harmonia na comunicação e isso é mais apelativo ao utilizador. A probabilidade de alguém acompanhar o DOP é muito maior e seja com uma organização, escola ou evento é isso que pretendemos obter - mais visualizadores, chegar a mais pessoas. Aquilo que pretendo é dar o meu contributo como designer à área artística e é isso que tento fazer no DOP. Tal como já tive oportunidade de partilhar antes, cada vez mais acho que é necessário darmos a devida importância à força que a imagem e comunicação tem e que é passada na Dança Oriental, porque principalmente para quem não conhece, ao ver um cartaz bem elaborado, ou ver um bailarino com uma boa identidade, isso confere seriedade, credibilidade e profissionalismo. Tendo em conta que queremos dignificar e transmitir a conotação positiva que a dança oriental tem, faz sentido ter essa preocupação também visualmente, e isso só é possível através do investimento na comunicação.

12. Como bailarina que participa regularmente em vários concursos em festivais nacionais e internacionais, qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
Eu sempre vi uma série de benefícios nos concursos, aliás é exactamente por isso que faço questão de participar. Acho muito importante uma bailarina que quer continuar a investir tempo na dança, fazer treinos e actuações regulares. E como em Portugal, não há assim tantos espectáculos de dança oriental quanto gostaríamos, a participação num concurso é sempre uma oportunidade para actuar em palco para um público maior. Aliado a esta oportunidade, (e falando em como funciona a maior parte dos concursos) temos um conjunto de jurados nacionais e/ou internacionais que nos vão ver e dizer-nos os aspectos positivos e aqueles que eles acham que devemos melhorar, e isto faz com que possamos assimilar o que nos faz sentido e aprimorar a nossa dança mediante essas directrizes. Para além disto, ao saber que vou dançar para alguém especializado, que sabe o que estou a fazer e está ali para me avaliar, faz com que dê mais de mim, que trabalhe mais. E neste aspecto acho que faz sentido ir. No entanto e em paralelo a isto, tive uma experiência no último festival a que fui, que me fez refletir e que vou partilhar convosco. Decidi levar a música Ana Betnafas da Julia Boutros, e basicamente não fui avaliada por um jurado porque para ele não fazia sentido eu ter dançado uma Pop Song e uma música de carácter político. Eu coreografei uma história para aquela música específica e essa história nem sequer teve oportunidade de ser lida. Ou seja, este factor específico fez com que o propósito a que fui competir deixasse de existir e acabei por não ter tido avaliação à qual me propus.  Portanto, para além de termos de estar preparadas para ouvir críticas, temos também de estar dispostas a que eventualidades deste género possam acontecer, e confesso que o não ser avaliada não foi algo para o qual me preparei. Concluindo, como referi acima acho que existem vantagens ao ir a concursos, mas gostaria que houvesse um outro formato de concurso, que funcionasse mais como avaliação/mostra, permitindo a apresentação das nossas criações, sem o peso incutido na palavra “competição”. No entanto, e falando do formato de concurso que existe actualmente, se for para ir, que seja com um estudo prévio do foco do concurso para ver se vai de encontro ao nosso objectivo, e se decidirmos ir, que seja com a mente sã para ver a competição como uma oportunidade de actuar, para apresentar uma criação nossa, melhorar aspectos específicos da nossa dança e/ou receber a avaliação do júri com o objectivo de melhorar; mas também preparar-mo-nos para o caso de algum destes pontos não ser preenchido. 

13. Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
Sinto que hoje a Dança Oriental em Portugal está a ficar mais conhecida, reconhecida, e mais valorizada. A comunidade de dança oriental está também mais unida. No início da quarentena, foi-se criando uma maior abertura e partilha entre colegas, com video-chamadas constantes de partilha de conhecimento. Inclusive há hoje um grupo chamado CPDO - Comunidade de Dança Oriental - que reúne as bailarinas profissionais de Dança Oriental em Portugal, em que o objectivo é fazer coisas bonitas para e pela dança e sinto-me verdadeiramente feliz por sentir esta união e partilha. Observo também que há bailarinas da nova geração muito boas e empreendedoras em Portugal, que proporcionaram a abertura de escolas específicas de dança oriental, e que há uma preocupação maior das bailarinas profissionais em investir em formação e a ir ao estrangeiro para aprender com mestres internacionais. Para além de bailarinas e professoras que têm feito um bom trabalho, há também outros profissionais da área que fazem com que a Dança Oriental comece também a ser vista com outros olhos. Há hoje o DOP - Dança Oriental Portugal que estimula regularmente iniciativas que promovem o trabalho dos bailarinos fazendo com que este seja reconhecido e divulgado. Apesar de haver um longo caminho a percorrer e do nosso mercado ser ainda pequeno, sinto que estamos num trilho promissor com profissionais que dignificam esta arte e dão a conhecer o trabalho dos artistas portugueses ao Mundo. 

14. Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Primeiramente, se vão começar que façam uma boa pesquisa dos professores que existem para terem uma boa base inicial. Hoje em dia já há muita informação e apesar de não termos um mercado com muita variedade temos bons profissionais com um bom ensino estruturado no país. Se querem seguir a Dança Oriental de forma profissional, aconselho para além de ter um bom professor regular, que procurem muita informação teórica, que façam treinos regulares e tenham rigor e exigência nos mesmos, façam formação cá em Portugal e no estrangeiro, o mais possível para puderem ter o máximo de vocabulário e deste  modo poderem escolher o que gostam e não gostam, que tenham aulas regulares mesmo que sejam profissionais e que complementem essas aulas com outras actividades que ajudem a preparar o corpo para dançar.

15. O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Acredito estarmos num bom caminho. Felizmente há mais iniciativas, ideias novas e sinto uma maior união dentro da comunidade da dança oriental e logo aí já é óptimo e deixa-me muito feliz. Acho que falta mais informação, existirem plataformas como a Shimmie (Brasil), faltam mais professores, e mais profissionais que escolhem dedicarem-se a tempo inteiro à dança, de facto dedicarem-se a tempo inteiro à dança. Isto é, investirem tempo nas coisas certas. Na sua própria formação, na formação dos seus alunos. Exigirem mais. Quererem mais. Falta dar a conhecer a dança oriental a mais gente, não falar da dança oriental só dentro da comunidade, mas sim dá-la a conhecer ao público que não conhece. Falta haverem peças de dança oriental, tal como há no ballet, faltam espectáculos com fio condutor, cartazes nas ruas sobre esses espectácuos como existem sobre peças de dança contemporânea. Falta também aceitar estilos sem julgamentos, sempre respeitando a essência da Dança Oriental.

16. Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Um livro: Folclore - Cultura, Arte e Dança, da Luciana Midlej e Melinda James. Este é um livro que fala sobre vários estilos Folclore e que acho muito abrangente e completo. Aconselho a todas/os a terem. Está disponível no site da revista Shimmie. Um filme: Call me by your name de  James Ivory, porque é um filme com uma história de amor linda demais, com uma narrativa que eu amo e emociono-me sempre, não importa quantas vezes veja. E acho que toda a gente deve ter oportunidade de ver. Uma música: Flawless da Beyoncé (risos). É uma música super motivadora e impulsionadora para as mulheres, transmite muita força e relembra-nos de como somos impactantes. Acho que todas as mulheres devem ouvir. Aconselho inclusive a ouvir a versão do concerto Homecoming passada na Netflix que é fortíssima.



17. Quais são os teus próximos projectos e objectivos profissionais?
Neste momento estou a gostar muito de trabalhar na empresa onde estou. Sou designer a full-time e quero continuar a trabalhar e a investir nesta área e tornar-me melhor de dia para dia. Quero continuar a trabalhar também na imagem para o DOP - Dança Oriental Portugal dando assim o meu contributo como designer à dança aliando aqui as duas profissões e mostrando deste modo a importância que a imagem e a comunicação têm também no mercado da Dança Oriental. Quero abraçar mais projectos dentro da área artística para poder aliar ainda mais esta profissão à minha paixão pela dança. Quero ser uma daquelas pessoas que coloca cartazes de espectáculos de Dança Oriental a circular para o público comum, fora da comunidade. Quero dar o meu contributo no que me for possível, e dar a conhecer esta dança pela dança que é e não pela conotação negativa que ainda tem. Quero abraçar mais a escrita e aliar essa terapia à arte de alguma maneira. Quero continuar a trabalhar regularmente para melhorar o que tenho de melhorar como bailarina e apresentar em palco aquilo que quiser e sem coreografia se assim me apetecer (risos). Pretendo viajar mais, estar em permanente contacto com a natureza, conhecer mais festivais, aprender mais, coleccionar bons momentos e dar a conhecer o meu trabalho tal como ele é, com todas as ramificações que ele tem. E ambiciono um dia, ir a um festival, no Egipto. 

Entrevista DOP - Tânia Guedes
Por Rita Pereira
Agosto de 2020