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Fantastic Entrevista - Sara Salazar


Sara Salazar é bailarina, coreógrafa e professora de Dança Oriental. Na segunda edição desta parceria entre Fantastic - Mais do que Televisão e o Instagram Dança Oriental Portugal, falámos com esta artista sobre o início do seu percurso, a Academia Sara Salazar, as dificuldades de ser professora de dança em Portugal, a estreia como organizadora de um festival, o seu processo criativo, entre outros temas.

1. Como é que começaste a dançar e, em particular, quando começaste a fazer Dança Oriental?
Comecei a dançar por volta dos 16 anos, com o objetivo de me distrair dos estudos. Nessa altura lembro-me que não tinha jeito absolutamente nenhum. Era extremamente descoordenada. 
As aulas eram com mistura de estilos (jazz, salsa, contemporâneo, dança oriental..). Em pouco tempo apaixonei-me tanto pela dança que me fez “mexer” e procurar por mais. Fui para Londres estudar danças clássicas na Pineapple e posteriormente tirei o curso de Dança organizado pela Promofitness em 2008. Em 2009 tirei um pequeno curso de Teatro Musical e comecei a frequentar aulas de dança jazz. Entretanto por essa altura criei, juntamente com Fátima Sousa, o grupo Shemoves, onde explorávamos muitos estilos, inclusive a dança oriental. Como a dança oriental começou a ser o mais pedido por parte do público, senti necessidade de saber mais e foi aqui que procurei entidades que me pudessem ajudar. Em 2012, ingressei assim na APDV e desde aí nunca mais consegui parar.

2. Quais são as tuas maiores influências artísticas?
Bem, esta é uma pergunta muito difícil. As minhas influências foram mudando ao longo do tempo. Quando comecei, tudo era novidade, tudo me encantava e tudo me influenciava nesta arte. As circunstâncias da vida fazem-nos dar valor e admirar aquilo que anteriormente nos era indiferente. Muitas bailarinas que me passavam ao lado, agora são verdadeiras inspirações. Quando comecei lembro-me que a minha maior inspiração era a Saida. Depois, dependendo dos temas que fui aprofundando, as bailarinas que me inspiravam iam mudando (exemplos: Saida em Técnica de quadril associada aos ritmos; Yamil em deslocamentos no espaço, Didem nos movimentos do abdómen, …. . Estas foram assim as minhas primeiras inspirações a nível de conhecimento técnico. Hoje em dia as minhas inspirações estão direcionadas para o que me faz sentir, seja tristeza, seja felicidade, seja dor, seja.. história. Posso citar a Mercedes Nieto que transforma o movimento em sentimento que me inspira muito; a Dariya Mitskevich por conseguir criar um estilo tão próprio com uma entrega única; a Esmeralda Colabone pela coragem de interpretar as músicas de uma forma tão diferente. Posso citar Randa Kamel, Yousry Sharif, Mohamed Kazafy por me inspirarem na essência da dança. Bem tenho muitos mais, mas lembrei-me destes, a nível pessoal. Enquanto coreógrafa e professora as minhas infuências mudam completamente. Posso citar alguns, Vânia Cezario (explicação técnica), Fériel Rodriguez (criatividade de grupo), Marta Korzun (precisão técnica), Anna Borisova (explicação técnica), Mahaila el Helwa(conteúdos técnicos), Kahina (conteúdos técnicos), Munique Neith (trabalho de grupo), etc. Para trabalho de grupo, todas as outras modalidades na dança são inspirações também. Para além de bailarinos, a música, filmes, família, textos, amigos, paisagens, viagens, diversões são também influentes na minha dança. Sou uma bailarina sensível e por isso tudo que me faça “vibrar”, inspira-me.



3. És professora há alguns anos e tens várias alunas. Quais são as maiores dificuldades de ensinar Dança Oriental em Portugal?
As maiores dificuldades no ensino desta arte são a criação dum método próprio e a organização de conteúdos. Temos de estar em constante aprendizagem e mudança para podermos melhorar. Nas minhas aulas lido com diferentes idades e isso requer um estudo maior pois são maturidades bem diferentes. Em relação às adolescentes, existe muitas vezes o complexo do corpo que as inibe da libertação. Esse foi um ponto que demorou a combater, mas hoje em dia solucionei esse problema com aulas de expressão corporal e exercícios ligados à confiança e amor próprio com a profissional Vera Lima. Cativar gente a partir dos 30 anos também não é fácil. Só este ano é que formei uma turma com idades superiores. Nestas idades há o sentimento de incapacidade para começar algo do zero. Confesso que é uma turma que estou a adorar ensinar .As dificuldades fazem-nos desenvolver como pessoas e como profissionais. Tenho a sorte de ter alunas apaixonadas que me facilitam a vida 😊

4. Em 2018 inauguraste a tua academia dedicada às danças orientais, a Academia Sara Salazar. Fala-nos um pouco sobre o surgimento da tua academia e dos objectivos que tens com a mesma. 
No ano 2018 decidi abrir o meu espaço porque já estava nos meus planos há algum tempo. Já tinha alunas suficientes para esse passo. Sempre sonhei em ter a minha própria escola.  Os meus objectivos com a escola passam por ter uma boa qualidade no ensino, ajudar ao máximo na concretização dos objectivos pessoais e profissionais das alunas, promover a arte da Dança Oriental, participar e organizar eventos, formar grupos, etc…


5. Tu e as tuas alunas costumam trabalhar em vários bares árabes e eventos privados no Norte do país. Alguma vez sentiste algum tipo de desvalorização para com a Dança Oriental nalgum desses espaços? 
A Academia dá a oportunidade das alunas atuarem em diversas festas temáticas. Faz parte do próprio desenvolvimento delas. Quanto à desvalorização para com a Dança Oriental, sim, infelizmente as pessoas não querem saber da essência nem da história desta arte. As pessoas só comentam o físico, a cara, a roupa e se se mexe bem! Cá no Norte existem bares em que eu não deixo as minhas alunas atuarem exatamente por essa desvalorização. Na área dos eventos privados, tenho o cuidado de reunir previamente com quem nos contrata, para assegurar que esta arte é devidamente entendida e valorizada, esclarecendo questões que podem ser anteriormente desconhecidas. Tenho a plena noção que a sociedade adora espectáculo. Na verdade eu também gosto de espectáculo, mas que inclua arte e algum tipo de elevação do espírito. Daí que por vezes seja mais difícil agradar a todo o tipo de público. Estou no entanto muito satisfeita com os resultados, pois temos de ter a noção de que não estamos cá para agradar a toda a gente, mas sim a quem entende (ou faz um esforço por entender e conhecer) aquilo que fazemos.



6. Tens várias alunas que participam e vencem prémios em concursos de festivais de Dança Oriental portugueses e internacionais. Como é que as tuas alunas adolescentes e as alunas mais pequenas lidam com o contexto de competição? 
As minhas alunas lidam bem com o contexto da competição porque eu tento também prepará-las e educá-las para esses momentos. Todas as que costumam ir a festivais encaram a competição como um desafio pessoal. Apenas isso: um desafio que as faz crescer enquanto pessoas e bailarinas. Os prémios obviamente que são sempre bem vindos mas o foco não pode ser esse.




7. Para além do teu trabalho a solo, tens dois grupos premiados onde és coreógrafa: as SheMoves e a Academia Sara Salazar. Podes falar-nos um pouco sobre o teu processo criativo nestas duas vertentes?
As Shemoves são um grupo que começou com pessoas que eram todas amigas. Nunca tivemos o objectivo de sermos um grupo de alta qualidade, mas na verdade a nossa química e energia em palco nunca passou em vão aos olhos do público. O nosso objetivo era sermos felizes. Sempre que participamos em Festivais trouxemos prémio mas nunca foi isso que nos fez mover 😊 Os elementos das Shemoves têm trabalhos em distintas áreas e objetivos maiores do que a dança. Continuamos muito unidas, mas a nível de grupo de dança a disponibilidade condicionou o trabalho.
Quanto à Academia Sara Salazar, apresenta um grupo selecionado de alunas para representar a entidade. As coreografias são trabalhadas ou em aulas ou em horário extra-aula. Enquanto nas Shemoves tudo era decidido em grupo, na Academia Sara Salazar sou eu que tomo a responsabilidade dos desafios que nos são colocados; esses desafios são obviamente bem diferentes, uma vez que os objetivos o também o são.


8. Quais são as maiores vantagens e dificuldades de trabalhar em grupo?
A maior dificuldade de trabalhar em grupo é o silêncio 😊.
Para as coisas funcionarem bem tem de existir alguém a tomar decisões e isso é um pouco difícil (por vezes sinto-me demasiado “mandona”). Mas as vantagens são compensadoras, pela união, pela partilha, pela amizade que é obrigatória nos ensaios.  Para além de tudo isto, em grupo podemos criar imagens e momentos intensos com muito pouco.


9. És organizadora, juntamente com o músico Tiago Simães, de um novo festival internacional de Dança Oriental, o Guimarães Oriental Dance Festival. Como surgiu a ideia de criares o teu próprio festival? 
Sempre tive o sonho de ter o meu festival na minha cidade, mas estava à espera do momento certo. Eu e o Tiago conversamos e achamos que era agora o momento. A ideia já cá estava há algum tempo. Este festival visa dar oportunidade às minhas alunas mais novas de conhecer um Festival de Dança Oriental, poder escolher que mestres internacionais queremos trazer cá, partilhar a nossa arte, criar união entre bailarinas e, claro, promover a qualidade da Academia Sara Salazar e esta arte.

10. Vaagn Tadevosyan, Lylia e Omar Kattan são os cabeças de cartaz da primeira edição deste evento que contará com uma gala de abertura com as escolas nacionais, gala internacional e concurso. Podes falar-nos um pouco sobre como pensada a programação do festival e a escolha destes professores em particular?
As escolhas dos profissionais não foram fáceis. Convidamos o Vaagn Tadevosyan pela sua essência, método de ensino e por ser tão expressivo no movimento (Pop Oriental, khaligi iraquiano); a Lylia pelo seu estilo egípcio e por toda sua agilidade na anca; o Omar pelo excelente músico que é. A gala de sexta tem o objetivo de unir e dar a conhecer todas as alunas de Portugal. São elas que demonstram também o trabalho das profissionais e que mostram o que de melhor se tem feito no nosso país.

11. Como organizadora de um festival, bailarina que concorre e professora que leva as alunas a competições, qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
Como já disse anteriormente, encaro as competições como desafio pessoal e para promover meu trabalho. Se não existissem concursos como poderíamos dar a conhecer a grandes mestres a nossa arte? É mais uma das vias que temos. Os concursos desafiam-me a coreografar para mim ou treinar de uma forma mais séria, porque normalmente o meu trabalho está sempre direcionado para as minhas alunas. Gostava no entanto que os concursos tivessem um formato mais cuidado com as bailarinas, nomeadamente quanto ao carácter pedagógico. Seria bom que os júris conversassem com a bailarina sempre de forma mais construtiva. Sinto que há muitos interesses financeiros nos festivais e pouca preocupação com a bailarina.


12. Qual(is) é/são o(s) factor(es) diferenciador(es) do Guimarães Dance Festival no mercado nacional de Dança Oriental?
O respeito e a valorização das bailarinas/alunas (e consequentemente, do trabalho da profissional responsável), a criação de momentos de partilha para que se criem mais laços entre bailarinas, o conjunto de artesãos e ateliers que existirá no mercado/bazar, a envolvência de público externo, a nossa belíssima cidade, a variedade dos workshops (ainda faltam anunciar alguns), o carácter da Gala de sexta-feira e as surpresas da Gala de sábado. Todos estes fatores serão diferenciadores e irão certamente fazer com que o festival seja um fim de semana bem passado, cheio de arte, amizade, união e partilha entre todas as bailarinas.

13. Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
Felizmente sinto uma união maior 😊. Sinto as bailarinas a apoiarem-se mais entre elas. Eu própria ganhei amizade com tantas bailarinas portuguesas este ano. Temos de aprender a ser humildes e a valorizar e respeitar o movimento do outro. A forma como olhamos para as coisas é que muda tudo. Acho que isso está a melhorar e Portugal está repleto de bons profissionais. Não é um, nem dois, são MUITOS. Há que saber valorizar o que temos.

14. O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Mais festivais, mais oportunidades de formação, mais união e partilha entre os profissionais em Portugal, mais espetáculos com convidados. A Dança Oriental tem vindo a crescer no nosso País e sinto-me muito orgulhosa de contribuir para esse crescimento e que sejamos reconhecidas lá fora. Já agora, dou-te os parabéns pelo teu trabalho, Rita Pereira, o qual tem ajudado também muito na partilha de tudo que acontece cá. Parabéns pela tua iniciativa 😊


15. Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Uma aluna que queira ser profissional terá, na minha opinião, que ter respeito pelos limites do seu corpo e por isso ter paciência, acreditar sempre que irá conseguir, treinar regularmente as suas dificuldades e praticar muito. É importante tirar apontamentos em todas as aulas, para mais tarde organizar, acrescentar e reformular da forma que acredita. Fazer um estudo constante sobre toda a teoria. Para mim depois do nível básico é importante que comecem a dançar para público. Não desvalorizem o nível básico porque ele é – como o próprio nome diz - a base para o futuro; é para mim dos níveis mais importantes a nível de técnica. Acreditem em vocês e sejam sempre fiéis ao vosso coração. Depois de terem algum domínio técnico deixem o vosso corpo expressar-se e encontrem a vossa identidade. Nunca deixem que alguém vos influencie nesse aspeto. Deixarão de ser vocês!

16. Se te pedisse para nomeares um livro, uma peça de dança e uma música que aches que toda a gente precise de ler, ver e ouvir, quais seriam? E porque é que os escolherias? 
Bem, um livro que aconselho todos a ler é “Dentro da loja mágica”, de James R. Doty. Este livro mostra-nos que se acreditarmos verdadeiramente, nós conseguimos. Um filme que me aconselharam e me inspirou muito foi o “o clube dos poetas mortos”. Sê fiel ao que desejas, muda o método e pensa por ti, desapega-te da opinião de terceiros e faz o que te faz feliz, honra a tua individualidade… são algumas das lições de moral que encontrei no filme. Acho que não preciso de dizer mais nada! Em relação à musica, é muito difícil para mim escolher :/ Eu amo música. Eu gosto praticamente de todos os estilos e todos me inspiram à sua maneira!! Mas vou deixar aqui um miminho para vocês 😊 Ouçam a “Soupir Eternel”, de Dapher Youssef! Absolutamente incrível! O meu coração grita quando o ouço! 



17. Quais são os teus próximos projectos e objectivos profissionais?
Neste momento sinto-me um pouco bloqueada de trabalho, por falta de tempo. Tenho muito trabalho e muitos projetos a par da dança! Pode parecer estranho, mas um dos meus objetivos é abrandar em alguns dos trabalhos para assim me poder focar mais fortemente em mim, como bailarina, e na Academia. Quero explorar mais a minha identidade, sem medos! Eu amo cantar e neste momento nem tempo tenho para esse amor. Os meus projectos a curto prazo são por isso trabalhar o crescimento pessoal e fazer a academia crescer e expandir. 😊

Fantastic Entrevista - Sara Salazar
Por Rita Pereira
Abril de 2020