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COMING UP | I Am Not Okay With This



Definitivamente Eleven tem futuro como influencer na atualidade, e a mais recente aposta da Netflix é a prova viva disso. I Am Not Okay With This é a versão instantânea de várias tramas de sucesso, que mesmo com um storytelling aparentemente leve consegue entregar algo muito próximo da perfeição na sua primeira temporada. O humor é do mesmo estilo de The End of The F***ing World, e conta, ainda, com o típico toque clássico das histórias de origem de super-heróis. Está aqui um pouco vários géneros pop neste cocktail de influências que entrega apenas e só o que é necessário. Até porque esta pode ser uma das soluções perfeitas para quem não tem tempo de ver séries vontade de se distrair do mundo. Sem ambições ou pretensões, I Am Not Okay With This foi interpretada pela Netflix como um show B dentro do seu catálogo, mas o hype antes da estreia e a qualidade de diálogos já parecem ter conquistado os fãs, afinal não há grandes riscos quando o plot já condensa a maioria das fórmulas de sucesso. Pode estar encontrada a nova bomba para os fãs de ficção científica que já desesperam pela continuação de Stranger Things.

Quando achamos que misturar dramas adolescentes com superpoderes já deu tudo o que tinha a dar e que nada de novo pode sair desta equação, chegam os protagonistas de It! para nos mostrar que com os mesmos ingredientes ainda é possível conseguir um resultado diferente. Sem grandes enredos que reinventem o género, I Am Not Okay With This e sobretudo a protagonista Sydney conseguem agarrar-nos a um drama escolar e fazer-nos importar com o bem-estar dos alunos sem que a duração de cada episódio nos dê quase espaço para isso. Os diálogos são desenhados em papel químico de outras séries, mas no bom sentido, porque precisamos enquanto amantes de séries de absorver mais deste tipo de humor. Verdade seja dita que já não paciência para as constantes repetições do género de piada que parecem sair de argumentos das sitcoms dos anos 80. Aqui há um equilíbrio entre o que é esculachado, o erudito e o nerd, tão eclético quanto a geração atual procura. Mas mais que a piada, a série procura integrar-se com todos os tipos de público de uma forma completamente natural em que nem o queerbait soa como forçado.


Sim, a série também preenche a sua quota de representação LGBTQ+, que parece quase obrigatória dentro dos produtos originais da Netflix. O processo de autodescoberta da sexualidade da protagonista não tem um tom tão sério quanto podia, porém não deixa de ser contemporâneo com um mundo em que a liberdade sexual já não é separada por caixotes como antes. Na verdade, há uma opção do guião em tornar toda a série em algo bem atual para manter uma atmosfera de realismo e não se prender só ao estilo sobrenatural. Vale ainda a empatia de Sophia Lills que parece ter encontrado um padrão nesta segunda aventura com uma personagem sanguinária. Apesar dos banhos vermelhos, há um trabalho muito melhor conseguido com Sydney do que com Berverly. Desta vez temos empatia com a câmara e os diálogos ajudam a que a interpretação seja muito mais credível e que passe de menina assustada a uma pessoa real. O teor é o mesmo de It!, que lhe serviu de sustento para as cenas, mas desta vez suportada com uma trama que parece ter um melhor background.

A repetição da contracena com Wyatt Oleffpode ser um pouco estranha no início, dado que não existiram mudanças de visual nas duas partes entre um projeto e o outro, mas conseguiram ter uma melhor química do que na película de Pennywise. Wyatt também se conseguiu sobressair e provar que foi desperdiçado antes. Há fluidez entre os dois e um ponto de humor que passa bem próximo das interações entre Zachary Levi e Jack Dylan Grazer em Shazam! Não só pelas cenas em que Sydney e Stanley testam os limites dos poderes da rapariga, mas também pela clara afeição do jovem pelo mundo da Banda Desenhada. Jack Dylan Grazer, foi um dos elementos infantojuvenis de It! por isso todos estes elementos comuns podem estar longe de ser uma mera coincidência. Wyatt dá vida ao extremo oposto de Otis de Sex Education, mas cruzam personalidades quando o assunto é relacionamentos. Mesmo que aqui o sexo não tenha a importância que tem no show de Asa Butterfield, ambos se apaixonam por uma outsider dentro de um liceu, e estranhamente o universo parece conspirar para que o amor aparentemente impossível entre os dois se venha a concretizar. Isto além do facto de ambos partilharem projetos “extracurriculares”.


Os primeiros episódios podem ser uma falha dentro do contexto geral da série. É tudo desenvolvido na mesma lógica que outras tramas nas quais I Am Not Okay With This se inspira e pode chegar a tornar-se algo chato. Mas vale a pena não desistir, porque tudo melhora a partir do episódio quatro, aproveitando o embalo das descobertas sexuais de Sydney, salta-se finalmente as introduções de coisas que já assimilamos nos primeiros cinco minutos de série, para finalmente mergulharmos fundo nas novas abordagens. Apesar de ainda se prender aos velhos estereótipos das vidas adolescentes e de andar sempre no mesmo loop de eventos, conseguimos encontrar um ritmo acelerado, sem tempos mortos e onde o guião deita fora o que não interessa para aplicar uma elipse em tudo o que seja “mais do mesmo”. A semelhanças nos superpoderes com Eleven e na sua integração com os colegas mundanos é um claro reaproveitamento do sucesso, assim como a banda sonora e o estilo 80 que inspira o guarda-roupa, mas as comparações param aí, pelo menos por enquanto pois o gancho final dá a entender que teremos mistérios na cidade que vão além daquilo que já vimos. Colocando de parte Stranger Things, tudo o resto é uma releitura de The End of The F***ing World ao género sobrenatural, fazendo jus às previsões e expectativas dos fãs. Mas mesmo com piadas afiadas, todo o pano de fundo fala de um dos grandes problemas do século XXI: A depressão, e de como nós podemos sentir sozinhos mas várias fases da vida, sem deixar pontos por explorar e com a abertura suficiente para cruzar temas tão sensíveis como o suicídio ou o bullying, sem nos marginar numa dose desnecessária de melancolia ou tristeza. É subtil, mas dá para sentir o real impacto da mensagem, da necessidade que todos os núcleos têm de falar sobre os seus sentimentos e do quão sozinhos estão na sociedade. Mas sente-se esta ligação sobretudo quando se fala na família Novak, onde a perda e o luto pairam a todo o momento. Há espaço para tocarmos na diferença e de como uma personalidade diferente pode ser mais interessante e trazer melhores informações, mas neste arco talvez tenhamos um desenvolvimento maior na segunda season.

As referências são mais que muitas, o que torna esta numa das poucas séries ecléticas dentro da Netflix. É praticamente impossível não gostar de algum dos pontos das histórias, mesmo que não seja uma produção que entre diretamente para o top das listas dos seriólicos. Tudo isto, ainda, com a vantagem da duração de cada episódio que a tornam na escolha perfeita para ver em qualquer pequena pausa que tenhamos no dia, é a série para ver no pequeno-almoço ou no metro, e é fácil de maratonar. Encaixa com a falta de tempo que todos nos queixamos que temos e oferece uma solução interessante dentro deste estilo de plot , sem deixar que compita com outras do mesmo género que têm mais peso e apelo dos fãs, enquanto se torna uma alternativa para quem não é amante de comédia e quer ver algo com pouco mais de 20 minutos. O gancho final é um dos melhores momentos da temporada, que melhora bastante a sua escrita a partir do quinto episódio, deixando antever que agora sim vamos entender o que significa realmente o universo de I Am Not Okay With This. Pode vir já a próxima temporada? Depois do humor e do drama, falta-lhe um bom mistério para o embrulho ter um laço ainda mais perfeito.

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