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"Vai Ficar Tudo Bem!". Mário Coelho é o autor da websérie produzida em tempos de pandemia




Estreou durante a quarentena e já está disponível na íntegra no Youtube. Vai Ficar Tudo Bem é uma série de 8 episódios, criada por Mário Coelho, que se assume como "uma sátira sobre um jovem ator que decide fazer uma espécie de reality show dos seus dias passados em quarentena". O Fantastic esteve à conversa com o jovem ator sobre este e outros projetos.

Vai Ficar Tudo Bem, começa quando Mário decide montar câmaras na sua casa e iniciar um relato dos seus dias passados em quarentena, junto de Pedro e Filipe, dois irmãos com quem partilha casa. "O que Pedro e Filipe não estavam à espera é que tudo se tornasse motivo de ser captado e filmado, passando a existência das câmaras a desempenhar um papel extremamente presente nas suas vidas", explica Mário Coelho. 

Fazer arte em tempos de pandemia

Produzida sem nenhum apoio financeiro, a série conta com o próprio criador no elenco, ao qual se juntam Filipe Baptista, Mariana Guarda e Pedro Baptista. "A ideia surgiu mais ou menos há dois anos, quando senti a vontade em criar uma série que falasse de uma atriz num período de crise da sua carreira e da sua busca desesperada pela fama que tanto ambicionava. Seria uma espécie de sátira, que surgiu enquanto pensava e criava o espetáculo FUCK ME GENTLY!", conta-nos o encenador e ator.

"Em plena quarentena, dei por mim a voltar a esta ideia mas inserida no contexto em que vivíamos: de que forma poderia esta atriz exibir e dar a mostrar o seu trabalho, se o mundo todo parasse e ficasse fechado em casa?", revelou. "Tudo isto levou-me a repensar este projeto e a alterar o género da figura principal, acrescentando ainda outras três pessoas com os quais partilhava mais ou menos convivência quotidiana", acrescenta Mário Coelho. 

Se inicialmente o formato seria algo "mais ácido e negro", Vai Ficar Tudo Bem acabou por assumir outra linguagem e aproximou-se de séries e sitcoms que o realizador assistiu nos últimos anos e que o levaram a "ter estudado e pensado nas fórmulas tantas vezes utilizadas nas mesmas".

Depois destes 8 episódios, a expansão do universo da série poderá acontecer, uma vez que existe a vontade de apostar numa segunda temporada. "No entanto, procuramos ter a possibilidade de reunir outro tipo de condições e esperamos que possamos chegar a mais e mais pessoas com essa continuação. É um forte desejo, mas ainda não sei se será possível porque acredito que precisamos de outro tipo de estrutura para potenciar e valorizar o nosso trabalho", adianta ainda.

A regressar, uma das opções passaria por "dar mais desenvolvimento a algumas das figuras que foram participando em alguns episódios, assim como ao Filipe, ao Pedro e à Mariana", uma vez que, para o realizador, "esta primeira temporada encerrou aquilo que pretendia desenvolver nesta primeira parte".


Streaming, uma nova forma de ver séries

Vai Ficar Tudo Bem foi produzido e exibido como uma websérie, com transmissão em exclusivo para o online. Uma prática cada vez mais recorrente em Portugal, muito "por força das circunstâncias e não só", confessa Mário. "Temos de encontrar formatos e maneiras de desenvolver o nosso trabalho, e chegar a diferentes públicos. E isso tem o seu lado maravilhoso - a forma como hoje em dia com tão pouco se consegue fazer algo - mas também não poderá ser a regra", explica.

A desvalorização da arte, nos últimos tempos, é também uma questão que preocupa o jovem artista. "O trabalho de um artista tem de ser recompensado e visto como qualquer outro trabalho. Assim, embora esta websérie tenha surgido sem qualquer tipo de apoio ou entidade a produzir, não poderá ser a regra e a única forma de o trabalho de artistas ser visto e produzido. Temos de mudar muito o pensamento, e gritar cada vez mais alto na velha espera de sermos ouvidos", acredita Mário.

O autor de Vai Ficar Tudo Bem acredita que a aposta em formatos diferentes deveria passar a ser mais regular, uma vez que um dos problemas tem a ver com a falta de diversidade dos mesmos. "Ainda temos muitos formatos que bebem de modelos tradicionais, mais perto das telenovelas, ou de modelos americanos, mas sem a devida adaptação e (re)contextualização", considera, embora assuma também que tem sido feito "um grande caminho de progresso", mesmo que o nosso "nível de produção de conteúdos ainda seja muito pouco".
 
No grande ecrã, Mário considera que existem bons exemplos de trabalhos bem concretizados. "O nosso cinema é absolutamente maravilhoso, por exemplo, e temos autores do melhor, e que noutras circunstâncias mereceriam outro respeito e admiração", explica. 

Já na produção de conteúdos online, o ator dá o exemplo do coletivo Comicalate, considerando o mesmo uma "referência, no que toca a conteúdos digitais", uma vez que "têm mostrado que, com tão pouco, ainda é possível desbravar novas linguagens e novos caminhos que, de forma mais ou menos eficaz, se revelam sempre frescos e cheios de vida".


Dos palcos para o pequeno ecrã

Habituado a trabalhar nos palcos do teatro, esta série é a primeira experiência de Mário Coelho enquanto realizador de um formato do género. "As diferenças são muitas e senti-as essencialmente na montagem da mesma". Habituado a "trabalhar o estender da temporalidade das coisas e o excesso de informações atiradas para o espectador" durante os espetáculos, Mário teve agora a necessidade de se focar num terreno mais narrativo-cêntrico, "como se cada episódio tivesse a necessidade de contar com uma premissa que tivesse um início e algo perto de uma resolução no final do mesmo".

A duração de cada episódio foi também outra das questões com as quais se deparou. "Eu gosto de projectos longos - talvez derivados desse excesso e desse lado quase barroco que revejo nas minhas criações - mas aqui queria mesmo trabalhar com a necessidade de cumprir uma duração por episódio entre 25 a 30 minutos; algo rápido, coeso e direto", relata-nos o criador da série.

"Sinto que o meu universo criativo foi-se encontrado com as premissas da série de episódio para episódio. Foi consciente a decisão de ter começado a mesma com uma natureza mais próxima de tantos outros vídeos e tutoriais de Youtube e aos poucos ir caminhando mais para um estudo de personagem e adensando quais os caminhos para onde o Mário (personagem da série) iria caminhando na sua busca pela fama e reconhecimento", continua.
Nos próximos tempos, Mário Coelho irá voltar aos palcos, com dois espetáculos, um deles inédito. "Se tudo correr bem, este ano iremos repor o espectáculo FUCK ME GENTLY! e irei estrear uma nova criação, de nome Lisbon Sisters, em 2021. Tenho ainda a sequela do I'M SO EXCITED!, I'M STILL EXCITED! que acabou cancelada este ano, e espero conseguir apresentar em breve, visto que já se encontrava a 2/3 de processo", explicou o encenador ao Fantastic.

Embora o seu trabalho esteja "essencialmente centrado no teatro", Mário Coelho deverá também estrear-se no cinema e realizar a sua primeira longa-metragem em 2021, um remake do filme de terror Carnival Of Souls. "Vamos a ver, vamos a ver. Ideias há muitas, mas as condições não podem ser precárias", conclui Mário Coelho.

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