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Segunda Opinião | Sara


Uma atriz de 42 anos começa a questionar as suas escolhas profissionais. Habituada a interpretar personagens trágicas, Sara decide mudar o rumo da sua carreira. Trocar a profundidade trágica do cinema, pela leveza das telenovelas, das redes sociais e das sessões fotogáficas torna-se um objetivo. É este o ponto de partida da nova série de ficção da RTP2, uma sátia ao meio audiovisual português, em especial, ao mundo da televisão.

A série nasce de uma ideia original de Bruno Nogueira e é realizada por Marco Martins, responsável pelo premiado filme São Jorge. Na sua estreia em televisão, o realizador traz-nos produção de oito episódios, que acompanha a tentativa de adaptação de Sara a um estilo de vida de fama rápida e de promiscuidade, onde as frustrações, dúvidas e o drama de uma atriz de cinema cansada de pensar demais são uma constante.

O elenco encabeçado pela protagonista, Beatriz Batarda, conta ainda com grandes nomes como Nuno Lopes, Albano Jerónimo, José Raposo, Miguel Guilherme, Rita Blanco ou Bruno Nogueira, entre tantos outros. Os atores dão vida a uma história que nos traz, de forma desconcertante e, por vezes, sórdida, a realidade do mundo audiovisual. Mas Saraé mais do que isso. Sara é sobre a vida tal como ela é. E não é apenas uma série de humor negro, pelo contrário. A produção parte desta premissa cómica, para nos fazer reflectir de uma forma bastante mais dramática e impactante tudo aquilo a que assistimos.

É o caso de Henrique, interpretado por António Durães, um escritor cuja vida estagnou desde que perdeu a mulher num acidente. O pai de Sara dedica-se agora a escrever aquela que é a sua última obra, sobre a morte e a velhice, tendo deixado de falar desde então. Os textos que se ouvem ao longo da série, que marcam a escrita desta personagem, são retirados do romance “a máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe.

Rita Blanco é Júlia, a melhor amiga de Sara e, possivelmente, a única.  É lésbica, foi colega de Sara no conservatório mas desistiu da sua carreira e trabalha num lar de idosos. Ivo (Tonan Quito) é um cantautor amador incapaz de afinar a cantar. É vizinho e amante de Sara, que, por pena ou por compaixão, mantém com Ivo uma relação pouco apaixonada, marcada por breves encontros em casa dele.

Albano Jerónimo é o agente alucinado, Inês Aires Pereira a apresentadora de televisão que quer ser atriz, Bruno Nogueira dá vida ao terapeuta orientalista e Nuno Lopes é o irritante ator de novela João Nunes. Todas estas personagens fazem com que a vida de Sara oscile entre a tragédia e a comédia e o tom da série acompanha este percurso, aos quais se juntam outras personagens hilariantes.

A ideia e a concretização de Sara são geniais. A série é, possivelmente, das melhores produções portuguesas que já passaram em televisão. Prova disso é o episódio duplo de estreia, que já tinha sido exibido em maio no Indie Lisboa, em duas sessões esgotadas. Sara é feita para televisão, mas aproxima-se muito da linguagem cinematográfica. E este meta-tema, que se transpõe da história da série para a própria produção da mesma, acaba por ser um dos pontos mais importantes.

A série começou por ser encomendada para ser exibida na RTP1 – e foi assim que foi concebida pela equipa de guionistas, composta por Bruno Nogueira, Marco Martins e Ricardo Adolfo. Mas Sara acabou por ser aposta da RTP2, pela sua “aparente falta de apelo comercial" – pelo menos é esta a justificação que a estação pública apresenta. Mas afinal, em que é que consiste este “apelo comercial”? Porque é que esta série não tem lugar na grelha do primeiro canal? 

Ninguém esperaria que Sara fosse exibida às 21h, num qualquer dia de semana, mas pelo menos poderia ter honras de horário nobre – a faixa das 22h ou das 23h seriam uma opção. Afinal, já tivemos no ar tantas produções onde esse “apelo comercial” não foi motivo para as retirar do ar – basta olharmos para formatos como Odisseia, País Irmão ou Os Boys, tudo séries que foram exibidas no principal horário da RTP1. 

Não é desprimor para ninguém que Sara seja exibida na RTP2 – aqui consegue um horário verdadeiramente nobre, as 22h de domingo. Mas, como já seria de esperar, a visibilidade da série no segundo canal será sempre muito menor. Basta olhar para os números da estreia, em que Sara conseguiu cerca de 40 mil espectadores e 0.9% de share. Quanto conseguiria a produção na RTP1, se fosse exibida no mesmo horário? Seria um sucesso? Não. Mas chegaria, facilmente, a três ou quatro vezes mais espectadores.

Sara continuará a ser exibida na RTP2 ao longo das próximas seis semanas. Espera-se que venha a ter outras possibilidades de visionamento – um lançamento em DVD parece ser quase obrigatório. Até lá, poderás ainda acompanhar a série semanalmente na RTP Play, embora os episódios fiquem disponíveis apenas alguns dias. Depois disso, esperamos que Sara não caia no esquecimento e que possa perdurar na memória dos espectadores como uma das apostas televisivas mais irreverentes deste início de século.

Segunda Opinião - 131ª Edição 
Uma rubrica em parceria com o
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