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Entrevista DOP - Susana Amira

                                                                                                            Fotografia: Luís Conde

Susana Amira é uma das bailarinas, coreógrafas e professoras nacionais com mais anos de carreira na comunidade de Dança Oriental nacional. Na segunda edição desta iniciativa entre Fantastic - Mais do que Televisão e o projecto Dança Oriental Portugal, a artista falou connosco sobre como começou a sua paixão pela Dança, os desafios e as vantagens de ser bailarina profissional a tempo inteiro, o seu método de ensino, a repercussão da televisão no seu número de alunas, outros temas.

Quando começou a tua paixão pela Dança, e em particular, pela Dança Oriental?
A dança sempre me encantou e fazia parte do meu quotidiano. Em criança, pratiquei ballet e ginástica rítmica e desportiva. Não consigo precisar a origem do meu fascínio pela dança oriental e pela cultura árabe, contudo, sei que desde criança que me sinto atraída por todas as culturas do mundo, em particular, as que são diferentes da minha. Recordo-me de dizer à minha mãe que queria visitar Marrocos (pensava que a origem da dança oriental era em Marrocos, na altura não sabia que era no Egipto). Assim, destinei o meu primeiro ordenado enquanto economista para ir a Marrocos. Foi em 1999 e foi como se tivesse chegado a casa. Os mercados, os cheiros, os sabores, as músicas... era como um regresso a algo que me fazia todo o sentido. No entanto, apenas consegui ver danças tradicionais marroquinas, que também adoro, mas não a dança oriental que tanto desejava aprender. Não havia muita informação em Portugal sobre aulas de dança oriental e foi só em 2002 que encontrei uma professora, a Prisca Dietrich. Apaixonei-me logo na primeira aula e senti que aquela linguagem já fazia parte de mim, com um vocabulário que já me era familiar. Foi uma redescoberta de mim própria. 

Em árabe, ‘Amira’ significa ‘Princesa’. Porque é que escolheste este nome como apelido artístico?
O nome surgiu de forma muito natural, em 2006, ano em que comecei a estudar árabe. Inscrevi-me num curso de Língua e Cultura Árabe na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que frequentei durante dois anos. O meu maior interesse era perceber as letras das músicas que dançava para melhor as interpretar. Juntamente com colegas do curso, pesquisámos nomes árabes que tivessem a ver connosco. Acho que até foi o nosso professor que acabou por nos baptizar e acertou totalmente. Dentro do conceito de fantasia que tenho de “princesa”, Amira, revela uma parte de mim, sonhadora, idealista, corajosa, delicada e doce. 

Em 2010, fizeste parte do grupo “Mahtab” que fez história na Dança Oriental ao vencer o primeiro prémio para Portugal no Egipto (Nile Group Festival, 1ºLugar, Categoria Folclore). Podes falar-nos um pouco sobre esta experiência?
Quando fui ao Egipto com as Mahtab, ainda não fazia parte do grupo. Mas assisti a todo esse processo e foi incrível! Vi ao vivo a competição e senti-me muito orgulhosa de Portugal ter sido premiado! Foi sem dúvida merecido! Foi após esta maravilhosa viagem que fui convidada para integrar o grupo. Nesta viagem tivemos a oportunidade de ter aulas diariamente com grandes referências da dança oriental e vivemos a cidade intensamente. Vimos dança oriental em vários locais, desde os mais sofisticados aos mais populares. Foi uma experiência inesquecível.
Além desta viagem, já tinha estado no Egipto em 2004. Foi também um sonho realizado. Fiz um cruzeiro no Nilo, visitei o Vale dos Reis (Túmulo do Tutankamon), o Túmulo de Hatshepsut, Luxor, Asuão, Abu Simbel e Hurgada (Mar Vermelho). No Cairo, visitei as Pirâmides, o Museu do Cairo aonde vi Múmias, visitei o Khan el Khalili, um imenso bazar no coração do Cairo. Foi tudo fascinante e uma novidade. Vi Tanoura, uma dança rodopiante associada ao Sufismo, o ramo místico do Islão, praticada também por não religiosos. 
Ainda em relação a prémios, em 2012, já enquanto Sabaah, grupo formado por alguns membros das Mahtab (Barbara Ramos, Cris Aysel e Elsa Shams), viajámos até Londres e conquistámos o segundo lugar no Festival Shimmy in the City, organizado pelo maravilhoso Khaled Mahomoud e Charlote Desorgher (júri: Kazafy, Aziza e Orit). O prémio foi entregue pela grande bailarina Dina e foi uma experiência muito emocionante para nós.

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Costumas trabalhar em vários bares árabes em Lisboa. Alguma vez sentiste algum tipo de desvalorização para com a Dança Oriental nalgum desses espaços?
Portugal tem muito poucos bares árabes, uma vez que a comunidade de origem árabe residente em Portugal é muito reduzida. Têm aberto alguns espaços, mas com pequena dimensão. Considero que a dança oriental é muito pouco conhecida, apesar do esforço de várias profissionais no sentido da sua divulgação e dignificação. As pessoas não valorizam o que não conhecem. Penso que existe uma desvalorização da arte e da cultura em geral em Portugal, que também afeta a dança oriental. 
Danço em bares árabes desde 2008 e acho que é uma excelente experiência para qualquer bailarina. É uma ótima escola, sobretudo no que respeita a lidar com imprevistos e com o público. Salvo raríssimas exceções, sempre fui muitíssimo respeitada e valorizada nesses espaços. Atualmente, optei por reduzir o meu trabalho em bares e focar-me mais nas aulas, na produção dos meus espetáculos e, esporadicamente, em atuações em eventos privados, sociais e corporativos. 

És das poucas profissionais nacionais que vivem apenas do seu trabalho na Dança Oriental. Quais são as maiores vantagens e também os maiores desafios que tens de enfrentar no teu dia-a-dia?
Em 2010, comecei a dar aulas e, em 2011, tornou-se claro que me queria dedicar inteiramente à dança oriental. Foi nesse ano que deixei a minha profissão de economista para abraçar a minha paixão. 
A dança salva-me todos os dias, seja como refúgio, fuga da realidade, seja como encontro com a minha essência. Fazer o que se ama é um privilégio de muito poucos. Sou muito grata por isso. Adoro dar aulas. É maravilhoso assistir às mudanças que ocorrem dentro da sala de aula e fora dela também. A dança, se encarada como uma viagem, pode realmente fazer a diferença na auto-descoberta. A dança é um todo, um universo pleno de variedade. Abre a porta ao mundo íntimo e ao sonho. Consigo ter sempre um pouco de magia na minha vida. 
A parte menos positiva, é que ser professora e bailarina de dança oriental não está de acordo com o padrão da sociedade e do que a ordem dominante espera de nós. Então, não fazes parte do sistema. Fazes parte de um sistema dominado pela precariedade do ponto de vista financeiro e de um emaranhado de preconceitos, que se revelam bastante cansativos. Noto uma grande diferença na reação das pessoas se digo que sou economista ou se digo que sou bailarina e professora de dança. 
Quando comuniquei a minha decisão de mudar de vida, a maior parte das pessoas disse-me: “estás a trocar o certo pelo incerto”, “não faças isso”. De facto, eu tinha uma vida muito confortável do ponto de vista financeiro, mas tinha a certeza que não queria continuar a ser economista, uma vez que tinha encontrado a minha vocação.
Atualmente, vejo uma maior aceitação da diferença por parte de algumas pessoas e acabo por acreditar que todas as situações que estão subjacentes à vida de artista irão melhorar. Apesar de todos os desafios, não me arrependo da minha decisão. 

Já ensinaste Dança Oriental em várias escolas nacionais. Os directores das escolas recebem bem a Dança Oriental nos seus espaços? 
Sempre fui muito bem acolhida em todas as escolas. Contudo, a dança oriental não é uma dança de massas e depende muito da política e estratégia de cada entidade integrar essa arte ou não. Nem sempre é rentável ter turmas com poucas alunas e algumas escolas optam por fechar as turmas. Algumas escolas têm como referência as danças mais mainstream com turmas de 20/30 pessoas.



Ao longo da tua carreira, tens conseguido angariar várias alunas e praticantes de Dança Oriental. Podes falar-nos um pouco sobre os teus objetivos enquanto professora?
Considero que ser professora tem que ser encarado com um espírito de missão, de grande responsabilidade e uma fonte de grande realização. Sou verdadeiramente apaixonada pelo ensino.
Em termos gerais, considero que uma professora tem que reunir determinados requisitos. Em primeiro lugar, tem de saber bem o que vai ensinar e dominar as matérias em apreço. Em segundo lugar, deve conhecer formas para transmitir o conhecimento, torná-lo compreensível e relevante para a aluna. Em terceiro lugar, deve também conhecer bem as suas alunas e por último, deve fazer um caminho de auto-conhecimento. A professora tem que ter um conhecimento de si própria e da realidade em que está inserida. Isto quer dizer que deverá ter caraterísticas no sentido do desenvolvimento pessoal, assumindo o compromisso de ser não só uma professora reflexiva, mas uma pessoa reflexiva. O grande desafio que encaro enquanto professora é desenhar um caminho que favoreça a aprendizagem, atendendo às caraterísticas de cada aluna.  É fundamental dar as bases e favorecer a descoberta por parte de cada aluna do seu próprio movimento e da sua voz interior. Gosto de ver as minhas alunas dançar e reconhecê-las na sua dança. Claro que existe uma linha que seguem, mas não são as minhas réplicas nem os meus clones. Cada pessoa tem um ritmo diferente e propósitos distintos. A professora deve ser uma facilitadora dessa descoberta, orientando para a autonomia, humildade e sentido crítico. 

Podes falar-nos um pouco sobre o teu método de ensino? 
As aulas vão muito além da dança, são uma proposta de autodescoberta, de aceitar desafios e sentir a magia da partilha do universo feminino. Durante o ano lanço o desafio de várias atuações em espetáculos de palco para que as alunas possam desfrutar do ambiente das artes performativas e possam também ter uma ferramenta de auto-superação.
Ensino vários estilos de dança e vários níveis. Ensino nível iniciado, intermédio e avançado. Dentro de cada nível, ensino vários estilos (Tarab, Mejance, Romântico oriental, Pop, Percussão, Véu, Duplo Véu, Leques de Seda, Asas de Isis, Saidi com ou sem bastão, Khaligee, Dabke, Baladi, Shaabi, Street Shaabi, Espada (1 ou 2 espadas), Poi Veil (1 ou 2 poi veil), Dança com Velas, Dança com Candelabro, algumas danças de fusão e ainda algumas danças mais místicas). Ensino ainda história da dança oriental e ritmos árabes.
No início do ano defino os temas a abordar, contemplando técnica e trabalho coreográfico. Em duas coreografias por ano, junto todos os níveis e quase todas as minhas turmas. É um desafio desenhar duas coreografias para alunas de níveis diferentes e juntá-las em palco, mesmo sem pertencerem à mesma turma e sem terem ensaiado muito juntas.  O resultado final é fruto de muita dedicação de todas as alunas envolvidas. 
Eu defendo que temos que estar sempre em formação e desse estudo resultam ideias que por vezes permitem melhorar a nossa metodologia. O método de ensino não é estático, mas sim dinâmico. Há um fio condutor que vai sendo aprimorado ao longo do tempo. Há sempre margem para melhorar ou fazer de forma diferente. Na dança, como na vida.

Nos últimos anos, tens ido a vários canais de TV promover o teu trabalho enquanto bailarina e professora. Que impacto têm tido no teu caso estas plataformas na angariação de alunos?
Aproveito a minha presença nos diversos canais de televisão para exercer um pouco de pedagogia em relação à dança oriental. Costumo receber muitas mensagens de apoio e algumas alunas vêm experimentar uma aula porque me viram num determinado programa. Contudo, noto que tem mais impacto em termos de espetáculos e de eventos privados, sociais e corporativos. Verifico que os contratantes de eventos vêem nos programas de televisão uma forma de seleção. Por diversas vezes fui contratada por ter participado num determinado programa. Quando divulguei que tinha participado numa grande produção de Hollywood sobre a vida de Tutankamon, também tive vários contatos para eventos privados.


Como professora, tens organizado vários espectáculos para as tuas alunas. Podes falar-nos um pouco sobre o processo da sua produção?
Organizo espetáculos com alunas desde 2011. A produção é sempre muito simples porque sou eu que organizo tudo. Desde a sua conceção à edição de músicas, luzes, som, cenários, costura, etc, além das coreografias. Tenho tido a ajuda preciosa de algumas alunas ao longo dos anos, no entanto, é um trabalho bastante intenso. Para produzir espetáculos mais complexos, seria necessário dedicar muito mais tempo à sua concepção, coisa que sem apoios, não é possível. Assim, dentro das circunstâncias precárias existentes, tento encontrar um tema e desenhar o espetáculo nesse sentido. Produzo estes espetáculos por paixão, adoro dançar a solo, mas também adoro partilhar o palco com as minhas alunas. É muito gratificante e fico muito feliz quando quase as todas alunas participam, desde os 6 anos aos 71 anos de idade, mostrando que a dança une e está ao alcance de todas. Eu espero seguir o exemplo da minha aluna de 71 anos e também pisar o palco, alegremente, quando chegar a essa bela idade. 

Já tens vários anos de carreira enquanto bailarina, coreógrafa e professora. Quais são as diferenças que percepcionas na forma como a Dança Oriental é vista desde que te iniciaste nesta área?
Comecei a ter aulas em 2002, numa altura em que a dança oriental estava a dar os primeiros passos em Portugal. Havia muito pouca informação sobre esta dança e com a internet as possibilidades cresceram exponencialmente. Ainda assim, considero que a dança é muito recente. Há 18 anos que danço e acho que há apenas uma ligeira mudança na forma como a dança oriental é vista na sociedade. Mas não é um problema de Portugal, é uma situação que se vive em vários países. 
A representação da dança oriental é fantasiosa, misturando haréns sumptuosos e odaliscas sedutoras. Foi criado um estereótipo da mulher do oriente perpetuado ao longo do tempo, recheado de clichés e distorção da realidade. Por exemplo, o Harém era a parte da casa onde residiam as mulheres que vivam na dependência de um chefe de família, mulheres de todas as idades unidas por laços de parentesco. Entre elas dançar era algo normal e profundamente enraizado, no entanto, não tinha nada a ver com o ambiente erótico das 1001 noites. Historicamente foi sendo criada uma fantasia do imaginário coletivo sobre a dança do ventre sem equivalente noutras danças. Todas as danças são expressões de sentimentos, expressões artísticas, que exigem estudo e dedicação e a dança oriental não é exceção.
Penso que a dança oriental também é alvo de discriminação por ser sobretudo feminina e dada a condição das mulheres no mundo. A dança oriental é um instrumento poderoso de libertação, dá-nos a liberdade de sentir, de nos exprimirmos, de desbloquear uma energia estagnada de sermos inteiras, de sermos Mulheres. 
Considero que cabe a cada professora, cada aluna e amante da dança desempenhar um papel pedagógico para que esta possa ser cada vez mais conhecida e respeitada. 

Como bailarina já concorreu e professora que já teve alunas em competições nacionais, qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
O meio da dança é pequeno e existem poucas hipóteses para as profissionais e apaixonadas se apresentarem num palco. Os concursos são uma excelente forma das bailarinas mostrarem o seu trabalho, de encontrarem motivação e disciplina para estudarem, ensaiarem e criarem. A participação nos concursos depende bastante do propósito de cada bailarina, contudo, penso que é um bom desafio e uma forma de se superarem. Claro que a classificação será sempre um retrato subjetivo daquele dia, daquela hora, atendendo ao júri presente, não obstante, considero que, em termos gerais, é positivo. 
Em termos artísticos, não acho tão apelativo porque muitas vezes não revela a verdadeira essência da bailarina, mas sim o que a bailarina considera que poderá agradar, de acordo com modas e tendências. Algumas vezes vê-se uma réplica dos passos da moda, das expressões da moda, do que pode agradar e não tanto a vertente artística que mais me encanta.  Os concursos, por vezes, apelam aos instintos de vaidade, de ostentação, de competitividade, de superficialidade e da padronização da bailarina. 
Em 18 anos de dança, participei 2 vezes em castings de dança a solo e uma vez num concurso num Festival de Dança em grupo. Fui selecionada nesses castings, um para fazer parte de uma série de espetáculos dirigidos pelo professor egípcio Mahdy Emara, outro para fazer parte do elenco da produção de Hollywood sobre a vida de Tutankamon. No Festival conquistámos o 2.º lugar na categoria grupo. Confesso não me atrai particularmente entrar em concursos, mas podem abrir portas e oportunidades de trabalho.
Desde 2012 que danço em Festivais Internacionais em todo o mundo e muitas vezes levo as minhas alunas, as Raqs Amira, para atuarem também comigo. A primeira vez que as Raqs Amira me acompanharam foi em 2012, em Barcelona numa Gala com a presença do bailarino Ozgen. Desde então tenho sido convidada a participar em Festivais tanto para atuar a solo e com as minhas alunas como para lecionar workshops.
Ao produzir os meus espetáculos e dar a oportunidade às minhas alunas de subirem a um palco, pretendo que criem de acordo com a sua essência e a sua verdade, sem pensar muito sobre o sucesso da sua performance, libertando-as de uma certa pressão para a padronização. 
Acho que participar em concursos pode ter muitas vantagens, mas também é possível construir uma carreira em dança sem nos termos que basear em prémios e competições.

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Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
Penso que nos últimos anos temos assistido a uma evolução muito grande. Acho que há muito boas profissionais de dança oriental e com grande vontade de dignificar esta arte, bem como interessados em realizar eventos como forma de dinamizar e diversificar as possibilidades de formação. Vejo com bons olhos os vários estilos e tendências dentro da comunidade da dança oriental em Portugal e valorizo as diferentes experiências de cada profissional. 
No que diz respeito ao ensino da dança oriental, há ainda um longo caminho a percorrer, sobretudo no que respeita à certificação de conhecimentos, competências em matérias de dança, de anatomia e de pedagogia. Será muito interessante acompanhar e fazer parte de movimentos que pretendam estabelecer algum padrão de qualidade e de rigor tanto ao nível do ensino como da dança propriamente dita.

Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Estudem, pratiquem, sejam humildes e apaixonadas. Ser professora é uma grande responsabilidade. Penso que é importante estudar ao longo da vida, ter humildade para aprender sempre, respeito e ética, valorizando as professoras que estiveram no nosso caminho, bem como as colegas de profissão. 
Num mundo cheio de solicitações e exigências há o paradigma do fast food, fast education, fast dance. A nossa sociedade foi educada a agir por objetivos e vivemos na vertigem do fazer com pouca margem para ser. Desta forma, além da componente do estudo da técnica de dança e da cultura árabe, acho que tem que haver uma grande atenção também no que respeita ao auto-conhecimento numa perspetiva de desenvolvimento pessoal.

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O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Acho que Portugal está no bom caminho e é um percurso que leva tempo. É uma tarefa para vários anos. Deverá continuar a existir um foco na qualidade, na credibilização e dignificação da dança. Hoje em dia temos muitas apaixonadas pela dança, várias pessoas que organizam eventos e também se dedicam à divulgação da dança. O DOP é um excelente exemplo desta vontade de mostrar a dança oriental à nossa sociedade.

Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Livros: Os Filhos da Meia-Noite, Salman Rushdie, Leão, o Africano, Amin Maalouf, Para onde vão os guarda-chuvas, Afonso Cruz, O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão, Éric-Emmanuel Schmidt.
Um dos meus vícios é a leitura. Podia escolher muitos outros, mas estes 4 livros marcaram-me de uma forma especial. Entre livros com personagens históricas, histórias de diferença, de amizade, tolerância ou mesmo de poderes efabulados, todos eles foram determinantes para a visão de que tenho do mundo.
Peças de dança: Antes que matem os elefantes de Olga Roriz, Desh de Akram Khan
Escolhi duas peças muito importantes para mim. As duas falam em certa medida da diferença e da realidade de ser emigrante ou refugiado. É um assunto ao qual sou muito sensível. Tenho uma orientação forte para o trabalho social e, por vezes, faço trabalho voluntário neste âmbito. Penso que arte deve construir pontes e ajudar a perceber que todos estamos interligados e em interdependência.


Música: Waiting for you, Nick Cave and the Bad Seeds
A música é uma fonte constante de inspiração. Escolhi esta música pelo seu caráter transformador, uma música que vagueia pelo medo, mágoa, angústia, mas também pela esperança.

Quais são os teus próximos projectos e objectivos profissionais?
Uma das minhas missões é dar a conhecer a dança oriental, desmitificar e mostrar como é apaixonante. Vou continuar a fazê-lo através das aulas e dos espetáculos, bem como noutras ocasiões e oportunidades.
Além da formação em dança oriental, pretendo continuar a frequentar com periodicidade formações noutras expressões artísticas que enriquecem o leque pedagógico das aulas. 
Os espetáculos de palco com alunas serão projetos que pretendo retomar assim que o Covid 19 permitir.

Entrevista DOP - Susana Amira
Por Rita Pereira
Julho de 2020