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Fantastic Entrevista - Catarina Branco


Catarina Branco é uma bailarina, professora e coreógrafa de Dança Oriental portuguesa. Com 26 prémios em festivais nacionais e internacionais no seu palmarés, acabou de abrir um estúdio em Setúbal dedicado a esta arte - o Catarina Branco Oriental Studio. Nesta entrevista, uma parceria com o instagram Dança Oriental Portugal, a artista falou-nos da sua experiência no Egipto, de como surgiu a ideia de abrir o seu estúdio, da experiência em ser jurada em festivais e também da importância dos prémios na sua carreira, entre outros temas.

1. Este ano foste pela primeira vez ao Egipto. Como foi esta experiência?
Visitar o Egipto, o berço da Dança Oriental, era um sonho meu desde que comecei a dançar. Não consigo descrever o sentimento de realização que me trouxe tê-lo concretizado finalmente este ano, quando completei 10 anos de Dança. 
O país surpreendeu-me primeiramente pela sua pobreza. Não tive ainda oportunidade de visitar muitos países de terceiro mundo e o Egipto foi o primeiro. Não tinha noção da realidade muito sinceramente. Vimos muitas crianças nas ruas, descalças. As ruas todas muito sujas e muito lixo tanto no chão como no Nilo.  
A cidade do Cairo é muito agitada, com muito movimento - ouvíamos buzinas pela noite fora. Contudo, é também uma cidade tranquila, com uma energia calma e de felicidade. Penso que é essa a cultura egípcia: efusiva, barulhenta, mas ao mesmo tempo relaxada capaz de aproveitar a vida, como nós ocidentais não conseguimos. A viagem durou apenas uma semana, não deu para “mergulhar” na cultura, mas certamente deu-me um vislumbre mais real da cultura da dança a que me dedico.
Como não podia deixar ser, amei conhecer As Pirâmides e a Esfinge. São completamente hipnotizantes, de uma magnitude e energia indescritíveis. Penso que todos nós devemos visitar este local que assinala os nossos primórdios. É absolutamente incrível.
Para além de visitar o país, também participei no festival Ahlan Wa Sahlan, outro sonho meu concretizado. Desde que comecei a dançar que vejo vídeos deste festival e sonhava um dia participar. Um local lindo, cheio de pessoas de todo o mundo e um bazar de sonho para qualquer bailarina de Dança Oriental. Deixou apenas a desejar a organização pois todos os eventos atrasavam horas. Os espetáculos diários chegavam a ter 8 horas de duração, cheguei mesmo a subir ao palco às 4 da manhã…
Partilhei esta viagem de sonho com outra bailarina Portuguesa de Dança Oriental – a Diana Costa. Conhecê-la melhor e partilharmos as duas esta experiência foi também muito especial para mim. Adorei o nosso companheirismo, gargalhadas e partilhas. A verdade é que essa também é uma parte muito importante destas nossas viagens e experiências – a partilha entre colegas. 



2. Nesta viagem, dançaste no Ahlan Wa Sahlan, o festival de Dança Oriental mais reconhecido do mundo, e venceste o 3o Lugar na Categoria Master Profissional. Qual é a importância dos prémios na tua carreira?
Fiquei muito feliz por ter vencido este prémio. Quando decidi participar não esperava vencer, queria apenas aproveitar a viagem e desafiar-me, por isso escolhi a categoria superior - Master Profissional, em que tínhamos que apresentar-nos três vezes: com música ao vivo surpresa (completamente aterrador), com um folclore egípcio (eu levei folclore do sul – o Saidi) e ainda uma peça de Pop Shaabi, que nunca tinha dançado.
Já venci ao todo 26 prémios ao longo de 8 anos de dança, e eles tiveram um peso muito importante na minha carreira principalmente a nível de credibilidade junto do público geral. 
Os prémios que vencemos em competições de Dança Oriental dão-nos dinheiro, fatos, acessórios, formação e oportunidades de atuar, que contribuem muito para a nossa evolução. Graças a estes prémios consegui viajar mais e aprender mais. 
A comunidade de Dança Oriental mundial também nos presta mais atenção por vencermos prémios, eles fazem-nos notar. Um vídeo de Youtube a dizer Winner é um indicativo que a dança deverá ser boa e por isso pessoas escolhem ver mais. 
Mas acima de tudo, os prémios deram-me credibilidade fora da comunidade. Infelizmente, a Dança Oriental não é valorizada como deveria ser, não é colocada no mesmo patamar que o hip hop, que as danças de salão, e certamente que a dança clássica e contemporânea. Competições e prémios é algo que releva sempre uma atividade; é um sinal de trabalho, superação e conquista e é algo com o qual o público geral está familiarizado – e não é apenas no desporto, mas em todas as artes. Quem não liga aos Óscares e aos prémios de Cannes quando vai ver um filme? Quem não liga aos Grammys? Quem não liga aos Prémios Nobel? A verdade é esta: os prémios homenageiam e são referência de qualidade. E foram graças a eles que me fiz notar na minha cidade e que muito mais pessoas começaram a prestar-me atenção. Não sou simplesmente aquela que abana o rabo e que tem vestidos bonitos, sou, como muitas vezes dizem, “a campeã de dança do ventre”. Na nossa sociedade, estas palavras despertam interesse, dão credibilidade e geram respeito. Não acredito que sem os prémios teria tido a adesão às minhas aulas que tenho hoje, nem os convites para eventos, e nem, acima de tudo, a notoriedade e respeito pelo meu trabalho e a minha arte.



3. Este ano estreias-te como jurada - primeiro no Raks Ireland e agora em Novembro, no Oriental Dance Weekend 2019. Quais são as tuas principais preocupações e desafios como jurada?
Ser jurada é uma função de muita responsabilidade que muito sinceramente me deixa nervosa (mais do que eu como concorrente). Talvez pelo facto de ter concorrido já tantas vezes e saber todo o trabalho que está por trás, sinto que não posso falhar e dar o meu melhor na análise. Acima de tudo quero ser justa. A arte é subjetiva, por isso não há um claro vencedor, mas eu quero ao máximo ser fiel ao meu critério, àquilo que acredito ser mais importante numa bailarina, e ser coerente na avaliação que faço de todas as concorrentes.
A minha primeira vez como jurada foi este ano no Raks Ireland e sinceramente não pensava que seria tão difícil. Tinha apenas três minutos para analisar vários aspetos da dança de uma bailarina (técnica, coreografia, apresentação, presença, entre outros), depois comparar esses aspetos com as outras bailarinas da mesma categoria (se a bailarina anterior teve melhor técnica ou não, por exemplo, para colocar valores diferentes), e ainda traduzir a avaliação que fiz para um número (pontuação) que poderá ser apenas de 0 a 5 ou de 0 a 10. Fazer toda esta análise e escrever na folha de avaliação, tudo em três minutos, acreditem que é muito desafiante.
O parâmetro que achei mais difícil de analisar foi a coreografia. Um aspecto que analiso sempre que vejo uma atuação, que estudo muito e à qual dou muita importância. Naquele momento, com tantas coisas para analisar, realizar uma boa avaliação da criação coreográfica de uma bailarina que é algo que deve ser analisado desde que ela pisa ao palco até que sai, é extremamente difícil - não é como a aparência ou a técnica que podemos analisar em qualquer altura, é uma estrutura que deve ser analisada do princípio ao fim. 
Esta experiência fez-me ainda ter mais certeza do que já sabia: que as competições são muito subjetivas, e pouco interessam os resultados, se ficas em primeiro, segundo ou terceiro. Obviamente as bailarinas que terminam com resultados mais elevados terão tido melhores performances que as que tiveram resultados inferiores, mas entre pontuações semelhantes, pouca diferença faz, pouco diz realmente da dança da bailarina. 

4. És a bailarina portuguesa com mais prémios no circuito internacional de festivais de Dança Oriental. Como professora que participa e leva também as suas alunas a competições, qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
As competições em arte são sempre temas que levantam polémica, são sempre motivos de discussão. Obviamente como participante e como professora que incentiva as suas alunas a participar, sou a favor das competições de Dança Oriental. Contudo, penso que é importante entender o que estas representam, e, como falei na pergunta anterior, perceber que os resultados em competições não determinam o nosso valor nem a qualidade da nossa dança.
Desde 2011 que participo e sinto que as competições foram uma excelente ferramenta de evolução, como também uma importante plataforma de exposição do meu trabalho. 
Por um lado, ao ter uma data em que me iria apresentar em palco, à frente de um júri referenciado com alto conhecimento da Dança, e ao lado de outras bailarinas no mesmo patamar que eu, sempre me fez trabalhar muito – queria dar o meu melhor, não queria ficar mal. É isso que a competição faz – desafia-nos, faz-nos trabalhar mais e em novos aspetos. Dá-nos ainda experiência de palco e o parecer de um júri que nos indica aspetos importantes da nossa dança que podemos melhorar. Penso que não teria trabalhado tanto na minha evolução se não fossem as competições. Contudo, não devemos nunca mudar a nossa dança, ou escolher um determinado estilo de música para agradar um júri – o foco é evoluirmos e dar o nosso melhor, não vencer um prémio. A arte é subjetiva, e nunca podemos agradar a todos, temos que seguir o nosso coração, a nossa intuição, ser fiel à nossa personalidade, para conseguirmos desenvolver o nosso próprio estilo e construir, assim, uma carreira como bailarinas.
E por outro lado, as competições deram-me a oportunidade de pisar novos palcos em novos países, apresentando-me para novos públicos e ganhando novos seguidores. 
Mesmo sendo a favor das competições, confesso que receio que estas promovam e ajudem a catapultar apenas bailarinas focadas na técnica e que carecem de um estilo próprio. Mas creio que o problema aqui não está nas competições, mas nos critérios de avaliação utilizados, e a forma como o júri analisa. Podemos antes procurar a bailarina que traz algo de diferente ao palco (com um bom nível técnico e de apresentação como é claro), alguém que realmente apresente arte, um estilo próprio e único. E, claro, o resultado é sempre subjetivo, mas essa é a beleza da arte.
Como professores também podemos contribuir e explicar à aluna como deve entender uma competição. Penso que uma aluna de dança deverá sempre ter outras oportunidades de atuar, noutros contextos, e sem limite de tempo ou pressão. Por essa razão crio oportunidades de apresentação às minhas alunas para elas subirem ao palco e ganharem experiência e à vontade a dançar, e onde podem também mostrar as suas criações coreográficas, sem a obrigatoriedade de participar em competições e obedecer às suas regras.


5. És professora de Dança Oriental desde 2015 e já ensinaste em escolas em Lisboa – Dançattitude e DanceSpot – e em Setúbal. Quais as características que consideras essenciais num bom professor de Dança Oriental?
Sou professora há apenas quatro anos e sei que ainda tenho muito para aprender e evoluir. Penso que um bom professor se torna excelente após anos de experiência, com um constante aperfeiçoamento do seu método de ensino.
Contudo, acredito que todos nós podemos ser bons professores logo desde que iniciamos a atividade se: 1. formos estruturados no nosso pensamento e na forma como transmitimos o nosso conhecimento - devemos sempre procurar organizar a informação e comunicá-la de uma maneira estruturada e clara aos nosso alunos para que a entendam e a apreendam com facilidade, não devemos nunca descurar a importância da preparação não só da aula seguinte mas de todo o ano letivo/curso; 2.Se formos preocupados com o aluno e com a sua evolução, estando sempre atentos à sua participação na aula, corrigindo caso necessário e dar-lhe as ferramentas necessárias para que melhore, treine e evolua; 3. se incentivarmos os alunos a dançar, a ultrapassar desafios, a não desistir, e dar sempre seu melhor; 4. Se procurarmos sempre obter mais conhecimento e melhorar o nosso método de ensino; 5. se informarmos sempre os alunos sobre o contexto da dança e o que esta representa, fazendo assim com que respeitem a dança, o nosso trabalho, como também a sua própria prática.
Em resumo, o que faz um bom professor, na minha opinião, é a sua vontade genuína de passar conhecimento. Se esta vontade existir, esta paixão pelo conhecimento e pelo ensino, o professor estará sempre em busca da melhor maneira de ensinar, sempre a aperfeiçoar o seu ensino, a criar novas técnicas e a motivar os alunos. Havendo esta vontade, basta adicionar dedicação e empenho para se ser um bom professor.

6. Quais são as maiores dificuldades em ser professor de Dança Oriental em Portugal?
A história da Dança Oriental como escola em Portugal é muito curta. Foi apenas no final do século passado que surgiu a primeira professora de Dança Oriental no nosso país. A Dança tem, assim, ainda pouca expressão e o seu ensino tem um grande caminho a percorrer.  Por isso, diria que a maior dificuldade para um aspirante a professor é primeiramente obter a formação necessária para ensinar. Não existe um curso superior de Dança Oriental (naturalmente), nem mesmo cursos estruturados e completos de pedagogia da Dança Oriental no nosso país. A informação sobre a nossa dança está muito dispersa e pouco organizada. Assim sendo, para se ser professor de Dança Oriental, é necessário um grande estudo, investigação e capacidade de estruturar uma formação. Não é como ser instrutor de Yoga, que hoje em dia encontramos cursos formativos em quase todas as cidades, com uma estrutura completa e tudo o que precisamos de saber para ensinar esta modalidade.
Outra grande dificuldade que um professor de Dança Oriental enfrenta, é a ausência de público interessado em aprender, principalmente em aprender até a um nível avançado. Acontece que ninguém no nosso país, ou quase ninguém, sonha ser profissional de Dança Oriental, nem sequer sonha simplesmente dominar a dança, como se calhar alguém ambiciona ser cinturão negro de karaté ou tocar a 9ª sinfonia de Beethoven num piano. Logo, um dos grandes desafios de um professor é exatamente angariar alunos para as suas aulas e que estes se mantenham e queiram prosseguir os estudos, de forma também a haver alunos suficientes para a existência de turmas de vários níveis para quem quer evoluir.
Por último, um outro grande desafio de ser professor de Dança Oriental, e creio que esteja relacionado com os dois anteriores, é fazer-se respeitar por outros profissionais de dança, artistas, proprietários de escolas de dança, e todo o público geral. Como a dança tem pouca expressão, e há pouca formação disponível, há ainda pouco conhecimento sobre a nossa dança e, por isso, uma grande incompreensão da mesma. Muitas vezes pensam que não há técnica na nossa dança, que consiste apenas em “abanar as ancas” e ainda que surgiu dos “haréns árabes” a fim de “seduzir“ (como é grande a ignorância…). Assim, há também um grande trabalho por parte do professor de Dança Oriental de informar as pessoas devidamente sobre a nossa arte, fazendo-as respeitá-la, e ao seu trabalho. Se respeitarem e valorizarem o trabalho do professor, este terá mais alunos interessados em aprender, como também obterá mais rendimentos das suas aulas, permitindo que continue a formar-se, a evoluir e a tornar-se melhor professor. 

7. Em Outubro abres o teu espaço de dança em Setúbal, o Catarina Branco Oriental Studio. Como surgiu a ideia de abrires o teu próprio espaço?
Acredito que todos os profissionais de dança sonham ter o seu próprio estúdio, tal como uma designer de moda sonha ter o seu próprio atelier de costura e um pintor o seu próprio estúdio de pintura: é um local seu para se dedicar à sua arte, poder desenvolvê-la sem entraves. Pois, eu não sou exceção. Desde que decidi dedicar-me a 100% à Dança Oriental em 2016 que digo que terei um estúdio meu e quando me despedi em 2017 informei a todos na empresa que era esse o meu objetivo e que queria sair para poder concretizá-lo. E assim foi, este ano, em 2019, abri o Catarina Branco Oriental Studio. 
Hoje em dia estou muito feliz por ter o meu próprio local onde posso não só ensinar e treinar, mas também fazer todo o “trabalho de escritório”, como responder a esta entrevista. Só sabe isto quem trabalha por conta própria, mas não é fácil criar hábitos de trabalho e ter disciplina quando trabalhamos na nossa casa, onde acordamos, deitamos, estamos com a família, etc. Ter um local só meu a que posso chamar “local de trabalho” para me poder focar e dedicar-me à minha arte, não tem preço.

8. Porque é que resolveste abrir o teu espaço na cidade de Setúbal? 
A vontade de ter um estúdio de dança é antiga, mas de o fazer em Setúbal surgiu apenas o ano passado. Até então, o meu objetivo era abri-lo em Lisboa. Queria abrir na capital do país, no nosso centro de atividade artística e cultural. Contudo, desde que me dedico a 100% à Dança (2017) verifiquei que seria mais fácil concretizá-lo e ser bem-sucedida em Setúbal por várias razões: 1. É uma cidade mais barata, onde a aquisição de um imóvel bem localizado é mais acessível para a carteira de um artista; 2. É uma cidade mais pequena com menos oferta de atividades, havendo mais espaço e mais necessidade para a minha arte; 3. É a cidade onde em 4 anos de ensino angariei mais alunas e, mais importante, onde angariei mais alunas dedicadas com vontade de aprender e seguir os estudos, permitindo que um curso completo com vários níveis; 4. É onde a Câmara Municipal me tem apoiado, dando-nos oportunidades a mim e às minhas alunas para apresentarmos o nosso trabalho e a nossa dança, permitindo uma maior divulgação das aulas, e consequentemente, uma mais fácil angariação de praticantes.
Acima de tudo, foi onde eu senti que tinha de ser (para quem acredita em ouvir a sua própria intuição e seguir o seu coração). Creio que será em Setúbal que conseguirei atingir os meus objetivos e também viver com mais tranquilidade junto da minha família e dos meus amigos, pois esta é a cidade em que nasci e vivi toda a minha vida.



9. Em que é que consistirá e quais serão os teus objectivos com o Catarina Branco Oriental Studio?
O primeiro grande objetivo do Catarina Branco Oriental Studio é atrair mais pessoas à prática da Dança Oriental e oferecer-lhes as condições necessárias à sua aprendizagem. Acredito que com um espaço especializado e dedicado à modalidade, seja mais fácil alcançar e conquistar mais praticantes. Quero, desta forma, divulgar e dignificar a arte da Dança Oriental, contribuindo, assim, para o conhecimento sobre esta arte, e a erradicação de preconceitos e de ignorância a seu respeito.
Outro grande objetivo do estúdio é também oferecer as condições necessárias a quem já pratica e que necessita de um local para treinar e evoluir, já que a cidade de Setúbal carece desde tipo de facilidades. Fico muito contente de poder possibilitar às minhas alunas um local de treino com espaço e espelhos para poderem trabalhar e evoluir.
O outro grande objetivo do estúdio, é a organização de formações para a comunidade de Dança Oriental, dentro e fora de Setúbal, e mesmo dentro e fora de Portugal, para quem procura aprender mais, evoluir e formar-se. Quero contribuir para a elevação da qualidade dos nossos profissionais de dança e, consequentemente, para a elevação da qualidade da Dança Oriental no nosso país. Quero possibilitar ferramentas que permitam a constante evolução dos nossos praticantes. 

10. Relata-nos um momento muito positivo da tua carreira.
Coleciono muitos momentos positivos e marcantes na minha carreira, principalmente no que respeita a viagens, prémios e formações.
Um dos mais marcantes foi a receção do Prémio Jovem Revelação 2016 na Categoria da Dança atribuído pela Câmara Municipal de Setúbal. Fiquei muito feliz de subir ao palco e receber essa homenagem da minha cidade. Senti que não foi só uma conquista minha, mas também da Dança Oriental, que se fez notar entre as outras. Até essa data tinha vencido muitos prémios em competições de Dança Oriental, mas estes foram conquistados por performances momentâneas; este foi conquistado pelo meu trabalho contínuo, por todos os prémios que já tinha vencido e todo o trabalho que tinha já desenvolvido. Subir ao palco para recebê-lo do Vereador da Juventude de Setúbal e falar para quem estava a assistir (e como é difícil para mim subir a um palco e falar), em frente à minha família, aos meus amigos e às minhas alunas (que eram poucas, ensinava apenas há um ano, mas muito especiais que me encheram de alegria e calor), foi um momento muito marcante para mim que penso que nunca irei esquecer.
Contudo, creio que nada vence o momento que estou a viver agora com a abertura do meu estúdio. Enquanto estamos envolvidos num projeto (eu desde fevereiro que procuro espaços) e não paramos de trabalhar nele, nem damos conta do que estamos a concretizar. Foi quando recebi as minhas alunas pela primeira vez e que dei as primeiras aulas no estúdio, que a felicidade começou a tomar conta de mim: “tenho um estúdio!”, como se ainda estivesse a acordar de um sonho. Foi principalmente depois das aulas terem terminado e das minhas alunas terem saído do estúdio que caí em mim. Estava eu a fechar as grades de segurança, a ligar o robot aspirador e a fechar as luzes do estúdio quando me apercebi “Este é o meu estúdio”. E pronto, ainda ando assim, meio nas nuvens, encantada com o meu estúdio e ansiosa para fazê-lo crescer e ver o que juntos conseguimos alcançar.

11. E um menos positivo?
Em todas as carreiras, por muita paixão que se tenha, há sempre “ups and downs”. Eu certamente tive muitos “downs”, acho que esse é até o meu combustível, são os “downs” que nos permitem ter “ups”: caímos e depois levantamo-nos e daí saímos mais sábios e mais fortes.
Em vez de relatar um momento, vou relatar uma época/uma etapa. Penso que foi, até agora a fase mais difícil e mais infeliz da minha carreira e vida: despedir-me e dedicar-me a 100% à dança (não estavam à espera desta). Nós somos seres emocionais e de rotinas, e quando há grandes mudanças na vida, às vezes vamos abaixo. 
Em 2017 estava a trabalhar numa empresa com cada vez mais responsabilidades (naturalmente) e ao mesmo tempo o trabalho na Dança crescia e a minha vontade e sentimento de que aquele era o meu caminho aumentava em igual tamanho. Mas não queria despedir-me sem ter poupado dinheiro antes para investir na dança, queria sair na “altura certa”, como nós tanto fazemos na nossa vida: esperamos pela “altura certa” e adiamos a nossa vida por isso (para casar, para arranjar casa, para ter um filho, para mudar de emprego, etc.). Mas a altura certa não pode ser agendada/planeada, não é no mês e ano “x”, é quando sentimentos que tem que ser, é quando queremos que seja. Eu fui ficando na empresa, aumentando a frustração de estar lá, a ficar estoirada sem férias, sem noites, sem fins-de-semana, porque estes eram todos dedicados à dança. Com pouco tempo para os amigos e para a família, o namorado já lá ia, com pouco tempo para mim, uma jovem de 25 anos… Mas para quê? 
Houve um dia que foi decisivo, quando recebi um “raspanete” do meu chefe que me disse que eu não estava a dar 100%, e não era uma questão de tempo, era uma questão de energia e de atitude. Pois, foi aí que eu percebi: não vai dar mais, eu estava triste por dentro, frustrada por não poder dedicar-me à minha paixão como queria, e nem estava a conseguir dar o que era preciso no trabalho. Enquanto ouvia o “raspanete” do meu chefe, só pensava: é agora, vou sair. Quando saí nesse dia de trabalho, telefonei à minha irmã (sempre comigo mesmo longe) a chorar. Como sempre, ajudou-me e apoiou-me.
Agora o passo seguinte, o mais difícil: contar aos meus pais. Eu digo-vos que nada foi mais difícil na minha vida que ter esta conversa. Dizer aos meus pais que fizeram e fazem tudo por mim, que investiram tudo o que puderam na minha formação, até um dos mestrados mais caros do país, pagaram viagens ao estrangeiro, cursos de línguas, tudo para me ajudar a alcançar os objetivos que tinha na área da gestão, para depois ouvirem: “vou seguir a dança”. Foram 3 horas de conversa e choro (meus, obviamente). Os meus pais, naturalmente, não concordaram, e senti que os desiludi ali, e ainda não senti pior sentimento que esse.
A etapa mais difícil e menos positiva da minha carreira e vida vem então a seguir a isto: com um sentimento de culpa, uma vontade de provar que conseguia e era a decisão certa, um desejo de orgulhar, e uma mudança radical nos meus horários – claramente não são ingredientes para um resultado positivo. Foi muito duro todo o meu primeiro ano de dedicação à dança: não temos um horário para estar no escritório, a nossa casa é o nosso local de trabalho, o trabalho e rendimentos que surgiam da dança ainda eram poucos, etc. Se antes não tinha tempo para mim porque andava sempre numa correria, passei a ter o tempo todo disponível em casa, sem correrias, sem prazos, sem timings, a única coisa que tinha eram duas a três aulas no final da tarde. Foi uma altura muito instável da minha vida, tanto a nível profissional como pessoal. Sou muito sincera: pensei mesmo que poderia ter errado e ter feito a decisão errada, que por muito que amasse a dança e ensinar, esse não era o caminho para mim para viver bem a nível emocional. 
Foi duro, mas está no passado. Com o tempo e com a ajuda de pessoas muito especiais para mim reergui-me, encontrei o meu equilíbrio nesta forma de viver diferente, e hoje estou bem e muito feliz com a decisão que tomei. Estou cheia de força e determinada a conquistar. Depois de um grande “down”, vem um grande “up”, e cá estou eu. 


12. Qual é a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
Mesmo não sendo a Dança mais famosa do momento, esta arte tem vindo a crescer e tem vindo a aumentar a qualidade tanto a nível de dança como de ensino. Creio que a razão que está por trás é a globalização. Graças à Internet e às redes sociais, atualmente temos mais facilmente conhecimento dos eventos e da dança que é praticada noutros países, servindo assim de inspiração a bailarinos e a organizadores de eventos em Portugal. Hoje em dia temos bailarinas que vencem prémios no estrangeiro e um festival de Dança Oriental com mais de 100 participantes nacionais e internacionais.
Quando a novela “O Clone” surgiu em Portugal, a Dança Oriental ganhou muita expressão e passou a ser muito requisitada tanto para eventos como também para ensino. E quando há procura, a oferta surge. Muitos profissionais surgiram nessa altura: começaram a ensinar e a atuar em eventos mesmo com pouca formação. Hoje em dia é bem diferente, pouco mercado existe, e quem decidiu ficar ou mesmo começar é porque ama a arte e quer formar-se e desenvolvê-la. Por isso, quem hoje em dia faz parte da comunidade são, na sua grande maioria, pessoas dedicadas e formadas. Penso que isso também contribui para que haja mais qualidade hoje em dia. 
Contudo, como referi na pergunta relativa aos desafios de um professor de Dança Oriental, penso que ainda há muito caminho a percorrer na Dança no nosso país: a nível de divulgação da arte e da expansão do público interessado nela (como praticante e como espectador), como também a nível formativo. 

13. O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Como tenho referido ao longo de toda a entrevista, penso que um dos pontos mais importantes a desenvolver em Portugal é a divulgação da nossa arte: mostrá-la a mais pessoas e esclarecer dúvidas que haja a seu respeito, angariar mais praticantes e mais interessados na arte. Uma maior e melhor divulgação da dança aumentará a comunidade, havendo mais conhecimento, respeito e valorização da arte, mais pessoas a ingressarem em aulas e cursos, a assistir a espetáculos, a contratar para animações, etc., que por sua vez aumentará o rendimento dos profissionais e a organização de espetáculos e formações.
Outro importante aspeto é desenvolver o profissionalismo no contacto com clientes, devemos apresentar-nos sempre de um modo profissional e apresentar propostas bem estruturadas, completas e eloquentes.
Por último, como também já referi, penso que temos muito a desenvolver a nível de formação. Falta em Portugal um ensino mais estruturado e completo, à luz de outros países.

14. Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Para quem está a surgir e a apaixonar-se por esta arte milenar, bem-vindas! O meu conselho é que estejam sempre em busca de novas aprendizagens e formações, e não apenas de Dança Oriental (esta é obrigatória que nunca parem de estudar e aprender), mas também de outras artes e de outras habilidades que possam ser importantes para a vossa carreira, como é o caso de conhecimentos de marketing, de línguas, de maquilhagem, de ensino, de psicologia, etc.
Deem o vosso melhor para divulgar e dignificar a arte da Dança Oriental e juntos aumentarmos a comunidade. Sejam também sempre excelentes profissionais no vosso trabalho, e não procurem ensinar e atuar em eventos se ainda não têm formação nem experiência suficientes para o fazer.
Acima de tudo, sejam exigentes, determinados e inteligentes, procurem o vosso caminho, a vossa arte, e a vossa missão. Com trabalho e empenho conseguirão tudo o que se propõem a fazer.

15. Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Filme: Vou aconselhar o primeiro filme que me veio à cabeça - o Pride and Prejudice (2005) - baseado no romance de Jane Austen. Eu sou uma verdadeira romântica e adoro filmes que me façam viajar no tempo. Pride and Prejudice, ou Orgulho e Preconceito em português, é um dos meus filmes preferidos e que não me canso de ver. Quem ainda não viu, aconselho vivamente a fazê-lo.
Música: Na música, vou escolher uma Oriental, porque na verdade é tudo o que oiço. Quando comecei a dançar, aprendi muito sobre música, sobre arte. Comecei a prestar mais atenção à riqueza das músicas, à sua estrutura e à sua mensagem. Os clássicos árabes são as músicas que mais me transportam para outro mundo e me fazem sentir. Gosto sempre de mostrar a riqueza e profundidade das músicas árabes a quem passa no meu caminho. Por isso, sugiro que oiçam as músicas de grandes cantores do médio oriente como é o caso de Um Kulthoum com a música “Enta Omri”. Penso que seja impossível ouvir esta música e não ser transportado para outro mundo.
Livro: Sou romântica, mas também adoro um bom mistério, por isso vou aconselhar um livro de uma das minhas autoras favoritas, As Dez Figuras Negras de Agatha Christie. Um pequeno, mas entusiasmante livro que enlouquece qualquer pessoa. Dez pessoas sozinhas numa ilha e cada dia uma delas é assassinada de acordo com o conto de crianças, até à décima e última pessoa.


16. O que é que ainda gostavas de alcançar na tua carreira?
Quem me conhece sabe que tenho sempre novas ideias e novos objetivos, mesmo que estes se alterem ou ganhem nova forma, eles existem sempre. Acredito que se tivermos visão e nos empenharmos, conseguimos concretizar os nossos sonhos, mas precisamos sempre de acreditar em nós e no nosso potencial. Por isso, a resposta a esta pergunta é: muita coisa. 
Com a abertura do Catarina Branco Oriental Studio foi realizado um sonho, mas o projeto ainda agora começou. Para além de querer angariar mais alunas, quero trazer profissionais nacionais e internacionais ao estúdio para dar formação, para palestras e convívios, desenvolvendo e dinamizando tanto o espaço como a prática da Dança Oriental. Quero também desenvolver formações ministradas por mim para vários tipos de públicos e de variados temas, como também ter outros profissionais de outras áreas a partilhar aqui o seu conhecimento. Em suma, quero tornar o estúdio num local de aprendizagem e de criação artística.
Outro grande objetivo futuro meu é organizar um festival de Dança Oriental aqui na cidade de Setúbal. Quero tirar partido de todo o conhecimento que adquiri em todos os festivais que visitei e vou visitar para criar um festival com os elementos que acredito serem os mais importantes para a evolução dos praticantes. Não faria sentido ser noutra cidade do que a minha onde tenho o meu estúdio e o apoio da Câmara Municipal. Quero também contribuir para a cidade que me apoia e que acredita em mim.
Ainda tenho mais objetivos e tenho a certeza que ao longo dos anos mais surgirão. Aos poucos vou revelando, estejam atentos.

Fantastic Entrevista - Catarina Branco
por Rita Pereira
Outubro de 2019

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