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SETE FILMES POR SEMANA - COMING UP | Just Mercy


Existirá pior situação que aguardar a sua vez no corredor da morte por um crime do qual não é culpado? Pensamos que não, e para além de ser levantada novamente a controvérsia sobre a pena de morte, Just Mercy volta a cruzar as linhas de Hollywood com o racismo numa longa-metragem que mostra como um novo olhar, longe de vícios ou engodos, pode ser a resolução para um mistério maior, mas sobretudo para oferecer de bandeja justiça dentro da corrupção. Michael B. Jordan volta a provar que é um dos nomes a ter em conta no radar de talentos de Hollywood, e mesmo que lhe tenha sido negada a merecida menção nos Academy Awards deste ano, a sua interpretação continua a trazer à memória as boas recordações de Julia Roberts em Erin Brockovich. O tom do tema tem uma carga dramática associada, mas valem os alicerces seguros do argumento para que no seu conjunto Just Mercy seja uma fita coesa e concisa que brinca com as nossas emoções e senso de justiça. Por um mundo melhor não estará na altura de quebrar barreiras?

Está aberta a discussão, mas o discurso não se dirige só a terminar com as falsas acusações, esse é o pano de fundo para apontar o dedo sem rodeios a várias formas de discriminação e de como uma história pode ter várias versões: A real e a que nos é contada, a gosto de quem tem poder para refazer a verdade à medida que lhe convém. É neste plot que se desenvolve o enredo de um drama que à cabeceira de outros plots de sucesso consegue ter um brilho individual assente na simplicidade de um guião que não peca por excessos que mascarem a mensagem ou nos façam dar reviravoltas num storytelling que se introduz como “baseado numa história verídica”. É só o essencial para nos vender talento em cada frame, e fazendo de toda a película um projeto digno de cinema e bem mais próximo de uma narrativa de streaming do que propriamente de uma grande produção assinada pelos gigantes de Hollywood. O orçamento foi depositado no casting, deixando de lado grandes técnicas ou cenários, porque na verdade esta é uma história que respira sozinha no seu género de filme indie, onde não é necessária uma grande rede.


Vamos a factos: Falamos de uma trama que relata a dificuldade que temos em marcarmos presença numa indústria quando acabamos de sair do universo académico. Da forma como somos ignorados e olhados de lado como meros ratos de laboratório que pouco ou nada sabem do que se passa e a quem dar uma oportunidade é quase um crime. Estamos contaminados com a ingenuidade de quem quer abraçar o mundo de uma vez só e com a garra de um primeiro amor. Mas por mais que aos olhos dos grandes de cada uma das áreas tudo isto possa ser ridículo, o plot de Just Mercy vem provar que nem sempre uma voz jovem está assim tão errada num mundo de adultos, e que por vezes falta algo de limpo dentro dos lobbys que cada setor tem. Aqui falamos de um advogado que oferece o peito às balas na tentativa de salvar da morte, literalmente, vários homens que aguardam a sentença de morte nos EUA. Muitos deles sem terem direito a um julgamento digno ou sequer a serem ouvidos, num total descuido em que o que manda pode, muitas das vezes, ser a cor da pele ou a origem.

Sim, porque por mais voltas que a vida dê ainda há quem se guie por regras do passado quando se trata de avaliar o carácter do outro. Em sociedade estamos treinados a olhar com desdém e até alguma inferioridade quem se apresenta como diferente. E por isso, ainda se torna tão importante que surjam obras como esta para voltarem a colocar a carta da xenofobia e racismo em cima da mesa e expor o quão injusto pode ser o sistema. É um bom embrulho do texto do filme que só melhora com a explanação de como um caso de polícia pode ser arquitetado com uma facilidade única e de como o poder nem sempre serve para defender, mas sim para fabricar e servir alguns lobbys e subidas de carreira. O importante não é encontrar um culpado, mas sim culpar alguém para que o caso seja encerrado o mais rápido possível. Já assistimos a sinopses como esta em centenas e centenas de filmes e num bom punhado de episódios de Law&Order ou NCIS, mas desta vez a produção do realizador Destin Daniel Cretton consegue a proeza de juntar os condimentos certos para fazer bonito e diferente do que já nos foi dito antes. É baralhar o jogo e dar de novo sem perder a essência.


Michael B. Jordan já está mais que ensaiado nos grandes palcos e blockbusters de Hollywood, com Creed ou Black Panther, mas excede as expectativas nesta obra, onde tem espaço para atrair os holofotes e nos deixar rendidos ao seu talento de astro em ascensão. O personagem talvez precisasse de um pouco mais de fibra, mas é a humildade e fragilidade da expressão de Michael que concedem verdade à interpretação de Bryant. Sentimos o medo e a força sem perdermos o foco de que estamos perante um advogado. Por mais descabido que nos possa parecer assistir a alguém tão novo a lutar por um caso tão impactante, a destreza com que o ator se desenvencilha dentro do papel transporta-nos para a realidade e leva-nos a acreditar que tudo é possível. Isto claro porque todo o ambiente criado à volta é tão simples que nos leva a confiar na veracidade do que se está a passar. É um típico caso em que menos é mais em cada sequência de uma cinematografia na qual se nota talento por detrás de um budget baixo. Esse budget foi investido, e bem, num elenco sem mácula onde Jamie Foxx dá vida ao homem que serve de base ao texto subjugando-se na contracena para deixar brilhar o caçula da vez, é um trabalho de entrega deixando de lado grandes vedetismos e percebendo que o lugar de destaque não é o seu. Por outro lado, temos Brie Larson que parece voltar a errar na escolha de papéis depois de ser bem-sucedida em Room. Eva, a quem a atriz dá vida, é um elo de ligação que ajuda a cimentar o protagonista, mas que pouca relevância tem na trama. É um desperdício de talento dentro de filme que poderia ter sobrevivido perfeitamente sem Brie Larson como cabeça de cartaz ou chamariz para o público.

Este é mais um dos exemplos de como não devemos acreditar em tudo o que vemos ou lemos à primeira vista. Como tudo se tornar em algo diferente quando olhamos um pouco mais fundo. No meio de toda esta reviravolta, o final consegue entregar a densidade necessária no habitual romantismo cinematográfico concedido ao argumento com a conclusão expectável, mas que não estraga o trabalho feito até então e transmitindo a mensagem de esperança que envolve toda a fita, além de se tornar muito melhor quando percebemos nos minutos finais que tudo aquilo foi real, e que nada foi mascarado em prol do sucesso do filme. Just Mercy podia ter embarcado na aventura de escrutinar até que ponto a pena de morte é um medida legitima, e qual é o peso a colocar na balança para que tal decisão seja tomada, mas neste caso escusou-se de pagar a fatura de ser demasiado moralista, para nos oferecer única e simplesmente uma boa história que nos faz pensar e emocionar. As expectativas podem ser traiçoeiras em muitos casos, mas Just Mercy ganha terreno por olharmos para ele como apenas mais um drama com a morte à espreita dentro de um tribunal, ganha por ter voz própria, por tudo aquilo que não se coíbe de apresentar dentro de todos os cuidados que tem em não se sobressair demasiado. É um filme que pode ser visto em família e ainda deixa lugar ao debate. Existe melhor opção em tempo de quarentena do que uma boa troca de ideias? Nunca é tarde para mudar mentalidades.

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