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Viajar porque Sim #5 | Bruxarias transmontanas


A primeira sexta-feira 13 deste ano é já em Março e não há melhor maneira de trocar as voltas ao azar do que aproveitar a data para um fim-de-semana comprido e com festa rija. Como? Basta seguirem este roteiro.

Dia 1
Montalegre


Quando o dia 13 calha a uma sexta-feira, todos os caminhos vão dar a Montalegre. Desde 2002 que nestas datas a vila se veste a preceito e organiza impecavelmente uma enorme festa que se estende pelas ruas em volta do Castelo. O tema, como não podia deixar de ser, é a bruxaria, aqui tomada no seu sentido mais amplo para incluir desde monstros a figuras mitológicas, passando por esqueletos e personagens do terror cinematográfico. É como um Halloween, mas à boa maneira portuguesa, com muita comida e bebida, animações de rua, lojas e casas decoradas com mais imaginação que meios, e um espectáculo que mistura música, artes circenses e fogo-de-artifício. 

A popularidade desta festa é (a condizer com o mote) assombrosa, tanto entre portugueses como espanhóis. De tal modo que as estradas de acesso a Montalegre ficam ao longo de quilómetros com as bermas ocupadas por carros, autocarros e autocaravanas – e perto da meia-noite ainda continua gente a chegar. Durante a tarde de sexta-feira já há comida e animação para entreter os visitantes, mas a festa a sério só começa depois das dez da noite e prolonga-se até de madrugada, com um desfile pelas ruas da vila de gente vestida a rigor, a “queima do enforcado”, o habitual esconjuro pelo Padre Fontes, a preparação da queimada galega (uma bebida centenária tradicional da Galiza e do norte do nosso país) e o espectáculo piromusical.






Em Montalegre, antes de entrarem na folia podem aproveitar para conhecer o castelo e a sua igreja, o tranquilo Parque do Cávado, ou mesmo irem até à Cascata de Donões, que fica a uns meros 3 km da vila.

O programa específico da próxima Sexta 13 ainda não está disponível, mas podem ir espreitando a página do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/745743469168440/.

Como nota final, saibam que a segunda e última sexta-feira 13 deste ano será em Novembro.

Dia 2
Barragem do Alto Rabagão - Vilarinho de Negrões – Carvalhelhos - Boticas

Hoje começamos o percurso ao pé da água, mais propriamente na Barragem do Alto Rabagão. É a maior barragem portuguesa em termos de coroamento: quase dois quilómetros, com vários locais onde podemos parar o carro para observar a vastidão por onde se espraia e a imensa área circundante. Depois da agitação da noite anterior, nada como a tranquilidade deste grande lago para repor as energias.


Continuamos pela estrada que contorna a albufeira pelo sul. Meia dúzia de quilómetros mais à frente há que parar para ver, primeiro de longe, uma cena de postal ilustrado: numa península estreita que avança pelo lago adentro, um casario com não mais que três dúzias de telhados, rodeado de verde e amarelo, se a barragem estiver meio vazia, ou só de azul, quando as chuvas fazem o nível das águas chegar à beirinha das casas. É Vilarinho de Negrões, que vista à distância parece uma aldeia de brinquedo. A aldeia é pequena, cheia de pormenores curiosos, e percorre-se num instante, mas vale a pena atravessá-la até chegar mesmo à beira da água.




A paragem seguinte é em Carvalhelhos, bem conhecida pelos apreciadores de águas minerais. As termas, indicadas para as perturbações do aparelho digestivo, do metabolismo, da pele e do aparelho circulatório, só funcionam de Julho a Setembro, mas o parque pode ser visitado todo o ano. A apenas um quilómetro de distância encontra-se o Castro de Carvalhelhos, um povoado fortificado proto-histórico com ocupação romana, protegido por muralhas e fossos, do qual subsistem vestígios das casas circulares ou rectangulares de pedra típicas da época. A partir da entrada do Castro há um percurso pedestre que leva a uma pequena cascata a que dão o nome de Fonte dos Amores.

De regresso à estrada, seguimos na direcção de Boticas e pouco depois encontramos a entrada do Boticas Parque - Natureza e Biodiversidade. É atravessado pelo rio Beça e ocupa uma vasta área que vista a preservação da biodiversidade natural, ao mesmo tempo que proporciona aos visitantes um contacto estreito com a natureza. Foram criadas infra-estruturas que permitem ao público não só conhecer o Parque, como também participar de actividades que incentivam esse contacto. Há um percurso pedestre que liga Carvalhelhos a Boticas passando ao lado do Parque e depois pela ponte romana que cruza o Beça.

Boticas Parque - Natureza e Biodiversidade
https://www.boticasparque.com/
Facebook: https://www.facebook.com/boticasparque.pt/
Estrada Nacional 311 nº2, 5460 Boticas
Horário de funcionamento da recepção: de quarta a domingo 10h-12h30 e 14h-18h
Informações: telefone 276 410 206  email: aacceltiberus@gmail.com

Na vila de Boticas, é obrigatório visitar o Centro de Artes da Fundação Nadir Afonso, arquitecto e pintor falecido em 2013, pioneiro da arte cinética e internacionalmente reconhecido, com trabalhos expostos em vários museus em todo o mundo.


Centro de Artes Nadir Afonso
https://www.boticashotel.com/exposicao-nadir-afonso
Rua Gomes Monteiro, 5460-304 Boticas
Horário: 9h-12h30 e 14h-17h30 (encerrado nas tardes de domingo e manhãs de segunda-feira)
Informações: email: geral@nadirafonso.com

Outro local a visitar (embora apenas em dias úteis) é o Museu Rural, aberto ao público desde 2000 e inserido no Ecomuseu de Barroso. Está instalado numa casa de arquitectura tradicional e tem como objectivo preservar e mostrar testemunhos arqueológicos, históricos e etnográficos do mundo rural desta região.

Museu Rural de Boticas
http://www.cm-boticas.pt/conteudos/default.php?id=2
Largo de Santo Aleixo, Boticas
Horário: de terça a sexta 10h-12h30 e 14h-17h30
Informações: email: ecomuseu@cm-boticas.pt
Marcações grupos: telefone 276 410 206

Na Praça do Município foi há alguns anos colocada uma réplica, em granito maciço, da representação do Guerreiro Galaico, uma das quatro estátuas encontradas nas escavações de Outeiro Lesenho (actualmente em exposição no Museu de Arqueologia, em Lisboa), e que se crê ser a figura antropomórfica mais antiga da Península Ibérica. A uma rua de distância, o parque de lazer do Ribeiro do Fontão é mais um lugar agradável para relaxar depois de um dia bem preenchido.

Dia 3
Chaves
É uma das cidades portuguesas mais antigas e mais interessantes do nosso país. Teve um papel importante durante a ocupação romana da Península Ibérica e foi-lhe atribuída a categoria de Município no período de governação do Imperador Tito Flávio Vespasiano. Deste facto e das suas famosas águas termais deriva o seu nome latino: Aquae Flaviae.

O monumento mais relevante dessa época que sobreviveu até aos nossos dias é sem dúvida a Ponte de Trajano, construída em inícios do século II d.C sobre o rio Tâmega. Tem 12 arcos de granito visíveis e duas colunas com inscrições, mas sabe-se que há pelo menos mais seis arcos soterrados sob os edifícios adjacentes. Crê-se que na sua construção participaram legionários da Sétima Legião Imperial (Legio VII Gemina Felix).


Do outro lado da ponte ergue-se a igreja de São João de Deus. Seguindo pela margem para sul, atravessamos o Jardim Público até encontrarmos um caminho de poldras (pedras) que emerge da água. É a forma mais divertida de cruzar o rio, e deixa-nos na Alameda de Trajano, junto ao Jardim do Tabolado e ao Parque Termal.

Subimos até ao Castelo, que em tempos defendeu a fronteira portuguesa com a Galiza. Nitidamente medieval, entre a Torre de Menagem e as muralhas foi criado um simpático jardim. Pela sua posição elevada em relação ao rio, é o melhor miradouro da cidade. A Torre de Menagem funciona como Museu Militar e é visitável.

Museu Militar de Chaves
http:// www.cm-chaves.pt
Horário: 9h-12h30 e 14h-17h30 (encerra aos feriados)
Informações: telefone 276 340 500

Passamos depois pelo edifício da Câmara e a seguir pela igreja da Misericórdia, construída no século XVII em estilo obviamente barroco. Há quem a considere a igreja mais bonita da cidade, mas pessoalmente prefiro a igreja Matriz, que tem o nome de Santa Maria Maior e fica logo a seguir. Com um exterior sem grandes ostentações, de traça românica (terá sido construída no século XII) e partes renascentistas, o que a torna diferente da maioria das igrejas portuguesas é o seu interior: escuro e despojado, com o tecto em madeira de castanho, e um ambiente de recolhimento e simplicidade absolutamente fascinante e fora do comum.


Seguindo para a Rua Direita, penetramos no coração do bairro medieval de Chaves. Ruas estreitas onde ainda se conservam as tradicionais casas pequenas, com vários pisos e varandas avançadas de madeira, pintadas com cores garridas – uma das mais acarinhadas e famosas características originais da cidade.


Chaves é, além de tudo o mais, terra onde se come bem. O seu presunto é famoso, mas não se esqueçam de provar o genuíno pastel de Chaves, uma fina massa folhada que envolve um refogado de carne de vitela, e o folar, recheado com enchidos (e que não tem nada a ver com o folar da Páscoa).
Bom apetite, e bom passeio!

Ana CB / Fevereiro 2020

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