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COMING UP | Parque Mayer [Globos de Ouro]



Quando a política e a cultura se cruzam está aberto o caminho para uma viagem ao passado do nosso país. Parque Mayer é um retrato fiel das histórias que sempre ouvimos sobre o Salazarismo e o Estado Novo, num profundo elogio às tradições nacionais vistas pelo ângulo mordaz do teatro de revista. É um Portugal diferente, mas muito nosso, longe dos clichês numa narrativa que tem tudo para se tornar num novo clássico do cinema nacional.

Muito antes do American Dream, o sonho de um artista era conquistar a capital. E este é o sonho da malfadada Deolinda, a menina que sabe cantar, representar e dançar e que quase foi uma pastorinha, mas que por acaso decidiu não acompanhar Lúcia no dia das aparições. É no seu jeito tragicómico que somos apresentados à personagem que representa Fátima e que coloca o nome de Daniela Melchior na lista de novos talentos nacionais. Conhecida pelas suas protagonistas ousadas e fortes, a dupla António-Pedro Vasconcelos e Tino Navarro repetem a façanha com Deolinda, que por muito azar que tenha consegue mostrar o poder feminino num mundo dominado por homens sem deixar transparecer como algo gratuito.


Melchior vive a mesma cronologia que Julia Roberts em Pretty Woman, e durante o seu trabalho de prostituta acaba por encontrar o homem que a leva a conquistar os seus sonhos. Mas o argumento faz um pequeno desvio para nos tirar do estereotipo e colocar a nu a discriminação de um Portugal onde ser homossexual é crime. A narrativa não deixa espaço para conivências quando o tema é liberdade. Qualquer que seja a origem, da liberdade sexual à criativa, passando pela libertação de uma relação abusiva, o texto coloca o dedo na ferida usando a nossa própria História para mostrar que condenar ou discriminar é algo datado demais para continuar a ser reproduzido em pleno século XXI. Mas não deixa de ser curioso que a maioria dos temas da longa-metragem continuem a ser debates nos tempos que correm, talvez não tenhamos evoluído tanto assim.

Críticas sociais à parte, o projeto soma pontos pelo talento do elenco que além de comercial ainda consegue surpreender. Somando mais um destaque no cinema português, Francisco Froes caminha a passos largos para se tornar num nome de referência na sétima arte nacional. O ator provou saber como carregar uma história captando os trejeitos necessários para encarnar o autor Mário Pinto. A sua atuação segue a mesma linha de exagero controlado e justificado de Ana Nave em Snu. A contracena convence e ajuda a fazer sobressair o talento de Daniela Melchior. Já Diogo Morgado veste a pele do tipo mais humano do plot com todos os defeitos e virtudes que isso possa ter e ainda deixa vontade de o vermos mais vezes no papel de vilão. Mesmo com tudo o que Morgado já fez ainda consegue surpreender-nos, desta feita como cantor dando o tom a duas músicas originais da produção ao lado de Daniela Melchior e Carla Maciel.


Deixando os protagonistas, os coadjuvantes ganham um espaço bem interessante no storytelling. Com os holofotes apontados para si, Carla Maciel consegue roubar a cena, mostrando que merce um destaque maior no nosso panorama. A personagem é um recurso que os autores souberam trabalhar, colocando em alguém tão secundário a resolução do arco de um dos protagonistas ao mesmo tempo que dá destaque para mais uma mulher numa indústria claramente dominada pelo género masculino. Toda esta análise excluindo os veteranos Miguel Guilherme e Alexandra Lencastre, que apesar de não saírem da sua zona de conforto, continuam irrepreensíveis.

Mérito ainda para o guarda-roupa glamoroso da revista, e para os figurinos bem trabalhados, mas sobretudo para os décors extremamente realistas e representativos da geração que Parque Mayer explora. Um acerto feliz do filme que mostra que ainda podemos competir com produções de algumas superpotências de igual para igual.

No seu todo, o projeto consegue ter mãos para tocar em todos os temas a que se propõe com a audácia de tratar a portugalidade sem se tornar numa longa-metragem brejeira ou maçuda. É doseado e leve, com notas de humor colocada no sítio certo e amarrado com uma trama que trabalha muito bem o presente num passado tão importante. Fica a sugestão para um programa familiar, porque este é, sem dúvida, um futuro clássico.

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