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Viajar porque Sim #6 | Cerejeiras em flor



A Primavera está à porta e a minha proposta deste mês é irmos ver as cerejeiras em flor. Mas aviso já que este roteiro é um bocadinho diferente do habitual: primeiro, porque a floração destas árvores é parcialmente imprevisível e há que estar “em cima do acontecimento”, caso contrário corre-se o risco de já não ver nada; depois, porque apesar de termos cerejeiras em flor em Portugal, sobretudo nas zonas do Fundão e de Resende, desafio-vos a irem desta vez até Espanha. 

Porquê? Porque numa área de apenas 373 km2 existem actualmente mais de milhão e meio de cerejeiras, na sua maioria espalhadas pelas encostas de um extenso vale, o que proporciona um espectáculo único quando estas árvores florescem. E também porque há vários outros motivos de grande interesse para visitar esta região, que fica não muito longe da nossa fronteira: o Vale do Jerte.


A floração das cerejeiras tem lugar na Primavera, durante um período variável de apenas duas ou três semanas, habitualmente entre meados de Março e inícios de Abril. No Vale do Jerte ocorre progressivamente das zonas mais baixas para as mais altas, pelo que o ideal é ir a meio da época, quando já todas as zonas do vale estão em flor. Para marcar a ocasião organiza-se desde os anos setenta a Fiesta del Cerezo en Flor, uma celebração popular que em 2010 passou a ser considerada Festa de Interesse Turístico Nacional, com eventos culturais e gastronómicos que se distribuem pelas várias localidades do vale. Este ano o programa estende-se, como é habitual, de 21 de Março a 3 de Maio e podem encontrá-lo em http://primaveraycerezoenflor.blogspot.com/p/programacion-completa.html, bem como inúmeras informações úteis para quem deseja visitar a região nesta altura.

Segundo as últimas notícias, as árvores já estão prontas a florir e apenas necessitam de que o tempo aqueça mais um pouco, o que se prevê venha a suceder nos próximos dias. Sugiro que vão seguindo as actualizações publicadas periodicamente em http://turismovalledeljerte.com/cerezo-en-flor.

Devido à grande afluência de visitantes nesta altura e aos congestionamentos de tráfego (que podem tornar muito morosas as deslocações entre certas aldeias), o município disponibiliza, nos fins-de-semana que se prevêem mais movimentados, autocarros regulares que percorrem as várias localidades do vale, com bilhetes a preços quase simbólicos.


Saibam também que a flor das cerejeiras do Vale do Jerte é branca, por isso não esperem encontrar a paisagem pintada de rosa como é habitual ver nas fotografias de cerejeiras no Japão. Ainda assim, é um regalo para os olhos e para os sentidos poder passear no meio de milhares destas lindíssimas flores – que se encontram em propriedades privadas, pelo que é necessário respeitar as vedações, quando existem, e ter o maior cuidado ao passar entre as árvores, pois cada flor caída (já nem falo em arrancá-las…) representa menos um fruto que o produtor vai colher.

Dia 1
Plasencia - El Torno - Rebollar - Navaconcejo - Cabezuela del Valle - Garganta de los Infiernos - Tornavacas - Mirador del Valle del Jerte - Plasencia

Distando menos de 400 quilómetros de Lisboa ou do Porto, Plasencia é a cidade que sugiro como base de estadia para visitarem o Vale do Jerte. É por isso a partir daqui que vamos começar este roteiro.

A primeira paragem, a cerca de vinte quilómetros para nordeste, é num local emblemático da encosta do vale: o Mirador de la Memoria. Na estrada CCV-51, um pouco antes de chegar a El Torno, foi instalada em 2009 uma obra escultórica de Francisco Cedenilla dedicada aos esquecidos da Guerra Civil de Espanha e do período da ditadura. São quatro figuras humanas, em tamanho natural e colocadas sobre pedras de granito, que nos surpreendem depois de uma curva no caminho. Se repararmos bem, algumas mostram impactos de balas – parece que uns dias depois da inauguração alguém resolveu dar um toque de realidade ao conjunto e decidiu usá-las para tiro ao alvo, e o escultor achou por bem deixá-las assim como forma de melhor exprimir a ideia da sua obra. A vista que daqui se tem deste miradouro sobre grande parte do vale é verdadeiramente soberba, e aqui começamos a aperceber-nos da dimensão da área ocupada pelas cerejeiras.

  
Depois de uma breve paragem na aldeia de El Torno, que não tem verdadeiramente nada de muito especial, seguimos para Rebollar. É o pueblo mais pequeno e pacato da região, e para conhecer as suas características mais particulares há que entrar na rua secundária que passa pela igreja e procurar a labiríntica Calle El Canchal onde existem, meio escondidas, casas muito antigas, construídas sobre grandes pedras de granito. Algumas são feitas de adobe e têm as estruturas de madeira à vista, segundo a arquitectura tradicional da região.


Descendo para Navaconcejo, vale a pena parar um pouco para ver o rio Jerte mais de perto e passear pela zona (a que chamam balnear) de El Cristo.


Três quilómetros depois, Cabezuella del Valle é a localidade mais povoada da região, e desenvolve-se pela encosta abaixo até às margens do Jerte. De origem medieval, as suas ruas inclinadas permanecem labirínticas e as casas têm no piso superior varandas que avançam sobre becos sombrios.

A primeira grande surpresa do Vale do Jerte vem já a seguir. Dois quilómetros depois de Cabezuela del Valle, uma estrada à direita leva-nos até ao Centro de Interpretação da Reserva Natural da Garganta de los Infiernos. O carro tem de ficar no estacionamento, que é pago – a alternativa é fazer a pé os tais dois quilómetros, mas eu aconselho que poupem as pernas, pois ainda há muito para andar. Vão ser três quilómetros praticamente sempre a subir, em trilho pedestre ou estradão florestal (sugiro ir pela estrada e regressar pelo trilho, pois será um pouco menos cansativo) até chegar ao local que é conhecido por Los Pilones e considerado como uma das zonas de praia fluvial natural mais bonitas de Espanha. Aqui a força da água escavou no granito várias bacias, ou “marmitas de gigante”, formações caprichosas de cor quase branca distribuídas por vários níveis acompanhando a inclinação da encosta, que a água vai enchendo conforme passa. É um lugar onde apetece ficar horas, apesar de ser muito concorrido nos dias em que o tempo está agradável.


De volta à estrada, a última localidade a visitar neste dia, já perto do fim do vale, é Tornavacas, outro povoado que mantém algumas das suas características medievais. Aqui o Jerte é apenas um ribeiro, cruzado no coração do pueblo por várias pequenas pontes, algumas certamente tão antigas quanto a aldeia.



Vale a pena fazer mais meia dúzia de quilómetros até ao miradouro de Puerto de Tornavacas, 1274 metros acima do nível do mar, de onde é possível admirar toda a imensidão da Falha de Plasencia, o enorme acidente tectónico entre as serras de Gredos e de Béjar e Candelario por onde corre o Jerte.

De regresso a Plasencia, aproveitem para conhecer o animadíssimo ambiente nocturno do centro histórico da cidade, com as suas ruas pedonais e os seus bares, restaurantes e esplanadas – sempre cheios de gente, como é habitual em terras de nuestros hermanos.


Dia 2
Plasencia - Valdastillas - Cascata Bonal - Piornal

É também a conhecer mais um pouco de Plasencia que começamos este segundo dia. O coração de qualquer cidade espanhola, como é bem sabido, é a sua Plaza Mayor. A de Plasencia é dominada pela torre renascentista do edifício do Ayuntamiento, onde a estrela é o “Abuelo Mayorga”: um autómato colocado em meados do século XVII como complemento do relógio, e cujo martelo ressoa bem alto quando bate no sino da torre para marcar os intervalos de tempo.


A poucas ruas de distância, uma catedral dois-em-um: duas catedrais unidas, a Velha e a “Nova”, esta construída para substituir a primeira mas nunca acabada – e assim chegaram ambas até aos nossos dias. A antiga é do século XIII, românica mas com um claustro gótico e uma sala capitular cuja cúpula é de inspiração bizantina. Já a nova, principiada no século XV, é puramente gótica mas com retábulo barroco, e tem um cadeiral gótico flamejante magnífico.

Catedral de Plasencia
www.catedralesdeplasencia.org
Plaza de la Catedral, s/n.
10600  Plasencia, Cáceres (Extremadura)
Horário: Verão (1 Abr-30 Set) de terça a domingo 11h-14h e 17h-20h / Inverno (1 Out-31 Mar) de terça a domingo 11h-14h e 16h-19h
Informações: telefone +34 927423843  email: oficina.turismo@aytoplasencia.es


Obrigatório também é ver o aqueduto de San Antón, entre o parque que tem o mesmo nome e o Parque de los Pinos. Desta obra de engenharia construída no século XVI por Juan de Flandres mantêm-se hoje de pé 55 arcos, alguns deles atingindo a altura de 18 metros.


As muralhas são outra característica incontornável de Plasencia. Erguidas no século XII, aquando da fundação da cidade, estão actualmente bem consolidadas e restauradas. Possuem várias portas que dão passagem para o centro histórico, a Porta de Trujillo sendo a que teve maior importância ao longo dos séculos. É possível passear sobre um troço das muralhas acedendo pelo Centro de Interpretação Torre Lucía.

Centro de Interpretación de la Ciudad Medieval de Plasencia
https://www.turismoextremadura.com/es/explora/Centro-de-Interpretacion-de-la-Ciudad-Medieval-de-Plasencia/
Plaza de Torre Lucia s/n
10600  Plasencia, Cáceres (Extremadura)
Horário: Verão (1 Jun-30 Set) de terça a domingo e feriados 10h-14h e 17h-20h / Inverno (1 Out-31 Mai) de terça a domingo e feriados 10h-14h e 16h-19h (Encerra domingos à tarde e segundas-feiras)

O nosso próximo destino é Valdastillas, uma aldeia situada na encosta sul do vale. Subimos pela estrada que se desdobra em curvas e contracurvas no meio dos cerejais, como se estivéssemos entre nuvens de flores. Há vários locais onde é possível parar para passear entre as árvores, e do miradouro é-nos oferecida mais uma vista diferente sobre a região.



A três quilómetros e meio de Valdastillas, mais um local imperdível: a Cascata del Caozo. Basta seguir as tabuletas que indicam o caminho para a cascata, estacionar o carro onde for possível e subir pelo trilho de terra batida e pedras junto ao curso de água. Ao contornar uma rocha, a surpresa: do alto de 30 metros, as águas despencam furiosamente por uma parede de granito abaixo, formando uma enorme e impressionante cascata – tão grande que nos sentimos minúsculos por comparação. Continuando a subir acedemos a uma ponte metálica que permite observar a cascata mais perto e quase de frente.




O último pueblo que sugiro para este roteiro é Piornal. Com um ar um pouco mais moderno do que a maioria das outras aldeias do vale, tem duas particularidades que o distinguem: é a localidade mais alta da Extremadura (1175 metros) e algumas das suas casas têm belos murais pintados nas fachadas. Passeando pela aldeia encontramos várias referências, em pintura e escultura, a uma figura do folclore de Piornal: é Jarramplas, uma personagem vestida com um fato feito de tiras multicoloridas e com uma máscara cónica na cabeça (a fazer lembrar vagamente os nossos Caretos). Nos dias 19 e 20 de Janeiro de cada ano é aqui organizada uma festa, também já classificada como Festa de Interesse Turístico Nacional, que associa as celebrações em honra de São Sebastião ao passeio de Jarramplas pelas ruas da aldeia, tocando tambor, enquanto é bombardeado pelos habitantes com hortaliças e legumes (actualmente é costume serem nabos). Uma das lendas que servem de base a esta festa conta que Jarramplas foi um ladrão de gado que, ao ser descoberto, decidiu submeter-se ao castigo decidido pelos vizinhos. Encarnar a personagem de Jarramplas é motivo de orgulho e a lista de candidatos que aguardam esta distinção é sempre grande – é uma demonstração de coragem e resistência, pois cada desfile só termina com a desistência de quem lhe veste a pele, e quanto maior a duração do “sacrifício”, maior o orgulho da pessoa que o encarna. A participação e o entusiasmo dos “vizinhos” nestas festividades têm vindo a crescer de tal maneira que hoje em dia a pessoa que dá vida a Jarramplas tem de usar uma malha de fibra de vidro por baixo do fato para amortecer o impacto dos projécteis.




Visitar o Vale do Jerte nesta altura, quando os dias estão mais compridos e amenos e a região se enche de flores e vida, é um verdadeiro privilégio, e sem dúvida uma das melhores maneiras de celebrar a Primavera. Vamos?


Ana CB / Março 2020

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