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COMING UP | Jojo Rabbit [OSCARS]


É difícil um filme sobre a Segunda Guerra Mundial ainda ter algum fator de novidade. Mas é isso mesmo que torna Jojo Rabbit numa das melhores longa-metragens de 2019, a surpresa. É difícil escrever uma comédia situada num dos piores momentos da história mundial sem que isso se torne algo desconfortável, obsceno ou até mesmo racista. Exceto se tivermos Taika Waititi ao leme de uma produção. O realizador prova mais uma vez que é um mestre da leveza, com a profundidade no ponto necessário e sem fugir do tom. Não há máscaras, a realidade está ali como ela é, mas sob o olhar ingénuo de uma criança e do seu contexto. E é essa a grande “pedrada no charco”: O olhar, em que mesmo o sério se torna objeto de brincadeira e em que a gravidade de uma situação é vista sem o peso dramático que impõe. O mesmo argumento que tem a generosidade de nos estipular como prioridade durante a guerra, a importância de um primeiro beijo. É isto, o síndroma de Peter Pan, num contexto sério, mas sem nos levar à tragédia. É história em estado puro, nos pensamentos de uma criança e nas mãos de um dos maiores talentos da era moderna de Hollywood.

Caminhar o limbo entre o drama e a comédia é uma cruzada difícil, contudo, Jojo Rabbit consegue dar uma aula de como se pode fazer algo cultural, sem ser demasiado erudito e mesmo assim manter a ambiência e o conteúdo. Todos os preconceitos e conceitos que sabemos que existiam na Alemanha Nazis são usados como alvo de um argumento que sabe gozar com o imaginário coletivo que todos temos sem faltar ao respeito à densidade que a escolha temporal oferece. Diz o povo que “o melhor do mundo são as crianças”, e Taika Waititi não é mais do que a personificação do que a mente borbulhante de um pequeno homem é capaz de fazer com a sua imaginação. Porque sim, se há espaço para elogiar a maestria como realizador, há que deixar lugar para homenagear aquela que é uma das melhores caricaturas de Hitler de sempre. O homem que aprendemos a odiar e que aqui nos deixa a rir. O amigo imaginário que todos quisemos ter, mas que nunca pensamos que poderia receber a identidade de Hitler, tudo isso é desmistificado aqui com uma atuação digna de prémio para Waititi, que na verdade dá vida a uma criança. Nem a idade lhe pesa, a atuação é cheia de maneirismos que entregam sentido em cada ação e que nos deixam apaixonados pela química entre o ator e o protagonista. Ser criança como adulto, talvez seja um dos maiores desafios, é o soltar da bagagem, e que só poderia resultar com alguém que realmente se entregasse ao projeto, sem ter medo do ridículo porque este não é de todo um conceito que preocupe uma criança de 12 anos. Ser ridículo é uma preocupação de adulto.


Waititi é uma das grandes chaves para que no resultado final, o filme se torne em algo inesquecível, porém vale mencionar que Hollywood voltou a conseguir fazer nascer um novo talento vindo do nada. Jacob Tremblay até nos pode ter conquistado o coração em Room, mas aí tinha Brie Larson a espartilhar o protagonismo. Aqui, Roman Griffin Davis assegura a maioria das cenas nas suas costas, e assumiu como gente grande o personagem do início ao fim. Tem boas contracenas e é defendido por um bom guião? Sim, mas há uma cota parte de talento gigante ali, em que um miúdo de 12 anos interpreta um papel basicamente adulto, com pequenos pormenores de ingenuidade. É o caminho inverso de Waititi, mas é essa simbiose dos dois que tornou as cenas entre Jojo e Hitler nos melhores momentos do projeto.

O storytelling consegue ainda brindar-nos com uma visão da opressão, com a falta de liberdade e de como o racismo e xenofobia se foram enraizando no seio da comunidade, tudo através da educação. Um alerta que não vem por acaso, e que mesmo usado como forma de gozo revela a força que temos como sociedade para mudar mentalidades. Uma coincidência no estado atual do mundo? Não me parece. No meio de toda a comédia de ingenuidade, há espaço para uma descida à terra para nos provar que apesar desta ser uma película sobre uma criança, também elas foram confrontadas com as atrocidades da política em que vivem. Apesar de ser um momento agoniante, a morte de Rosie, a personagem de Scarlett Johansson, foi o equilíbrio necessário para nos mostrar o quão devastador foi a guerra e a falta humanidade, emoção ou compaixão. Isto sem textos longos ou choros, um simples abraço. Porque por detrás do brilhantismo da narrativa está a capacidade de manter a simplicidade.


Falando em Scarlett, a atriz entrega uma atuação recheada de ternura, que em parte pode ser apenas a forma como o filho a entendia e percebia, mas não deixa de ser o contrassenso de uma sociedade que exige aos seus filhos que sejam mais e melhores que tudo e todos, sem se importar com quem é a figura que seguem. Aqui, e num filme que se fala de segregação, encontramos a liberdade de dar às crianças a possibilidade de serem quem quiserem, sem ideais pré-impostos, mesmo que vão contra as ideologias dos pais, o mais importante é que sejam eles, que sejam completos. Uma mensagem bem interessante, que fica nas entrelinhas de uma única cena. E isto sim, é cinema. Quando num único frame conseguimos juntar um número de sensações gigante e até uma pequena lição de como agir perante o outro.

Cena a cena, Jojo Rabbit vai-se provando como um projeto muito maior do que a sua premissa inicial revela. Esta é uma história mais corajosa do que propriamente leve, como o trailer nos faz parecer. É o mexer com aquilo que é o nosso passado coletivo, é a representação da realidade, e uma outra forma de vermos o que acontecia na mente de quem estava lá. É a eloquência de cruzar referências para nos dar mimos tão bons quanto a banda sonora de David Bowie no pós-guerra. Nada disto descredibiliza as outras obras que usaram o mesmo pano de fundo, mas não é possível deixarmos passar a ousadia do argumento. Aqui há a harmonia do tom, com espaço para o humor característico de Rebel Wilson e para a piada que apenas alguém que conhece a fundo o contexto histórico vai entender. Em season de prémios, Jojo Rabbit é um competidor muito mais feroz do que aparenta e poderemos ter algumas surpresas quando a lista de nomeações aos Oscars saírem. Será que Taika Waititi pode conquistar um lugar como Best Supporting Actor? Ou será que a academia surpreende e coloca Roman ao mesmo nível que dos adultos na corrida por Best Actor? Enquanto o espaço nas categorias de Best Picture, Best Director e Best Adapted Screenpaly parecem certas, resta dizer que Jojo Rabbit poderia ter já um prémio na sua “prateleira”. Se os Golden Globes tivessem oferecido uma lista de indicados correspondente ao título do prémio Best Motion Picture – Musical or Comedy, talvez, o projeto tivesse vencido com destaque o troféu. E merecidamente!

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