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COMING UP | Knives Out



Sherlock Holmes e Hercule Poirot parecem ter encontrado um novo companheiro de farra! Benoit Blanc é o homem que conduz a história de Knives Out, num claro paralelo de Inception onde em vez de vivermos sonhos dentro de sonhos, temos um crime macabro com um escritor de histórias de mistério no meio de uma família de loucos. Com um elenco de luxo, esta premissa que é igual a tantas outras vem explorar, novamente, um género já mais que batido no cinema com um olhar diferente, provando que em Hollywood ainda é possível existir alguma reinvenção. Não é um filme que nos vá surpreender, sobretudo para quem se habituou a tentar resolver os casos de Inspetor Max, ou a ler títulos de Agatha Christie  mas é certamente um longa leve e divertido com um cheirinho a Oscar que não deixa nenhum cinéfilo indiferente.

O elenco atropela grande parte da história. O luxo de reunir no meio de uma cena Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson e Chris Evans é algo digno de ser visto, e já faz valer a pena a duração da longa-metragem. Contudo, a película acaba por perder por não conseguir entregar mais espaço a cada um dos intérpretes, que não desiludem no seu balanço entre drama e comédia. O tom das suas caricaturas às famílias abastadas em que o dinheiro vale mais que o amor é exímio, com um largo destaque para Lee Curtis, que já nos habituou a performances fora da caixa em projetos de Terror e que carrega essa bagagem para esta nova personagem, mantendo uma poker face que pode confundir quem pretende resolver o crime nos primeiros minutos.


O humor está concentrado sem transparecer como algo tosco, satisfazendo quem gosta de acompanhar uma boa comédia familiar com todos os estereótipos presentes. Ana de Armas e a sua interpretação de Marta Cabrera talvez tenham sido o ponto em que o argumento se excedeu na utilização da piada, mas mesmo este foi um mal necessário para fazer com que todos os pontos se ligassem. Por outro lado, Daniel Craig volta a encaixar-se no seu próprio mundo, na pele de mais um homem com um mistério às costas. Longe das habituais cenas de ação, Craig não é destaque, porém consegue enquadrar-se no estilo de Kenneth Branagh em Murder on The Orient Express, com uma posição de espectador, sem insultar o público com ilações de coisas que não nos foram dadas a conhecer. Craig carrega a imagem de 007 no imaginário da maioria de nós, e neste tipo de personagem, talvez, tenha sido um ponto fraco. Blanc exigia alguém mais carismático, a solução até poderia ter passado por trocar os papéis de Michael Shannon e Daniel Craig, e aí sim a conversa poderia ser bem diferente para ambos.

Mas vamos à história. Em que é que um filme sobre mistério pode ser diferente? No meio de uma lista infindável de opções, Knives Out ofereceu a solução para o quebra-cabeças logo no início da trama, deixando os espectadores com um nó no cérebro e a perguntar-se: “É só isto?”. Mas não é. Por mais que tudo pareça resolver-se, há muito mais para “escavar” e provar que nem tudo o que parece é. Tudo se resume a aparências neste projeto, que numa era em que o preconceito é cada vez mais tema de conversa utiliza a caricatura para nos provar que quanto mais certezas temos sobre alguma coisa, mais surpresas podemos ter a seguir. Durante toda a primeira metade somos convencidos pela visão tendenciosa do filme a atribuir culpas a Marta pelo crime, deixando o verdadeiro criminoso debaixo do nosso nariz o tempo todo.


E sim, para quem se habituou a crescer a desvendar tramas, a solução acaba por ser óbvia. Contudo, a experiência do filme é melhor que o mistério, é um plot amarrado com leveza, sem se levar demasiado a sério e sem deixar momentos mortos. É o equilibro que falta na maioria dos blockbusters. Apesar de tudo, o mistério é mantido com coerência, deixando as pistas certas. E acaba por se resolver de uma forma peculiar, dando mérito à personagem com melhor índole dentro de todos os suspeitos.

Knives Out é mais um produto pensado para premiação, algo que se nota na escolha do elenco, mas em grande parte pela forma como tudo é conduzido dentro do storytelling. A leveza que promete agradar a mais do que um público e todo o esquema do mistério poderiam ser meio caminho andado para assegurar um Golden Globe de Melhor Filme de Comédia, não fosse este ano ter como concorrência Once Upon a Time on… Hollywood ou Jojo Rabbit, dois monstros. Talvez não tenha força para agarrar um Academy Award, mas é certamente uma agradável surpresa dentro da saturação do Cinema deste género.

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