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COMING UP | Marriage Story [OSCARS]



Quer se ame ou odeie, é impossível negar que Marriage Story é um dos filmes do ano. E não é a academia que o diz, mas o público. A controvérsia em torno do hit da Netflix é tema de conversa de café e fez da obra de Noah Baumbach consulta obrigatória. Este é o documentário ideal para aqueles que sabem que a vida não é cor-de-rosa e que mesmo na perfeição há espaço para o egocentrismo, porque por mais que tentemos o nós nunca estará acima do eu quando nos olhamos ao espelho ou no meio de uma discussão. Marriage Story é o filme que realmente puxa para fora a mágoa e dor de um fim sem se preocupar com malabarismos que o tornem comercial ou apelativo. Apenas a nudez de um caso tão real como o do vizinho do lado que de um momento para o outro vê o baralho de cartas que construiu em casal desmoronar-se sem aviso prévio. É a Netflix a provar que há lugar para o streaming no meio dos gigantes estúdios de Hollywood, mostrando que a sua fórmula tem espaço para algo diferente. Esta é a longa-metragem que atravessa o caminho inverso ao da indústria que dá primazia a projetos de Fast Food. Aqui, o discurso tem carga, tem o peso e o pensamento da emoção. É cru? Sim, mas sem nos deixar desconfortáveis, sem nos pintarem um cenário devastador, porque na vida comum um quadro pode ser só um quadro.

Scarlett Johansson dá o “peito às balas” como protagonista de uma história que está a meio da ponte, sem saber ainda o caminho que vai escolher. Apesar de tudo se centrar na separação do casal, a verdade é que ainda há espaço para a confusão de sensações, para a tentativa de resgate. No entanto, a dureza do fim da “mundanal afeição” fala mais alto. Como em qualquer outra relação, a deles teve várias fases. Todos nós já nos encantamos por alguém ao ponto de ver poucas falhas nessa pessoa, contudo o tempo mostra-nos que não é bem assim e por vezes os defeitos são diferenças irreconciliáveis. Aqui, falamos na necessidade de respirar, na necessidade de ser ouvido no meio de um casamento em que o problema não é o amor, mas sim o conformismo. Há tendência para colocar Nicole como a vilã da narrativa, pelo menos aos olhos do público, mas apenas na visão de quem não se deixa mergulhar na história que ela nos conta. Em momento nenhum nos é dito que já não há amor ali. Deixou de existir paixão e um plano a dois, mas ela continua a apoiar-se na pessoa com quem viveu este tempo todo. O mesmo serve para Charlie, que fechou os olhos e viveu na "bolha" das boas memórias, deixando aspetos importantes de lado e abrindo a porta a inseguranças. É uma “faca de dois gumes”, em que ao mesmo tempo em que não existem culpados, ambos falharam.


A falta de ação é uma das queixas mais recorrentes quando o tema é Marriage Story. Porém, o projeto não nos engana em nenhum momento. Sabemos ao que vamos. É a vida como ela é, e por isso não nos é permitido esperar soluções fora da caixa num argumento que tem a realidade como o único filtro. A maioria de nós já lidou ou ouviu a história de relações com finais conturbados, e por isso apesar da narrativa se desenvolver num tempo muito próprio, sabemos que é assim que funciona cá fora, que este é o reflexo das histórias que vemos na televisão, nos jornais ou na rua do lado. Apenas com menos escândalos, porque no meio de tudo isto, ainda é uma película que fala sobre o amor e sobre o respeito ao outro. É desconcertante e mexe com as emoções, e nem tanto pela história de Nicole e Charlie ter acabado, mas por todas as lembranças que cada pedaço do divórcio desperta na memória coletiva.

Falemos de elenco, que mesmo mais pequeno que a maioria dos indicados ao Oscar, consegue ser um dos que mais chama a atenção. Scarlett Johansson entrega a dureza da transformação, na passagem entre o fim e o início da nova vida, enquanto nos revela os seus sonhos que foi abafando ao longo do tempo, e dando ainda mais sentido ao ditado: “Fecha-se uma porta, abre-se uma janela”. É a metamorfose da sua personagem que lidera a intriga do drama, e a atriz fá-lo com um "jogo de cintura" bem melhor do que o espectável para alguém que reúne um currículo feito quase exclusivamente de uma coleção de Blockbusters de ação. É uma performance vivida que sabe gerir a normalidade e sem abrir espaço a exageros infundados numa das suas melhores prestações de sempre. Mas mesmo assim consegue ficar atrás do seu par de cena. Talvez num ano menos poderoso e com prestações menos criativas, Adam Driver e o seu conflito emocional tivessem a distinção que merecem por uma atuação despida de luzes de ribalta num texto que ainda vem desconstruir a imagem do Homem como o elemento menos emotivo ou sensível de uma relação. Toda a paixão pelo filho é sentida na sua atuação, que nos mostra a espiral de desespero e o quão traumático pode ser um divórcio. Adam carrega grande parte do filme nas costas pelo seu talento incrível em que mesmo os diálogos mais comuns ganham um outro peso e outros significados dentro daquele cenário. Aliás, este projeto com outros protagonistas poderia ter perdido todo o encanto, são eles que lhe dão o brilho certo sem ofuscar os dramas ou mascarar a mensagem.


Por outro lado, há um problema aqui: Laura Dern. Apesar da veterana estar a limpar todos os prémios da temporada e de ter uma prestação tão boa quanto o espectável para o seu talento, falta-lhe enquadramento e novidade. As cenas da advogada Nora caiem no exagero que está fora do desenho de realidade que nos pintaram durante todo o restante tempo de filme. É como se dentro de toda a obra ela fosse realmente a única personagem de ficção, a única coisa criada para uma adaptação ao cinema de uma história lida num jornal. Faltou-lhe alguma condução na personagem, até mesmo para nos apresentar algo diferente do que vimos em Big Little Lies. Porque há pontos em que as duas personagens e seu comportamento de adorable bitch é tão semelhante que soa quase a um crossover da série com o filme.

Em resumo, Marriage Story sabe tocar o ponto sensível de cada um sem se tornar num drama adolescente ou demasiado piegas. É uma mensagem transversal que mesmo com um tempo e uma edição diferente do que estamos habituados a ver nas salas de cinema, nos prova que o streaming é realmente um novo mundo. É a nudez que faltava dentro dos festivais de pirotecnia, não que haja algum problema com as películas de maior ação, mas sabe tão bem quando um projeto nos consegue surpreender numa altura em que já nos parece que vimos um pouco de tudo. É a mesma linha que nos cativou em Boyhood, e que Hollywood sabe reconhecer pelo facto de ser um alívio. Mesmo que não ganhe nenhuma das indicações que conquistou, esta é uma película que facilmente vai continuar a gerar a discussão durante algum tempo. E só por isso, a missão já está cumprida. Falar é bom, de amor ainda melhor.

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