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Entrevista DOP - Paula Dahab

Foto: Teresa Balino

Paula Dahab é uma das bailarinas, coreógrafas e professoras nacionais mais queridas pela comunidade de Dança Oriental nacional. Na segunda edição desta iniciativa entre Fantastic - Mais do que Televisão e o projecto Dança Oriental Portugal, falou connosco sobre o seu percurso, desafios ao longo dos seus vários anos de carreira, método de ensino, participação na telenovela Valor da Vida (TVI), objectivos profissionais, entre outros temas.

Quando começou a tua paixão pela Dança, e em particular, pela Dança Oriental?
A minha paixão pela dança vem desde dos meus 6 anos quando decidi pedir à  minha mãe um tutu para dançar. Não me deu o tutu mas inscreveu-me nas aulas de Ballet e eu amei. Lembro-me do quanto a minha professora amava o que fazia, talvez por transmitir tão bem esse sentimento, eu nunca queria sair da sala de aula: queria sempre mais! Um dia no fim da aula ela mostrou o que era sapateado, eu adorei claro! Ela explicou o que fazer para aprender a sapatear , até hoje eu recordo “calcanhar, ponta ,pé “  e pediu que fosse treinar no caminho até casa , ( uma maneira bem discreta de eu sair mais rápido da sala de aula) e lá ia eu a pé de mão dada com a minha mãe, a parar umas 50 vezes para dizer e fazer com os pés “calcanhar, ponta, pé”. Sempre fui muito persistente, obrigada à minha mãe pela paciência.
A Dança Oriental veio através da minha paixão pelo Egipto. Em criança adorava ver os documentários sobre a história do país, fascinava -me imenso as pirâmides, os templos, as múmias… Muitas amigas da escola pediam aos pais de prenda ir a Disney, eu pedia para ir ao Egipto ver as pirâmides.  Em 2003 realizei um dos meus sonhos, e parti em rumo ao Cairo. Inscrevi-me no festival de dança “Ahlan Wa Sahlan" tinha apenas cinco ou seis meses de dança, pensava eu que já dançava alguma coisa - só que não - e ainda bem pois foi uma semana muito intensa. Absorvi o máximo de informação, essência e energia que me foi possível e posso dizer que essa viagem mudou a minha vida. Regressei a Portugal com a certeza que nunca mais ia largar a Dança Oriental. Em 2005 voltei ao Cairo e pode parecer impossível mas vim ainda mais apaixonada pela arte da dança e pelo Egipto. 

Em árabe, ‘Dahab’ significa ‘Ouro’. Porque é que escolheste este nome como apelido artístico?
Apesar de gostar imenso do nome não fui eu que escolhi, foi a minha primeira colega de dança, chama-se Dina. Conheci a Dina nas aulas do Mohamed Elmasseri, no Atheneu em Lisboa, com quem partilhei os meus primeiros momentos dançantes. Um dia a Dina ligou-me e disse: “Paulinha vamos ter o nosso primeiro trabalho na dança", euforia total ao telemóvel. E a Dina acrescenta “A única chatice é que o senhor pediu o nosso nome artístico e nós não temos”. Ficamos algumas horas ao telemóvel, a ver os sites que tinham nomes árabes para bailarinas e a Dina é que descobriu o nome Dahab e disse-me que seria o nome certo para mim. Em primeiro lugar porque gosto muito de dourado, segundo porque falava muitos vezes do meu fascínio pelo o Egipto, e Dahab é uma pequena cidade perto de Sharm Al Sheik, e além do dourado estar sempre presente no meu gosto de bijutarias e roupa de dança, na altura tinha o cabelo louro/dourado. A experiência que tivemos juntas foi tão boa, que nunca mudei o nome, sinto que me pertence, tal e qual como o meu verdadeiro apelido que é Alegre.

Já actuaste em vários espaços e contextos (bares, eventos privados, espectáculos) ao longo destes anos de dança. Podes contar-nos também uma peripécia que te tenha acontecido ao longo destes anos enquanto bailarina?  
Tive várias, a última foi no festival East Fest em Lisboa. Estava eu em palco a contar a minha história através da minha dança com bastão, quando de repente o bastão voa para o lado direito e para trás de mim não sei como o nosso cérebro é fabuloso, em poucos segundos pensei super rápido “oh não e agora? E agora apanhas o bastão e terminas a tua luta de arma na mão!”. Cada pessoa interpreta à sua maneira, mas espero que tenham percebido que ao mesmo tempo passei uma subtil mensagem de nunca desistir, nunca nos rendermos e seguirmos sempre em frente com o nosso objectivo.
Uma peripécia fisicamente dolorosa foi num bar, assim que entro para dançar, senti algo a espetar no pé, a música tinha 5 minutos e 34 segundos e foram os mais longos da minha vida!  Após terminar, chego ao camarim e vejo um vidro em forma de quadrado espetado no pé, foi preciso alguma pressão para o vidro sair.
Outra peripécia que me faz rir cada vez que me lembro foi com o meu grupo as Bahirah. Estávamos as 3 nos camarins e estava quase a chegar a nossa vez, como íamos dançar de candelabro, assim que o grupo anterior a nós fosse para palco nós Bahirah iríamos acender os candelabros. O camarim não tinha muito espaço, por isso não podíamos estar com os candelabros acesos muito tempo antes da nossa actuação, só que a musica do grupo anterior falhou e começamos a ouvir a nossa música, e as velas ainda não estavam todas acesas… fomos tão rápidas a acender os candelabros e a correr para a passagem pequena e estreita que dava acesso ao palco, que as 3 não conseguimos passar, só se ouvia os candelabros a bater uns nos outros! Posso dizer que já andei a cabeçada de candelabro mas chegamos a tempo de fazer a nossa performance e correu tudo bem.


Ensinas Dança Oriental na Escola Dançatttitude (Lisboa) e no Estúdio Dahab. Podes falar-nos um pouco sobre o teu método de ensino? 
Tenho alunas com objetivos muito diferentes umas das outras, por isso vou adaptando consoante a turma. Por exemplo, uma aluna quer imenso dançar para fazer espectáculos e outra quer dançar apenas para ela fugindo sempre de espectáculos, tenho a aluna que quer treinar para concurso, e uma aluna já sénior que só quer ter um momentos de diversão… a estratégia para facilitar o ensino e aprendizagem têm uma abordagem diferente de aluna para aluna. Acho muito importante o autoestudo, como não dou muitas aulas teóricas e são todas as alunas são adultas, tento passar todas as ferramentas necessárias  para promover o autoestudo de cada aluna. A nossa dança oriental tem uma história muito rica, estudo teórico não faltará nunca. As minhas aulas são bem mais práticas e activas.

Tens uma presença activa na comunidade de Dança Oriental e uma carreira longa como bailarina, professora e coreógrafa. Quais têm sido os teus maiores desafios como profissional ao longo destes anos e como os tens superado?
Vou começar a explicar como supero todos os desafios da vida, com muito amor e sempre a acreditar que tudo vai dar certo, tudo depende da determinação e dos objectivos que traço. Tenho uma forte motivação, quero ensinar a minha filha que temos direito de seguir os nossos sonhos, não importa quantas vezes caímos, mas sim quantas vezes nos levantamos para seguir em frente, nunca desistir daquilo que acreditamos e que nos faz feliz. O maior desafio é conseguir viver da arte. Eu sou uma sortuda em ter um marido que me apoia especialmente desde que fui mãe, e que não é da mesma área, pois todos sabemos como era complicado a cultura em Portugal já antes do Covid-19 e como está agora! O maior desafio começa agora para mim e para todos os que vivem da arte.

Apesar de a tua base ser o Raqs Sharqi, nos últimos anos tens-te dedicado à criação na área das Fusões. Podes falar-nos um pouco sobre as razões desta mudança?
Sim, claro que posso! É muito simples, eu amo música e precisava de me sentir mais livre. O que quero dizer é que quando danço uma musica árabe eu tenho que respeitar o estilo ,não posso e não quero num ritmo de Saidi, estar a fazer um movimento que corresponde ao estilo de dança Khaligee, eu tenho que respeitar toda a história e cultura, então resolvi manter a minha base, mas usar outro estilo musical onde me sinto livre de usar os movimentos que quero sem me preocupar com as “regras” que me sinto obrigada a seguir. A dança é livre mas estamos a representar outra cultura, temos que ter isso em atenção. 



As composições coreográficas que tens desenvolvido ultimamente são conceptuais e envolvem muitas vezes vários acessórios. Podes falar-nos um pouco sobre o teu processo criativo?
Depende. Tenho dias em que basta ouvir uma música que me transporta para um lugar ou que me faz sentir determinado sentimento, ou que apenas ativa certas memórias e desenvolvo a ideia para coreografia. Normalmente não uso coreografia a solo, improviso dentro do que visionei na música que escolhi, só para grupo é que uso coreografia. Tenho dias em que escolho o tema e qual a mensagem que quero passar ao público através da dança, como foi a ultima coreografia das Bahirah, tema era sobre Akai Ito, as ligações que temos uns com os outros. Todas as mensagens ou histórias que quero partilhar através da dança são inspiradas nas minhas vivências e experiências ao logo da minha vida. Considero a minha dança muito sincera.



Tens um grupo em que colocas esta criatividade em prática: as Bahirah, com as tuas alunas Kaddi Dores e Célia Farash. Podes falar-nos um pouco mais sobre este grupo?
Estou muito grata às Bahira, a todas elas! As que ainda estão comigo e mesmo as que não estão presentes. Sempre aceitaram em sair da zona de conforto, mesmo quando achavam estranha a ideia, sempre se atiraram de cabeça para o desconhecido, foi uma aprendizagem e desafios constantes, agradeço a todas que se cruzaram no meu caminho e acreditaram em mim.
O grupo foi fundado em 2011 com as alunas mais antigas, o objetivo do grupo era dinamizar e dignificar a Dança Oriental em Portugal com a participação em vários eventos. Apesar de agora estarmos num momento de pausa, o objectivo mantém-se, acrescentando umas ideias fora da caixa, que faça o público ter outra perspetiva da Dança Oriental.


Em 2018, ensinaste Dança Oriental às actrizes Isabela Valadeiro, Laura Dutra e Dina Félix da Costa para a telenovela da TVI ‘Valor da Vida’. Como surgiu este convite e como foi esta experiência?
Conheci o Cifrão através da minha colega e amiga Zélia Pereira, mãe da pequena grande bailarina Aline. Trabalhei com ele e com a Noua para a TVI, gostei imenso, todas as pessoas que conheci foram top comigo. As actrizes foram dedicadas e curiosas, sempre com várias perguntas sobre a dança e a história. É sempre bom estar com pessoas interessadas em querer saber mais.


Ficaste satisfeita com a forma como a Dança Oriental foi divulgada nesta telenovela?
Na altura da novela muitas pessoas da comunidade da Dança Oriental falaram que mais uma vez a Dança Oriental estava com má conotação e que nada disto era bom para as bailarinas. O foco da novela não era a cultura árabe, nem as bailarinas. A Isabela Valadeiro interpretava o papel de uma personagem luso-libanesa que perdeu o pai e veio para Portugal para tentar reconstruir a vida, abriu um restaurante e dançava, porque amava dançar e para tentar sustentar a família. Foi raptada por um príncipe árabe e foi obrigada a dançar para ele. Não consigo perceber onde está o problema disto, não houve momento algum depreciativo da dança, aliás até houve uma cena da novela em que apesar de ser ficção, está bem perto da realidade! Foi uma cena de quando as actrizes chegaram do Líbano e foram viver para uma aldeia a norte de Portugal, as vizinhas quererem expulsá-las de lá chamando-as de prostitutas, eu já fui algumas vezes comparada a prostituta por estar a dançar desnuda num bar… É a mentalidade que ainda existe cá em Portugal .
Cada pessoa tem o seu tempo de aprendizagem, a Dança Oriental não se aprende em meia dúzia de aulas com uma ou duas coreografias, tal e qual como bailarinas não aprendem em meia dúzia de aulas a serem actrizes. Há umas com mais talento que outras como em todas as áreas.
Sei que passei o melhor que consegui e ela fez o melhor que conseguiu, isso deixa-me bastante satisfeita. E nunca olhei para a novela como algo representativo da Dança Oriental, a não ser que tivesse a dançar alguém profissional e que o foco da história da novela fosse a dança ou cultura árabe. Cabe a nós profissionais de dança oriental representar o melhor que podemos a nossa dança; não podemos esperar que isso aconteça através de um programa de entretenimento ou de uma actriz da novela que nunca dançou.

Como formadora com vários anos de experiência, que características achas indispensáveis num professor de Dança Oriental?
Existem varias características que vamos desenvolvendo ao longo do tempo e com a experiência. Um professor possui uma função fundamental no ambiente de ensino como na sociedade, para mim o professor de dança forma bailarinas e melhores seres humanos. A dança está ligada à alma, ao coração. Um bom professor tem de estar sempre a atualizar a sua formação; tem que ser paciente,  generoso, flexível, saber trabalhar em equipa, tem de ser criativo e arranjar estratégias para manter os alunos focados e interessados, empatia... Posso nomear uma data de características: ser uma inspiração para os alunos, e das mais importantes é amar o que faz. Se realmente amar ensinar e ver os alunos evoluir facilmente, terá todas as características acima.

Qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
Sobre os concursos não tenho muita coisa a dizer como não participo, não é algo que faça parte dos meus objectivos. Já concorri e não gostei da experiência, mas são óptimos para quem quer ganhar visibilidade, acho que a maior vantagem num concurso é essa. Pela experiência de backstage de concursos o que vejo é  que todas as concorrentes falam de objectivos diferentes, mas para mim tudo se resume a ganhar um prémio e a ter mais visibilidade, e não vejo mal nenhum nisso, acho que tudo depende de qual é o objectivo que cada concorrente tem na sua dança.


Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
A Dança Oriental evoluiu muito, temos muitos bailarinos de qualidade, mesmo os eventos em Portugal cresceram imenso - existem muito mais agora do que quando eu iniciei, aproveitem bem o que temos, é de louvar a informação que têm acesso, aproveitem mesmo. Continuo a achar é que a Dança Oriental ainda não está no mesmo patamar que as outras danças, como o Ballet ou Contemporâneo, isso continua a ser muito desafiante. Desde do primeiro dia que comecei a dar aulas até hoje que modificou um pouco, acredito que o caminho é longo mas passinho a passinho chegamos lá.

Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Quero dizer para dedicarem o máximo de tempo possível à formação. Estudem muito, treinem muito e repete estuda muito treina muito (e não só Dança Oriental). Sejam humildes, acreditem sempre em vocês e espalhem amor e respeito que tudo vai dar certo.

O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Neste momento parece que estamos em stand by. Poderia responder com mais eventos, festivais, para todos seria mais oportunidades de aprender de partilhar e dançar. Apesar desta pandemia penso que veio trazer mais união entre as bailarinas, e penso que muitas de nós estamos numa fase de recriar, de reinventar e acho que irá será uma mais valia para todas.

Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Eu não vivo sem música, são tantas como favoritas, mas continua a haver uma música expressiva que me toca o coração sempre do mesmo jeito desde da primeira vez que ouvi é  a “Enta Omri” de Oum  Kolthoum, o filme é “Os Especiais “ filme francês de Olivier Nakache e Eric Toledano um filme de causas sociais, sobre crianças e adolescentes autistas é muito lindo. Além do oriental, tenho muitas peças de contemporâneo que adoro especialmente em duo.





Quais são os teus próximos projectos e objectivos profissionais?
Neste momento acabei o curso de Métodos e Técnicas Pedagógicas e sigo para o Autismo, Necessidades Educativas Especiais seguindo para o de Terapias Activas e Expressivas. O meu próximo projecto está ligado a mesma a dança claro mas numa vertente mais terapêutica, direcionado para crianças e adultos com necessidades especiais.  Mantenho como sempre as minhas aulas regulares, ainda tudo online, e depois logo se verá. Go with the flow! 


Entrevista DOP - Paula Dahab
Por Rita Pereira
Junho de 2020