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COMING UP | Klaus


Este ano a Netflix parece ter-se empenhado em preencher bem os sapatinhos dos utilizadores. Prepare o seu lugar bem confortável junto à lareira e deixe-se embalar por um toque de modernidade nas boas e velhas lendas de natal. Klaus é o conto que merece ser visto. Com a mesma profundidade de uma história da Pixar e o equilíbrio perfeito entre uma película para crianças e adultos, a Netflix voltou a acertar o alvo numa história para toda a família que justifica a maioria dos mitos urbanos que associamos às comemorações da época. Dos duendes às renas, e até às cores, tudo se liga num argumento sem falhas que mete a gigante do streaming como concorrente à altura dos impérios da Disney e da DreamWorks.

Não há nada mais natalício que a velha tradição de escrever cartas com os desejos. E é este o ponto de partida para uma história que se inicia longe dos tradicionalismos, para construir de raiz o imaginário que todos amamos. Jesper é o típico menino mimado, cheio de mordomias que não aprendeu ainda a dar valor ao que tem, até ao dia em que o seu pai decide dar uma lição ao seu discípulo. Jesper é obrigado a partir para um lugar do qual nunca ouviu falar e onde tudo é diferente da civilização à qual estava habituado. O objetivo era simples: Conseguir que durante um ano fosse entregue um número elevado de cartas em Smeerensburg, um local dividido pelo preconceito de duas grandes fações bem ao género de Romeo & Juliet, mas sem o habitual romance à mistura.


Profissões tão valorizadas e essenciais quanto a de carteiro ou professora são deixadas de lado nesta guerra de territórios onde não existe comunicação. Afinal de contas não são assim todas as guerras? Um paralelo bem interessante estabelecido numa altura em que se fala de igualdade um pouco por todo o mundo. Tudo isto para mais uma vez voltarmos a tocar os pontos do respeito e tolerância ao mesmo tempo que formamos adultos bem mais conscientes do que as gerações anteriores. Esta é a primeira mensagem implícita, mas há muitas mais. Desde a depressão, o desencanto profissional, a luxuria, a ignorância, coisas que talvez só os crescidos entendem e que nos aproxima muito mais da animação do que muitos live action bordados em tons de rosa.

Klaus vem apresentar-se como o “salvador da pátria”. Despretensioso, o homem que vive isolado longe de toda a agitação dos gangues rivais cruza caminho com Jesper, e por um mero acaso (ou não), o desenho de uma criança acaba por simbolizar a união dos dois. Klaus é um homem silencioso, mas preocupado. É um extremoso inventor e criador de brinquedos, apaixonado por crianças e que não perde a oportunidade de ver um sorriso inocente. O negócio torna-se simples depois deste primeiro encontro: Escrever uma carta dirigida a Klaus e na manhã seguinte um brinquedo estaria à porta. No meio desta premissa algumas regras foram adicionadas pelo carteiro, como a de que só meninos bem-comportados garantiam um presente. De um momento para o outro, os clãs que se odiaram por gerações acabam por se unir graças à vontade das crianças que passam a esforçar-se para ajudar os adultos nas suas tarefas. E aqui encontramos os dois lados da mesma moeda. Descobrimos uma justificação para as lendas urbanas que contamos na infância ao mesmo tempo que nos é apresentada uma sociedade meramente consumista em que fazer o bem é o mais correto, apenas se gerar uma recompensa no final. É o jogo do vale tudo. Desde que se receba algo em troca pouco importam as convicções ou a história, porque no fundo todos se unem num objetivo pouco ortodoxo, mas válido.


Mas apesar dos seus contras, a chegada desta figura à vila de Smeerensburg trouxe consigo a vontade e motivação para que se valorizassem as coisas essenciais da vida como a educação. A pequena Margu que se tenta expressar numa língua desconhecida é uma das histórias mais bonitas do filme, mostrando que nesta Torre de Babel, a bondade pode ser mesmo uma língua universal e não precisamos de muito, apenas de ouvir e dar valor ao outro. É através dela que descobrimos a verdade, segundo a Netflix, sobre as figuras dos duendes do Pai Natal, que neste caso são apenas influências de várias culturas dispostas a ajudar em função de um bem maior. É emocionante e mesmo sem se entender uma palavra do que a menina diz, está lá tudo e tão bem feito.

Klaus tem soluções divertidas, procurando não deixar nada por dizer e mesmo com muitas autojustificações consegue manter-se coerente e envolvente. Sem perder o lado educativo, consegue passar uma mensagem bem vincada aos adultos provando que nem sempre aquilo que mais queremos é o caminho mais indicado, um pequeno desvio poderá ser um mundo ideal totalmente novo por descobrir.  O argumento consegue elevar a fasquia e a surpresa é ainda maior depois da Netflix nos ter oferecido alguns longa-metragens menos trabalhados e pouco imaginativos. Klaus acerta no ponto, inovando sem perder a graça e profundidade. É o conjunto perfeito para se tornar num dos ingredientes tradicionais em noite de consoada pelos próximos anos.

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