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COMING UP | Solum


Na era dos Reallity Shows, é hora de revisitarmos um clássico. Várias pessoas, uma ilha deserta e a missão de sobreviver. É esta a abordagem de Solum, um thriller cheio de segredos que explora até onde estamos dispostos a ir para nos salvar. Vale a pena os riscos?

Como num verdadeiro programa de televisão, quem assiste à longa-metragem é convidado a escolher o seu concorrente favorito. Um a um, todos são introduzidos explicando quais os seus objetivos e ambições dentro do jogo. Passeamos pelas paisagens dos Açores, para darmos início à aventura, enquanto os competidores vão gravando pequenos vídeos sobre as primeiras horas de forma a satisfazem as curiosidades dos fãs. A inspiração em Surviver e outros formatos do mesmo género torna tudo muito mais realista, com direito a verdadeiras recriações da “vida na floresta”.

O grupo depressa começa a perder elementos. Sarah é a primeira baixa. Ela é a mulher que mais se aproxima à figura-tipo que encontramos em experiências sociais, parece estar preparada para tudo e garante que vai conseguir ganhar, mas acaba por partir uma perna logo no segundo dia. Para evitar danos maiores, ela tenta desistir, mas sem sucesso. Ao carregar no instrumento que a deveria trazer de volta para casa acaba por morrer. E é aqui que a narrativa mergulha de vez no seu lado sci-fi para criar um nó gigante na cabeça do espectador.

Rapidamente percebemos que nem tudo é assim tão linear, e que o plot esconde alguns segredos quando uma das plantas da ilha em que os protagonistas se encontram muda de cor. Inicialmente é fácil imaginarmos que estamos a assistir a um episódio já editado do reallity show. Mas não. As movimentações de alguns personagens denunciam que o mistério está mesmo a acontecer in loco.


A ameaça vai saltando de personagem em personagem deixando um mistério bem conseguido, sobretudo pelas aparições de Diogo Morgado na pele de Sam. Um homem que mesmo não estando na ilha que dá título ao enredo, parece ter uma forte influência na história, além de um aspeto fora do vulgar.

Na segunda metade, todos os elementos que sobram acabam por cruzar-se fugindo de Liam, que com o seu arco e flecha põe em risco a sobrevivência dos colegas. As relações acabam por se estreitar. Já todos entenderam que não é simplesmente um projeto de TV e que o perigo existe, ao estilo do que acontece na franquia de The Hunger Games.

Na verdade, a chave para todo o mistério é Carol. No meio de vários sonhos desconexos e com a ajuda de Paul, que se manteve acordado durante todo aquele tempo, acabam por descobrir que estão numa espécie de Matrix e que todo aquele cenário é apenas uma projeção. Os oito foram selecionados para participarem de um processo de escolha que levaria um deles para o espaço. Fora daquela vista, o mundo como o conhecemos está destruído pela falta de cuidado dos humanos, e apenas seres exteriores ao nosso planeta, como Sam, podem salvar parte da humanidade.


O elenco é um dos pontos fundamentais para garantir uma boa experiência ao público. A opção por figuras menos mediáticas ajuda a que no ponto inicial da trama, o espetador consiga uma envolvência maior com a premissa. Todo o filme é falado em inglês, e a escolha faz sentido não só do seu ponto de vista comercial, como numa perspetiva futura. Apesar de todos os arcos se terem encerrado, o final deixa espaço para uma possível sequência, e isso poderá ser assegurado com uma conquista de apoios de públicos que habitualmente não consomem cinema nacional.

Há espaço para mais em Solum. No epilogo entendemos que assistimos apenas a um dos vários testes de seleção. Como foram os outros? Em culturas tão diferentes da nossa, decerto que o método não foi igual. Além disso há abertura para acompanharmos Carol na sua jornada fora da Terra. O próprio “vilão” tem uma motivação bem mais profunda que poderá ganhar outro tipo de espaço numa saga alargada deste universo. São pormenores que podem não ter sido colocados por acaso e que parecem coincidir com os produtos recentes da Netflix e de outros serviços de streaming dentro do género sci-fi. Será que pode nascer aqui uma franquia de ficção cientifica com o cunho do nosso país?

O ponto menos favorável da película poderia estar nos efeitos especiais. Contudo, o texto justifica as escolhas. Aplica-se licença poética. Tudo o que acontece na ilha é fruto de um delírio coletivo. A juntar a isso, é Sam quem controla aquela realidade, o homem que na verdade é uma criação informática. Daí que quando algo desaparece dentro da competição, os efeitos a que assistimos são dados a serem digitalmente eliminados daquela cenografia.

Ousado, este é um projeto atípico do que estamos habituados a encontrar na primeira linha do cinema português. É o risco de Diogo Morgado, que assegura na sua checklist mais um género depois da comédia de Malapata. Conseguindo um longa coeso mas que pode arriscar outros vôos, com alusões interessantes a vários títulos da cultura Pop.

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