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Fantastic Entrevista - Vânia Cezário


Vânia Cezário é presidente da APDV - Associação Portuguesa de Dança do Ventre e uma das professoras mais reconhecidas do panorama nacional de Dança Oriental. Nesta entrevista, uma parceria com o instagram Dança Oriental Portugal, a bailarina falou-nos das razões que a levaram a vir para Portugal, da criação da APDV, do seu método de ensino, e da forma como a Dança Oriental é percepcionada pelo público e contratantes, entre outros temas.

Como surgiu a tua paixão pela Dança e em particular, pela Dança Oriental?
Desde pequena eu sempre gostei de dançar e entrei para uma academia de dança aos 9 anos, porém aos 20 tive uma lesão no joelho e fui impedida de dançar devido às dores. Foi muito triste ouvir do médico que eu deveria parar de dançar, fui embora a chorar e ao sentar numa paragem de autocarro tinha um jornal. Este tinha uma entrevista de uma bailarina da cidade onde eu morava a falar sobre dança do ventre e no final convidava todos para experimentar e fazer uma aula. Fui e amei porque saí da aula sem dor. Desde então, nunca mais saí da sala de aula.

Em 2004, saíste do Brasil para vir viver para Portugal. Quais foram as razões que te levaram a continuar a tua carreira cá? 
A primeira coisa foi o facto de que uma amiga que já cá morava dizer que aqui não quase não havia dança do ventre e que achava que era uma arte ainda pouco explorada e que ela via sucesso para mim, uma vez que já conhecia o meu trabalho. Motivada com isso, ou seja, em trabalhar noutro país e explorar essa situação, decidi que poderia arriscar, mas também fui impulsionada por razões financeiras.

Em 2007 criaste a APDV – Associação Portuguesa de Dança do Ventre. Podes falar-nos um pouco sobre as razões que te levaram a criar a APDV e a forma como funciona esta entidade?
Quando cá cheguei vi que a minha amiga tinha razão, no início eu criticava porque achava um absurdo uma menina dançar num bar com uma saia e um lenço de moedas, com um top de ginástica. Com o tempo vi que, principalmente, da zona centro para o Norte havia pouquíssima oferta ao nível da formação. Assim, as bailarinas que se apresentavam tinham muitas fragilidades técnicas, não sabiam adequar a sua postura ao ambiente de espetáculo, nem usar roupa adequada.
Percebi também que poderia contribuir com o meu conhecimento e experiência para o aperfeiçoamento das pessoas que já ensinavam no país, nomeadamente, ao nível da pedagogia, da didática. Percebi que a culpa não era das pessoas, mas da falta de oportunidades para crescer, aperfeiçoar. Então, depois desta análise, considerei que seria muito oportuno e pertinente criar algo que pudesse oferecer todas essas possibilidades e hoje a APDV é uma referência de criação e aperfeiçoamento de bailarinas e professoras. Objetivo cumprido.


És professora há vários anos e já formaste várias bailarinas portuguesas reconhecidas em território nacional e premiadas nacional e internacionalmente, como é o caso da Diana Costa, Joana Marques e Sara Salazar. Podes falar-nos um pouco sobre o teu método de ensino?
Ser professor exige muito e você acaba por deixar a “sua bailarina” de lado, é muito difícil dedicar-se a ser bailarina e professora, ou você é muito boa numa coisa ou na outra, nas duas é mais complicado. E eu optei por ser uma professora de excelência, amo o que faço e sei que nasci com o dom de ensinar. A minha formação é em Pedagogia e isso ajudou-me imenso a criar um método. Eu deixei de gostar do que eu fazia para fazer o que eu gostava. 
Não sei explicar, mas em sala de aula eu realizo-me, é uma paixão enorme e para cada movimento da dança eu tenho no mínimo 7 formas de explicar. Cada pessoa é muito diferente da outra e você precisa de observar muito bem e orientar da melhor maneira, não só ao nível da saúde (se ela tem uma lesão, um problema postural, etc.), mas acima de tudo como ela aprende, porque uns aprendem vendo, outros tocando, etc. Tenho expressões específicas para cada movimento que são divertidas e as alunas nunca mais esquecem e isso torna a dança divertida e muito mais fácil de aprender.

Como formadora com vários anos de experiência, que características achas que são indispensáveis num professor de Dança Oriental?
Em primeiro lugar, conhecimento de anatomia (sem você conhecer o corpo humano, acho impossível querer dar aula) e depois ter consciência corporal porque se você não conhece o seu corpo é difícil ensinar o outro a ter consciência. 
Ter domínio total da técnica e de todos os aspetos que a envolvem, pois são muitos os aspetos que devemos estudar. 
Focar-se em trabalhar numa boa metodologia e, claro, procurar constantemente o aperfeiçoamento porque a dança do ventre evolui/muda de acordo com o tempo, se você pára de estudar, você pára no tempo. Também é necessária muita paciência, com uma boa dose de psicologia e muito amor porque é uma “dança de egos” e não é fácil trabalhar com tanta mulher.

O que achas do ensino da Dança Oriental em termos nacionais e internacionais?
Tenho saudades da época de 2000 a 2010, uma fase em que quem dava aulas eram os grandes mestres (Mahmoud Reda, Youssef Sharif, Gamal Seif) e que nos traziam não só técnica, mas muito conhecimento de história e filosofia oriental. Hoje em dia, as alunas só querem saber do “modismo de bate cabelo”, “cambret”… Nos workshops internacionais ainda predomina o ensino de coreografias e sinto falta do real estudo da técnica, que infelizmente conseguimos contar pelos dedos os professores que ainda dão workshops assim.


Quais são as maiores dificuldades em ser professor de Dança Oriental em Portugal?

Não há dificuldades em ser professor. Se você for um professor preparado, tem sempre alunos. Agora não podemos ignorar que a dança do ventre é difícil e que nem todas as pessoas estão “preparadas” para ela porque é preciso mais do que um simples gostar. Iniciar na dança é fácil, mas manter é complicado. Afinal, ela não vai ficando mais fácil, só mais difícil (risos), mas por outro lado essa é a parte fascinante. Como as pessoas, hoje em dia, querem coisas para ontem, “dança fastfood”, é complicado gerir essa ansiedade. Toda a gente quer chegar na sala de aula e já sair a dançar num mês, portanto creio que para alguns professores seja difícil adaptar-se a essa situação.

Juntamente com a bailarina Di Cesário, foste coreógrafa na série de Verão da telenovela ‘Morangos com Açúcar’ em 2008. Podes falar-nos um pouco sobre esta experiência?
Foi muito interessante porque levar a nossa arte para a televisão é sempre uma grande responsabilidade, mas tivemos sorte com as atrizes para quem coreografámos porque tinham muito jeito para dançar. Porém, há coisas que não conseguimos controlar, por exemplo, por vezes coreografávamos uma música “fixe” e depois na edição colocavam a parte mais simples da coreografia e com uma música que nem tinha nada a ver. Então, nem sempre você tem o poder sobre o que vai para o ar. Devagar fomos aprendendo ao ver as imagens que eram escolhidas e vistas pelo público. De qualquer forma, foi muito gratificante e só temos a agradecer pela oportunidade que nos deram porque, enquanto coreógrafo, faz-nos ver a coreografia de um outro ângulo. Trabalhar para as câmaras é bem diferente de trabalhar para um público.

Para além de professora, nestes últimos 15 anos tens trabalhado como bailarina em diversos eventos por todo o país. Que tipo de clientes te contactam e em que tipo de eventos a Dança Oriental costuma marcar presença?
A APDV ao ficar conhecida pelo ensino de qualidade também acabou por ter muita credibilidade pela qualidade técnica das bailarinas. Conseguimos criar uma excelente equipa de atuação, hoje são mais de 20 bailarinas envolvidas em fazer espetáculos, onde todas sabem a mesma coreografia, possuem roupas adequadas para cada tipo de evento, e levam a arte de forma muito credível e, por isso somos procuradas pelo país inteiro para diversos eventos, desde feiras expositivas, convenções, casamentos, bares, festas temáticas, etc.



Quais são as principais diferenças que vês nos últimos 15 anos na forma como a Dança Oriental é vista pelos contratantes e pelo público?
Esse cenário não mudou muito, começámos há 15 anos e nós sempre vendemos bem, vai haver sempre quem adora ver uma bailarina e quem a ignora. 
De qualquer forma a dança do ventre ainda continua a ser vista como um excelente “entertainment”.

Criaste o estilo Modern Belly Dance. Podes falar-nos um pouco mais sobre este estilo e sobre as suas características?
Devido à minha formação clássica, jazz e outras danças, acabei por trazer um pouco desses movimentos para dança do ventre. Como sempre, tive o foco na dança em espetáculos de casamentos, restaurantes, etc.. Sinto que há uma necessidade de uma dança um pouco performática, se quisermos vender bem e o público aceitar melhor. Creio que resultou!

Como professora que leva as suas alunas a competições e com várias alunas premiadas em festivais nacionais e internacionais, qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
A minha experiência diz-me que as competições podem ter um papel importante no percurso das alunas e fomos pioneiras a fazê-lo. O objetivo é colocá-las no “campo de batalha” para que sintam o verdadeiro gosto de um palco grande, com público e acima de tudo que se desafiem a elas próprias. Na verdade, esse é o principal objetivo, ficar no pódio pode ser uma consequência do trabalho realizado e que pode ser “a cereja no topo do bolo”, mas nunca o mais importante. Contudo, o cenário das competições nem sempre é favorável se você não estiver preparado para ele, podemos  não concordar com o júri, pois por vezes eu vejo que determinados júris que são uma coisa enquanto bailarino(a) e depois julgam de uma forma pouco coerente, em relação ao que é e alguns feedbacks nem sempre são muito adequados. Mas isso faz parte da competição, temos de aprender com isso e adaptar-nos, mas na maior parte das vezes, eu concordo com as decisões. 
Para além disso, eu tento passar às minhas alunas que devemos entender o que é positivo para a construção “da bailarina de cada uma” e o resto não as deve definir, nem marcar demasiado o seu percurso.  


Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
Penso que a Dança Oriental em Portugal tem crescido de uma forma muito positiva, caminha a passos lentos, mas caminha e isso é que é importante. Hoje em dia tanto bailarinos e professores têm mais qualidade, dão a conhecer ao público esta arte e promovem a sua compreensão e apreciação por parte do público.

O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Acredito que se as alunas apostarem em procurar ensino de qualidade e os professores se interessarem no aperfeiçoamento contínuo e não pararem de estudar, será inevitável a dança continuar a desenvolver-se.

Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Tal como referi anteriormente, investir no conhecimento, nas aulas, entender como funciona o mercado e o que ele pede e precisa. Não podemos esquecer que a dança tem várias dimensões, uma coisa é o que aprendemos nas aulas e o que apresentamos num palco grande, depois outra pode ser o que o dono do bar e o público espera das bailarinas. Também o ensino da dança lhes deve mostrar todas essas vertentes diferentes para que não haja frustração no seu percurso e em relação às suas expetativas.

Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Um livro: “Serpent of Nile” – a bíblia das bailarinas.
Quanto à peça de dança, há uma parte de um espetáculo da Fifi Abdo, em que ela dança um solo de alaúde da música Lessa Faker e é muito emocionante ver o público todo a cantar e a essência da dança dela naquele momento, um momento de encher o coração! Mas o que eu mais indicaria seria ver uma das bailarinas da Era de Ouro dançar ao vivo, isso sim seria perfeito. Eu tive essa oportunidade, de ver um espetáculo da Fifi e perceber de perto o que realmente é a Dança oriental.
A música: “Enta Onri” da Oum Khaltoum (um hino para as bailarinas).

O que é que ainda gostavas de alcançar na tua carreira?
Bom , na verdade, posso não ter conseguido tudo o que é possível alcançar, mas alcancei tudo aquilo com que sonhei: sou uma boa bailarina, faço os meus espetáculos até hoje (privilégio para poucos bailarinos, uma vez que a idade é sempre um fator importante), dou as minhas aulas, as minhas formações, tenho, inclusive, o curso “online” para chegar a mais pessoas e por isso penso que, a nível profissional, já alcancei tudo. Agora o que mais quero é continuar a viajar porque isso é uma das coisas que me falta, conhecer o Líbano que é uma paixão e o Egito.

Fantastic Entrevista Vânia Cezário
por Rita Pereira 
Julho de 2019

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